Intervençom de Carlos Taibo nas X Jornadas Independentistas Galegas: Desafios e necessidades da esquerda no século XXI

5 de Abril de 2006

A seguir, reproduzimos na íntegra a intervençom de Carlos Taibo no debate da manhá do sábado dia 18 de Março de 2006, dentro das X Jornadas Independentistas Galegas que decorrêrom na capital da Galiza.

 

Intervençom de Carlos Taibo nas X Jornadas Independentistas Galegas: Desafios e necessidades da esquerda no século XXI

Devo confessar-vos que a minha presença aqui só pode justificar-se em virtude da minha amizade, de anos, com os companheiros de Primeira Linha. Actos como este demonstram que, por muito que amiúde se afirme o contrário, os organizadores desta palestra som qualquer cousa menos gentes sectárias. O que acabei de dizer na frase inicial justifica-se na certeza de que nesta altura sou incapaz de dizer algo genuinamente novo sobre a esquerda e os seus problemas. O facto de estarmos sempre a falar do mesmo configura por si só um indicador sólido -digamo-lo com clareza- de que eses problemas nom estám a recuar.

Mesmo assim, e como quer que sou um profisional, vou propor-vos oito observaçons que, mal que bem, e a falta doutro horizonte, talvez podam servir para articular umha discussom entre todos nós. Adentremo-nos nelas.

1. É preciso considerar criticamente o que fôrom as duas grandes cosmovisons que marcaram a deriva das esquerdas do século XX. No que atinge à social-democracia, cumpre sublinhar que no melhor dos casos se contentou com limitar os estragos mais ferozes do capitalismo; na maioria das circunstáncias, acatou sem mais a lógica deste último, com conseqüências que é fácil determinar. No que se refere aos experimentos de socialismo irreal registados em cenários diferentes, todos se vírom lastrados pola alegada existência duma ciência social que nos outorgaria certezas, pola paralela gestom desa ciência por umha vanguarda iluminada e pola dramática marginalizaçom, repressom e exploraçom dos grupos humanos que deveriam dirigir os processos correspondentes. Hoje som visíveis as pegadas das duas cosmovisons mencionadas na forma de partidos, sindicatos e organizaçons nom governamentais que merecem umha crítica urgente.

2. Cumpre defender sem fisuras a democracia de base e a autogestom, para rejeitar ao tempo a política como profissom e, com ela, os liberados e as hierarquias. Parece que destes aspectos som particularmente conscientes muitos dos integrantes dos movimentos antiglobalizazom, que respondem a um impulso libertário menos vinculado com umha leitura ideológica dos clássicos do anarquismo do que com umha percepçom vivencial das conseqüências que a política como profissom tem em organizaçons que se autodeclaram transformadoras. Por trás, o que agroma nom é outra cousa que a convicçom de que as sociedades podem e devem organizar-se sobre bases voluntárias, sem o concurso de fórmulas coercitivas.

3. Há que desenvolver desde já as regras próprias dum mundo novo, sem aguardar à toma de palácios de inverno. Antes da Guerra Civil espanhola a Confederaçom Nacional do Trabalho, a CNT anarcosindicalista, dispunha dumha ampla rede de ateneus, escolas, quintas e fábricas que permitiam perfilar materialmente o conteúdo desse mundo novo que se tratava de criar. Que significativo é que hoje, polo contrário, os sindicatos que conhecemos pouco mais disponham que dumha agência de viagens e dum serviço de cabeleireiro! Quando me preguntam porque apoio o movimento de okupaçons respondo sempre o mesmo: porque, mesmo na sua humildade, implica umha transgressom material da lógica legal do sistema capitalista, e isso é, por si só, importante.

4. É preciso pescudar nos ámbitos da vida política e social em que o trabalho das nossas organizaçons é visivelmente deficitário. Proporei dous exemplos do que quero dizer. Se nos sindicatos há que estimular a presença crescente de desempregados e imigrantes, noutras muitas instáncias cumpre perguntar-se porque estám tam dramaticamente ausentes os velhos. Trabalhar para resolver estas carências bem pode ser um estímulo para o crescimento e a maturaçom de muitas organizaçons.

