Como o livre mercado matou Nova Orleáns

4 de Setembro de 2005

O desastre do furacám sobre Nova Orleáns, com milhares de mortes como resultado, deixou à vista de todo o mundo as carências da grande potência capitalista e imperialista na protecçom mais básica da grande maioria do seu próprio povo. No artigo seguinte, o analista político norte-americano de esquerda Michael Parenti descobre algumhas das chaves e interpreta o acontecido nestes dias na cidade estado-unidense.

 

Como o livre mercado matou Nova Orleáns

Michael Parenti

O livre mercado jogou um papel fulcral na destruiçom de Nova Orleáns e a morte de milhares dos seus moradores e moradoras. Advertidos com antecedência de que um colosal furacám (de força 5) ia abater-se sobre a cidade e as suas redondezas, o que é que os servidores públicos figérom? Pugérom em jogo o livre mercado.

Anunciárom que todo o mundo devia evacuar a cidade. Estava-se à espera de que cada qual ideasse a sua própria saída da área do desastre por meios privados, tal como o livre mercado dita, e tal como acontece quando o desastre cai sobre os países de livre mercado do Terceiro Mundo.

É qualquer cousa formosa, este livre mercado, em que cada indivíduo persegue os seus próprios interesses pessoais, de modo tal que efectua um resultado óptimo para a sociedade inteira. Eis como a mao invisível obra as suas maravilhas.

Lá nom tinha de haver nengumha evacuaçom "colectivista e regimentada", como a desenvolvida em Cuba. Quando um furacám especialmente grande golpeou essa ilha no passado ano, o governo de Castro, apoiado polos comités cidadaos de moradores e os quadros locais do Partido Comunista, evacuou 1,3 milhons de pessoas, mais de 10% da populaçom do País, sem a perda de umha só vida; umha façanha alentadora que ficou praticamente inadvertida na imprensa norte-americana.

No Dia Um do desastre causado polo furacám Katrina, já ficava claro que centenas, se nom milhares, de vidas norte-americanas foram perdidas em Nova Orleáns. Muita gente tinha-se "recusado" a evacuar, explicárom os reporteiros da imprensa, simplesmente porque eram "teimosos". Nom era até o Dia Três que os comentadores -relativamente abastados- começarom a reparar em que dezenas de milhares de pessoas nom puderam fugir, porque nom tinham aonde ir, nem meios para se deslocarem. Com pouco dinheiro vivo disponível, e carentes de viatura própria, apenas lhes restou a opçom de ficarem e confiarem na sorte. No fim de contas, o livre mercado nom funcionou assim tam bem para eles.

Boa parte desta gente era afro-americana com poucos rendimentos, junto com um número menor de brancos pobres. Pode-se lembrar que a maioria deles tinha um emprego antes da visita mortal de Katrina. Isso é o que fai a maior parte da gente pobre neste país: trabalha, geralmente muito duramente em empregos muito mal pagos, por vezes em mais de um emprego em simultáneo. Som pobres, nom por serem preguiçosos, mas por sobreviverem a custo, com ordenários de miséria, enquanto suportam altos preços, alugueres elevados e impostos regressivos.

O livre mercado incidiu ainda de umha outra maneira. A agenda de Bush é reduzir os serviços estatais ao mínimo e obrigar a gente a recorrer ao sector privado para atender as suas necessidades. Assim, reduziu 71.2 milhons do orçamento do Corpo de Engenheiros de Nova Orleáns, umha reduçom de 44%. E tivérom de ser arquivados os planos para fortificar os diques de Nova Orleáns e para melhorar o sistema de bombeamento para a drenagem de água.

Bush sobrevoou a área e dixo que ninguém teria podido prever este desastre. Mais umha mentira que sai dos seus beiços. Todo o género de gente estivera a predizer um desastre para Nova Orleáns, assinalando a necessidade de consolidar os diques e as bombas, e fortificar as terras costeiras.

