Putin em Madrid

8 de Fevereiro de 2006

Reproduzimos o artigo escrito por Carlos Taibo, especialista em política internacional e em concreto nos países do Leste da Europa, publicado em Vieiros coincidindo com a primeira visita de Vladímir Putin ao Estado espanhol. Neles fai-se umha análise da situaçom actual do imperialismo russo, em forma de balanço negativo.

Putin em Madrid

Ao abeiro da visita de Putin a Madrid, expertos e profanos teimam, mais umha vez, na tarefa de avaliar quem é, e que fai, o presidente russo. Já sabemos qual é o juízo mais comum: enquanto, dum lado, se sinalam as querenças autoritárias do nosso homem, doutro, e mal que bem, sugere-se que Putin está a aplicar com energia, e com êxitos visíveis, o seu programa.

Adiantemos que nada corresponde opor à primeira dimensom do diagnóstico: a Russia é hoje, no melhor dos casos, umha democracia de baixa intensidade em que se revelam amiúde espasmos autoritários, a oposiçom é objecto de repressom, os direitos som desprezados e os meios de comunicaçom dissidentes fôrom silenciados. Há, porém, muitos motivos para o receio no que se refere à segunda parte do enunciado: ainda que seja inegável que Putin sai beneficiado das comparaçons com o seu antecessor, Ieltsine, sobram as razons para duvidar de que a sua gestom seja um êxito. E sobram por muito que as opinions da maioria dos russos convidem a fugir das conclusons firmes. E é que o russo da rua abraça umha curiosa percepçom em que se combinam umha inequívoca consciência dos problemas e umha geral adesom à figura do presidente.

Mesmo com a certeza de que os dados podem ordenar-se de muitas maneiras, há razons de peso para o receio com respecto ao êxito do projecto de Putin. Digamos, polo que fai agora, que o pulo recentralizador que o presidente tentou imprimir no Estado federal russo nom tem produzido, felizmente, o resultado desejado: muitas repúblicas e regions estám a preservar para si atribuiçons que as leis formalmente lhes negan, sem que a 'vertical do poder' prosperasse. Claro que ainda é menos estimulante o panorama na Chechénia, onde --diga o que dixer a propaganda-- a guerra prossegue e a perspectiva de rendiçom da resistência semelha longe. Se é legítimo lembrar que o ocorrido na Chechénia desde 1999 foi decisivo para afortalar a presidência de Putin, cumpre recear das vantagens que o inquilino do Kremlin é chamado a obter a médio e longo prazo, tanto mais quanto que umha parte da cidadania russa começa a fazer perguntas inquietantes a si própria.

Tampouco nom faltam as discussons sobre a situaçom da economia, embora seja inegável que, desde 1999, esta última vive numha etapa de bonança. Bem é verdade que a explicaçom maior ao respeito conduz para um dado externo, a subida operada nos preços internacionais do petróleo, convertida em autêntico balóm de oxigénio. Ficam as dúvidas, porém, no que atinge à habilidade dos governantes para, ao amparo da bonança mentada, introduzir reformas que fechem calquer horizonte de recessom. Todos os estudos sérios afirman, contodo, e aqui estamos diante dum indicador mais do fiasco das políticas putinianas, que estas nom estám a rebaixar os agudos problemas sociais que o país arrasta. Enquanto os oligarcas vem como as suas contas crescem, a percentagem de populaçom que mal vive por baixo do limite da pobreza a duras penas tem-se reduzido.

As habilidades de Putin medem-se também numha severa polémica sobre os citados oligarcas. Só os mais ingénuos sustenhem que o presidente se tem imposto a estes. No melhor dos casos, tem-se enfrentado àqueles --Gusinski, Berezovski, Khodorkovski-- que tivérom a má idea de contestarem as suas políticas. Os demais, a maioria, movem-se sem problemas e estám a beneficiar-se do desinteresse dos juízes polas fórmulas que, após a imoral privatizaçom da década de 1990, permitírom lavrar formidáveis fortunas. Como contraprestaçom, Putin pouco mais tem demandado que umha conduta mais ajeitada ao canom dum capitalismo regulado, acompanhada, isso sim, dumha franca condescendência quando os amigos do presidente abrem caminho no mundo das grandes corporaçons. É difícil que, malia a censura informativa que a cidadania padece, tanta miséria escape por completo à sua consideraçom.

Nom sopra bom vento, em suma, em política exterior. Malia as ínfulas neoimperiais que impregnam os discursos oficiais, a Rússia é hoje umha potência de segunda ordem, mesquinhamente dedicada à defesa dos seus interesses mais prosaicos e amiúde atada ao carro norte-americano. Ninguém sabe, de resto, que é o que esta submissom está a deparar a Moscovo, que tivo que aceitar o escudo antimísseis estado-unidense, umha nova ampliaçom da NATO, o assentamento de bases norte-americanas no Cáucaso e na Ásia central, e, enfim, o apoio da Casa Branca às 'revoluçons laranjas'. Nom se entende bem, por outras palavras, de que pode presumir Putin neste terreno.

Voltemos, se se nos permitir, ao início, e fagamo-lo da mao da sugestom de que o craso erro de percepçom que, no que às habilidades de Putin se refere, inunda as nossas análises nom é producto da improvisaçom: nasce, antes, do desígnio de justificar --cos interesses sempre por cima dos princípios-- umha toleráncia sem limite dos nossos governantes ante todo o que permitir afortalar umha Rússia que receba sem pejas os nossos investimentos e entregue sem receio as suas matérias primas energéticas.

 

 

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