O movimento das sufragistas: modelo de combatividade

7 de Outubro de 2005

Reproduzimos o artigo da feminista portuguesa Ana Barradas, publicado pola revista Política Operária, em que a autora nos aproxima do movimento sufragista e da sua importáncia na luita histórica das mulheres pola sua emancipaçom.

O movimento das sufragistas. Modelo de combatividade

Ana Barradas

[Publicado no número 100 da revista comunista portuguesa Política Operária, correspondente a Maio-Junho de 2005]

Como em quase todo o que di respeito ao feminismo, criou-se modernamente umha imagem depreciativa do movimento das sufragistas inglesas do começo do século passado. Bom seria que aprendêssemos com os seus exemplos de firmeza política.

Partindo da consulta de jornais, revistas, arquivos, bibliotecas, cartas, diários pessoais e relatos autobiográficos das sufragistas inglesas do princípio do século XX, Joyce Marlow construiu, num livro recente [1], umha narrativa emocionante e verdadeira do movimento que, abalando a patriarcal sociedade vitoriana, conquistou o direito de voto para as mulheres, em 1928. Esse direito elementar nom lhes foi dado de mao beijada; foi umha conquista duramente alcançada que incluiu mártires, prisons, condenaçons, greves de fame, até acçom directa violenta.

É esse aspecto extremo da luita das sufragistas que mais impressiona e nos fai reflectir. Hoje nom se tem umha ideia da coragem que foi precisa para desafiar as prisons sucessivas, a alimentaçom forçada por entubaçom - três vezes ao dia, por vezes semanas e meses a fio, até chegar ao limite da resistência física e mental - e, como se nom bastasse, a hostilidade machista quando se apresentavam em público para fazer propaganda, em que eram recebidas com insultos, agressons e ataques com ovos, fruta podre e lixo.

Este ambiente profundamente hostil explica que as tácticas das sufragistas tenham sido tam radicais, inventivas e variadas. Junto do parlamento e do governo, nom davam tréguas aos políticos; pressionavam os partidos e personalidades influentes, obrigavam-nos a explicar-se e a tomar posiçom; resistiam à acçom da polícia prendendo-se com correntes de ferro às grades e monumentos; para combater a parcialidade da imprensa, criárom órgaos próprios que vendiam na rua aos milhares; nos julgamentos, recusavam-se a pagar multas e optavam sempre pola prisom; para chamar a atençom do grande público organizárom cortejos alegóricos, lançárom panfletos de um balom, passeárom nas ruas umha carruagem puxada por mulheres, a simbolizar a opressom, exibírom cartazes num barco no Tamisa sob a varanda onde centenas de parlamentares tomavam chá.

Na fase mais aguda da luita, de 1910 a 1914, inspiradas nas tácticas do movimento independentista irlandês, recorrêrom à acçom directa, muitas vezes de iniciativa individual. Sob o lema "Actos, nom Palavras", as activistas partiam janelas, cortavam fios telegráficos, enfrentavam a polícia na rua e faziam duras greves de fame na cadeia. Além disso, interrompiam as sessons da Cámara dos Comuns lançando sacos de farinha sobre os deputados, esfaqueavam quadros nos museus e faziam rebentar explosivos de fraca potência nos estádios. O acto mais impressionante foi de Emily Davison, licenciada em Oxford e militante da WSPU [Uniom Social e Política de Mulheres], alimentada à força na prisom quarenta e nove vezes, que sacrificou a vida pola causa lançando-se para a frente do cavalo do rei na famosa corrida do Derby.

No plano mais geral, fôrom exemplares a campanha de recusa ao pagamento de impostos e contra o censo de 1911: as sufragistas entendiam que, se as mulheres nom eram consideradas cidadás para efeitos de voto, também nom o seriam com o objectivo de ajudar o governo a compilar as suas estatísticas ou a sustentar as despesas públicas.

Atacando em todas as frentes das formas mais diversas e imaginativas, ao mesmo tempo que suportavam com heroicidade as sevícias prisionais, tornárom-se completamente visíveis e incómodas para todos os actores políticos, que se vírom obrigados a deixar de as ignorar e a posicionar-se em relaçom às suas reivindicaçons.

Umha das razons para este protagonismo prende-se com a base social de apoio que o movimento soube conquistar e com as organizaçons de base que foi formando. Começado inicialmente por iniciativa de algumas mulheres da pequena burguesia, apoiadas por duas ou três aristocratas, ele foi-se alargando sucessivamente, até incluir largos sectores operários e populares. Mulheres de todas as profissons e grupos sociais fôrom aderindo e participando aos milhares, com acçons espectaculares como as "peregrinaçons", que percorriam a pé centenas de quilómetros, unindo as regions e as cidades e dando umha ideia física da amplitude e força da organizaçom. O governo respondia com brutalidade. Em 1913, foram presas mais de mil sufragistas.

Durante a guerra de 1914-18, quando as duas principais organizaçons femininas decidírom (tal como os sindicatos, aliás) suspender a sua campanha para aderir ao esforço de guerra, muitas activistas opugéroam-se ao militarismo, objectando que se glorificavam os heróis do campo de batalha enquanto se esqueciam os heróis e heroínas da paz.