Na sua campanha para aniquilar o sector público, os sequazes reaccionários de Bush também permitírom que os construtores drenem áreas extensas do pántano. Mais umha vez, essa velha mao invisível do livre mercado havia-se de encarregar de tratar das cousas. Os construtores, perseguindo o seu próprio lucro privado, aduziriam que som respostas em benefício de todos.

No entanto, os pántanos serviam como absorvente e baliza natural entre Nova Orleáns e as tormentas que chegam de mar adentro. Desde há já alguns anos, os pántanos tenhem ido desaparecendo a um grande ritmo da costa do golfo. Mas nada disto causou preocupaçom aos reaccionários na Casa Branca.

No que di respeito à operaçom de resgate, os defensores do livre mercado costumam dizer que a ajuda aos mais desafortunados entre nós deve ser deixada em maos da caridade privada. Era umha pragaçom preferida do presidente Ronal Reagan dizer que "a caridade privada pode resolvê-lo". E, de facto, durante os primeiros dias, essa parecia ir ser a política para o desastre causado polo furacám Katrina.

O Governo federal esbateu-se, mas a Cruz Vermelha entrou em cena. A sua mensagem: "Nom enviem alimentos nem cobertores; enviem dinheiro". Entretanto, Pat Robertson e a Christian Broadcasting Network -a fazer umha breve pausa na sua obra divina de impulsionar a nomeaçom de John Roberts para a Corte Suprema- fijo um apelo para serem feitas doaçons e anunciou a "Operaçom Bençom", que consistia num envio altamente publicitado, mas totalmente inadequado, de conservas e bíblias.

Para o Dia Três, até os meios míopes começárom a reparar no enorme fracasso da operaçom de resgate. A gente estava a morrer porque a ajuda nom chegara. As autoridades pareciam mais preocupadas com prevenirem o saque do que com o resgate das pessoas. Era a propriedade antes do que a populaçom, tal como os defensores do livre mercado sempre establecêrom.

Todavia, surgírom perguntas que o livre mercado nom parecia conseguir atender: quem estava a cargo da operaçom de resgate? Porque tam poucos helicópteros e escassamente um punhado de navios guarda-costas? Porque os helicópteros demorárom cinco horas a tirarem seis pessoas de um hospital? Quando se havia de pôr em plena acçom o operativo de resgate? Onde estavam os feds (Polícia federal)? Os troopers do Estado? A Guarda Nacional? Onde estavam os autocarros e os camions? As tendas e equipas de primeiros socorros? Os mantimentos médicos e a água?

Onde estava a Segurança Interior? O que fijo a Segurança Interior com os 33,8 mil milhons recebidos no ano fiscal 2005? Inclusive o próprio telejornal da tarde da ABC-TV de 1 de Setembro de 2005 citou servidores públicos que a declararem que "a resposta do Governo federal foi umha vergonha nacional".

Num momento de ironia soborosa (e talvez marota), chegárom ofertas de ajuda exterior por parte de França, Alemanha e várias outras naçons. A Rússia ofereceu remeter dous avions carregados de alimentos e de outros materiais para as vítimas. Como era previsível, todas estas ofertas fôrom rapidamente rejeitadas pola Casa Branca. América, a Formosa e Poderosa, América, o Salvador supremo e Líder Mundial, América o Provedor da Prosperidade Global, nom podia aceitar a ajuda exterior de outros. Tal seria umha inversom dos roles humilhante e insultante. Será que os franceses estavam à procura de um outro lapote no nariz?

Aceitar a ajuda exterior teria significado admitir também a verdade: que os bushistas reaccionários nom tinham nem o desejo nem a decência de protegerem os cidadaos comuns, nomeadamente aqueles em situaçom de extrema necessidade. Quem sabe se a gente começaria a pensar que George W. Bush realmente mais nom era do que um agente com contrato fixo da América corporativa.


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