Urbanismo e violência

13 de Novembro de 2005

A historiadora basca Alizia Stürtze parte neste artigo das violentas revoltas populares que se vivem nas últimas semanas em numerosas cidades de França para analisar a relaçom entre urbanismo e modelo socioeconómico. Umha lúcida reflexom sobre o carácter de classe da configuraçom das cidades sob o domínio do capitalismo neoliberal e a sua imbricaçom numha segregaçom social com base nas crescentes diferenças económicas entre o centro e a periferia do sistema. Reproduzimos, traduzido para a nossa língua, o artigo publicado hoje mesmo em espanhol polo diário basco Gara.

Urbanismo e violência

Alizia Stürtze

De que "guarida" foi que saírom essas massas de jovens desesperados que, com "apurado racismo democrático", ministros e comunicaçom social chamam de "imigrantes de terceira geraçom", "bandos incendiários", "hordas perigosas", "chusma merecente da mais implacável das puniçons"… Onde foi que mantivérom invisibilizada durante tantos anos a palpável marginalizaçom e o claro fracasso do "estado de providência" que essa "rebeliom dos miseráveis" que pegou nas periferias das cidades francesas e está a alastrar a outras urbes europeias representa? Como é que se compreende que na Cidade, nesse espaço que nos vendem como sendo inclusivo, integrador, solidário, intercultural e multiétnico, existam (e se potencializem) tais muros, reais e simbólicos, tal "separatismo social", tal classista segregaçom espacial/económica/social entre pacíficos cidadaos de bairros "top" e "gentes" de bairros "sensíveis", desarraigadas, ameaçadoras e potencialmente violentas?

Porque acreditamos nessa mentira mediática que, perante as imagens de jovens proletários/excluídos a queimarem carros ou fazerem frente à a polícia, deixa entrever que pobreza e violência vam necessariamente unidas, que essa violência é sempre unilateral e gratuita, e que apenas a estratégia policial/militar de "toleráncia zero" pode levar segurança às cidades, como esses racistas/fascistas filmes ianques de "polícias salvadores contra pretos perigosíssimos" levam tanto tempo a nos mostrarem? Nom será que esses jovens radicalizados recorrem à violência social como único modo de visibilizarem as gravíssimas conseqüências que a violência da urbanizaçom actual, produto por sua vez do capitalismo neoliberal, está a fazê-los padecer? Afinal, como certeiramente Yves Pedrazzini sublinha no seu livro "La violence des villes" (A violência das cidades), a mundializaçom da economia tem determinado, entre outros aspectos, um certo tipo de arquitectura, de urbanismo, de "cidades globais" que imponhem umha série de práticas sociais e espaciais que fam o jogo à violência do sistema: umha crítica da mundializaçom neoliberal deveria ir ao encontro de umha crítica do urbanismo actual.

Noutro tempo, para quem éramos de esquerda, o urbanismo era um dos reflexos dos interesses da classe dominante. Um dos paradigmas dessa afirmaçom era constituído precisamente pola remodelaçom de Paris protagonizada polo barom Haussmann, sob o império de Napoleom III, consoante os interesses da grande burguesia francesa: a construçom desses 165 quilómetros de largos bulevares e avenidas que ainda continuam a caracterizar a capital francesa diziam respeito à necessidade de potencializar a especulaçom imobiliária e, em simultáneo, facilitarem as cargas da cavalaria na repressom das recorrentes revoltas proletárias.

Nom fai falta viver numha grande metrópole do Norte ou do Sul… em Bilbau, Donóstia, Irunhea, Gasteiz ou Baiona (embora sem dúvida em menor medida), também se pode perceber a relaçom directa entre os projectos urbanísticos dos últimos anos, que tenhem desestruturado totalmente as nossas cidades e transmutado a sua alma, e os grandes planos segregacionistas da fase actual do capital. Todos os projectos urbanísticos recentes respondem ao mesmo plano director, que vem claramente marcado polo imperialismo neoliberal, e ao qual respondem as estratégias das grandes construtoras e imobiliárais e os poderes locais com os seus modelos de cidade asséptica, vigiada, sem pintadas, sem vida, sem latejar…

Após terem potencializado a criaçom de sociedades medrosas (ameaçadas) e identificado o inimigo potencial com o pobre ou o imigrante (sem esquecer o terrorista), conseguírom globalizar a ideologia da segurança e a necessidade de "consumir" segurança. Isto permitiu-lhes nom apenas encher o bolso (a "segurança" é hoje um dos melhores negócios), mas ainda transformar totalmente a paisagem urbana e legitimar umha filosofia política da repressom que converte as cidades em cárceres lotados de seguranças e cámaras, completamente fragmentadas entre espaços hiperprotegidos e espaços "perigosos". Neste modelo excludente de cidade, a localizaçom dos bairros pobres nom é, com certeza, nada casual. Responde a estratégias defensivas que tencionam dividir e manter as diferentes classes sociais afastadas, ao passo que negam qualquer protecçom aos excluídos face aos devastadores efeitos da orgia privatizadora actual que, de passagem, conseguem invisibilizar.

Entretanto, vende-se segurança aos "incluídos", privatizando os espaços públicos e convertendo-os em shopping centers supervigiados, aos quais os pobres nom tenhem acesso, e a partir dos quais as multinacioanis da alimentaçom, do vestuário ou a comunicaçom nom só vendem as suas marcas, como também introduzem umhas novas atitudes centradas unicamente no consumo, "esse consolo colectivo contemporáneo com que esquecer a insegurança". Fica assim erradicado todo o público, considerado perigoso contanto que "aberto a qualquer um", enquanto se privatizam, em benefício de umha elite, mercados, ruas, avenidas, praças e até o subsolo, e se geram cidades ultraconservadoras e repressoras a partir da sua mesma estrutura.

É o que uns chamam de "urbanismo do oprimido" e outros de "urbanismo do medo". As divisons sociais, os relacionamentos de poder, ficam marcados nesse espaço urbano, o que fai com que os cidadaos de pró julguem que exista umha "violência dos pobres" (natureza criminosa da pobreza) de que cumpre proteger-se, e que esqueçam a opressiva realidade de umha violência estrutural que, marcada a dia de hoje pola barbárie neoliberal e a insegurança existencial, aterroriza desde a nascença todos esses jovens dos bairros com o desemprego, a falta de formaçom, o racismo, a degradaçom dos serviços sociais, a deterioraçom e a insalubridade da habitaçom… mas que também deveria aterrorizar todos os "incluídos" que julgam estar a salvo.

Agora, ao pé das leis de excepçom, Chirac propom umha reestruturaçom desses bairros periféricos em chamas. Dada a classe que defende e as suas racistas e classistas opinions sobre essa "gentalha" vandálica que levam anos a depauperar, nom podemos ficar à espera de nada de bom. Engana-se, no entanto, se calcula que seja possível arranjar umha segurança real e duradoura com base no aprofundamento da discriminaçom e da desigualdade, fundamentada em combater as conseqüências dos problemas e nom as causas.

Já nom serve esse "vigiar e punir" a que, segundo Foucault, a classe dominante quer reduzir os tam proclamados direitos humanos. A luita contra a violência das cidades começa indefectivelmente pola posta em prática táctica e estratégica do socialismo.
Nom há outra hipótese.

 

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