5. Por muito que seja evidente, compre rejeitar em todas as ordens a lógica própria do capitalismo. Se isto nom precisa de maior demonstraçom, sim convem sublinhar que organizaçons que dim contestar essa lógica aceitam nos factos a maioria das suas conseqüências. Que ilustrativo é, por exemplo, que as três forças políticas presentes no Parlamento da Galiza apoiem sem dúvidas um comboio de alta velocidade que só obedece aos interesses do grande capital. As tomadas de posiçom que falam da necessidade de defender os interesses galegos devem explicar, por outra parte, que é o que corresponde entender por estes. Nom som os mesmos os interesses das nossas elites políticas e económicas, dum lado, e os que abraça, polo outro, o resto da populaçom.

6. É prioritário discutir e reivindicar o que sistema considera que som questons fechadas. Umha das maiores urgências ao respeito é resgatar o debate sobre a autodeterminaçom, e apresentar esta como o que é: um direito democrático. Como pode ser que se iluda o problema suscitado polo facto de que numha comunidade política umha parte significada da cidadania se sinta incómoda no Estado em que é obrigada a viver? Por mencionar um segundo exemplo de questons marginalizadas da discussom pública, é preciso analizar com olhos hipercríticos umha Uniom Europea que até agora se viu beneficiada entre nos dumha franca censura no que respeita às consideraçons que se interessam polos seus problemas, e carências, reais.

7. Há que recuperar as palavras que o sistema quer que esqueçamos, e isso sem necesidade, bem é certo, de colocar o vocábulo 'imperialismo' cada três linhas. O termo adequado para descrever os movimentos de que antes falei é -creio eu- o de 'movimentos antiglobalizaçom', de tal jeito que cumpre fugir da atitude de tantas gentes que estám intensamente preocupadas polo que os poderosos ham de pensar ao respeito. Claro que convém irmos mais longe: quando, o passado Outono, nos sentimos na obrigaçom de reclamar um ensino público, gratuito, laico, universal e da qualidade -frente à lógica privatizadora imperante- amiúde esquecemos que há vinte anos adoitavamos criticar agremente, carregados de razom, o ensino público, por entender que este último configurava um elemento central na lógica reprodutora do capital. Devemos recuperar este tipo de consideraçons e incorporá-las ao nosso discurso.

8. Temos motivos suficientes para concluir que, mália certas aparências, as cousas nom vam a pior. Talvez isso seja assim devido à pressom, cada vez maior, que desenvolve o capitalismo globalizado. Mesmo nesse horizonte, por toda a parte se percebe o renascimento de iniciativas de resistência e transformaçom que convidam, como pouco, a um moderado optimismo.

Termino como comecei. Os participantes nesta palestra emitimos umhas e outras ideas. Na maioria delas coincidimos; nalgumhas, como era lógico, discrepamos. Pouco importam os acordos e as dissidências, porque o nosso principal problema nom é este: o nosso principal problema consiste em determinarmos que é o que devemos fazer para que esas gentes que estám ai fora, na rua, sintam a necessidade imperiosa de modificar as suas vidas e de contestar a miserenta ordem existente. Porque nós, feliz ou infelizmente, nom podemos contentar-nos com a conclusom, tam habitual no discurso dos políticos, de que aos cidadaos há que falar-lhes das cousas mais imediatas, do custo da vida, dos preços dos alugueres, dos transportes ou das eivas do sistema sanitário. Temos que demandar-lhes precisamente que transcendam eses ámbitos e luitem por transformar as relaçons que explicam tantas misérias. Parafrasando Walter Benjamin, a nossa tarefa é difícil. Temos que arranjar um comboio avariado, mas nom é suficiente com mudar o óleo: devemos conseguir ao tempo que a locomotiva mude de via.

 

:: Especial X Jornadas Independentistas Galegas

 

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