Após o interregno da guerra e até os anos 1940, conforme relata um outro trabalho de Hilda Kean [2], a luita prosseguiu. Valendo-se do facto de terem contribuído de forma decisiva para o bom funcionamento da sociedade e da produçom enquanto os homens estavam ausentes na guerra, as mulheres, ao mesmo tempo que conservavam umha parte dos seus novos postos de trabalho, passárom a outras reivindicaçons.

Com efeito, o direito de voto já revelara as suas limitaçons. Todas percebiam que nom estava adquirido o essencial. Os percursos individuais das activistas estivérom intimamente relacionados com as campanhas pola igualdade salarial, o direito de voto e o reconhecimento do estatuto como profissionais de pleno direito, sobretodo no caso das professoras primárias, um dos sectores mais activos.

Um dos cavalos-de-batalha das sufragistas residia nos métodos de ensino que vigoravam na educaçom primária, extremamente autoritários e repressivos. Nas escolas onde leccionavam, as feministas destacavam-se polo alto nível de preparaçom das crianças sob sua orientaçom, qualquer que fosse a origem de classe. Em Londres, preferiam trabalhar nos bairros operários.

QUE DIFERENÇA DOS DIAS DE HOJE!

Estes relatos revelam umha concepçom avançada de luita política, hoje posta de parte em todas as luitas sociais. Nos nossos dias é difícil encontrar movimentos feministas de base popular, dedicados a promover a consciência e o desejo de mudança. As feministas mais radicais desaparecêrom ou passárom a dedicar-se aos estudos académicos ou às reformas sociais. Deixárom de desafiar as instituiçons de dominaçom e teorizam umha suposta necessidade pedagógica de fazer compreender a sua causa, adiando para as calendas o confronto que é obrigatório promover para revelar claramente as contradiçons e para que algo comece a mudar.

As organizaçons de mulheres que dantes reivindicavam umha prática organizativa democrática, com estruturas nom hierárquicas, acabárom por imitar as instituiçons existentes. Seduzidas polos financiamentos postos à sua disposiçom, dedicam-se agora a obras sociais ou de formaçom profissional, todas elas concorrendo, ainda que indirectamente, para o reforço do Estado e dos governos. Veem a igualdade de direitos enquadrada no sistema e nom denunciam a desigualdade fundamental, a económica, que condiciona mais do que todas as outras condiçons de vida das mulheres, sobremaneira deterioradas desde que se iniciou a dominaçom neoliberal. A acçom feminista, virada para outros objectivos, nom tem praticamente influência alguma nos salários das trabalhadoras mais exploradas e mais discriminadas e nos sectores em que predomina o emprego feminino mal pago (têxteis e vestuário, alimentaçom, serviços indiferenciados na educaçom e na saúde), embora as mulheres da classe média tenham vindo a ascender nas suas carreiras.

O crescente assalariamento das mulheres e as contradiçons de classe que as dividem (chefas e subordinadas, patroas e empregadas, senhoras e criadas) reduzem o espaço para as reivindicaçons comuns. Mesmo assim, causas como o direito ao aborto, o assédio sexual e a violência masculina tenhem condiçons para unir todas as mulheres.

Porém, mais campanha, menos campanha, o domínio do homem continua a exercer-se, dentro e fora de casa. Os políticos som os primeiros a dar o exemplo, com os seus governos, parlamentos e autarquias monocromaticamente preenchidos com o cinzentismo do fato e gravata. No mundo da hierarquia estatal e empresarial, a mesma coisa, a todos os níveis. Nos sindicatos e outras formaçons supostamente mais democráticas e populares, a mulher surge timidamente representada e sempre alinhada polas posiçons dominantes.

No plano da vida quotidiana, nom é só a violência contra as mulheres que as impede de se sentir livres e sem medo. É o salário desigual, a segregaçom sexual no local de trabalho, a condenaçom aos escalons mais baixos nas hierarquias, os efeitos gravosos da reduçom dos gastos públicos, a luita cada vez mais dura pela sobrevivência, a noçom de que as conquistas relacionadas com os direitos reprodutivos estám sob ataque, podem sofrer novos recuos e, na melhor das hipóteses, som tuteladas por decisons tomadas por outros, segundo critérios patriarcais.

Os movimentos feministas deixárom de ser motores de mudanças sociais e nisso acompanham quase todos os movimentos que no passado tivérom um papel revolucionário. Muito preocupados com a sua reputaçom e desejosos de se fazer aceitar, acabam por nom estar dispostos a fazer seja o que for para se porem à margem dos manuais de boa conduta que lhes prescrevêrom as instituiçons com as quais se relacionam. A tentativa de tornar o feminismo mais aceitável (em especial junto dos homens) despojou o movimento de programas políticos e ganhou-lhes umha respeitabilidade altamente suspeita, no sentido em que os paralisa.

Outras tantas "doenças" que só poderám ser curadas quando se renovar o espírito combativo das sufragistas de há cem anos.

Notas

1. Votes for Women, de Joyce Marlow, ed. Virago Press, Londres, 2001.
2. Deeds not Words. The Lives of Suffragette Teachers, de Hilda Kean, ed. Pluto Press, 1990.


 

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