Vai-se Vasques, fica Mendes
Fevereiro de 2006
Artigo de opiniom publicado a 11 de Fevereiro de 2006 em Vieiros
Maurício
Castro
A surpresiva notícia do retiro a 2.000 quilómetros do pequeno monarca absoluto corunhês, Francisco Vasques, é motivo de alegria para muita gente, entre a que decerto nos incluímos quem isto escreve e a maior parte de quem o lê. Difícil dissimular a nossa satisfaçom ante o anúncio de que vamos perder de vista, nem que seja por um tempinho, tam genuíno representante do mais podre conceito de "gallego a la española".
O tema dá para especular sobre o delicado momento em que Vasques opta polo exílio vaticanista, abandonando este terrenal ambiente de corrupçons empresariais, contas urbanísticas e outros mundanais ruídos que tanto incomodam a sua moral católica, apostólica e romana.
Mas, em lugar disso, dirijamos o nosso olhar a um outro aspecto, nom menos importante, do particular "Caso Vaticano" que Francisco Vasques protagoniza, e de maior interesse para alguns de nós. Será que esta partida, que chegou como caída do céu, poderá ter algumha influência imediata e positiva no curso da Política Lingüística aplicada na Galiza? A força dos factos como até agora se tenhem sucedido convidam-nos a ficar, mais umha vez e no melhor dos casos, de pé atrás.
Entre outros "títulos" de duvidosa honra, ganhos a pulso nestes anos, salienta no caso de Vasques, como se sabe, o de inimigo declarado da nossa língua. Título por todos reconhecido, mas acompanhado da também estendida crença de que tal patologia poda ser explicada com um simples "já se sabe, som as cousas de Paco". Se isto fosse certo, nada impediria que "essas cousas" pudessem vir a mudar proximamente na sua família política e, em conseqüência, no ámbito institucional, que tanto peso tem para a normalizaçom social da nossa língua.
No entanto, partindo já do precedente da configuraçom da nova Junta, evidencia-se um discreto interesse por manter na letargia a Política Lingüística. Lembremos que as negociaçons entre as duas formaçons associadas no actual Governo nom passárom de outorgar à antiga Direcçom Geral a superior categoria de Secretaria Geral, dependente, isso sim, do controlo directo por parte da Presidência.
O passar dos meses só está a confirmar as visons mais cépticas na avaliaçom de aquelas negociaçons, em que o BNG renunciou a departamentos tam fulcrais para a reorientaçom da Política Lingüística como a referida Secretaria Geral, ou mesmo a Conselharia da Educaçom. A parálise actual de ambas áreas é o resultado directo de um acordo de Governo em que praticamente todo o relevante para a língua ficou em maos do PSOE.
E é aqui que deparamos com a mais do que provável continuidade do que poderíamos denominar "vasquismo sem Vasques", adaptando aquela conhecida fórmula de "franquismo sem Franco" com que as verdadeiras forças de oposiçom definiam a oficialmente denominada "Transiçom democrática". Nom esqueçamos que, na actual Junta, Mendes Romeu, olho direito do ex-presidente da Cámara corunhesa e tam alérgico como ele a qualquer signo de galeguidade assumida, exerce de homem forte de Tourinho. Ninguém duvida que, também na Política Lingüística, e de maneira extra-oficial, ocupa o número 1 na "cadeia de comando" do Governo bipartido.
Conhecendo-se bem o peso de Mendes Romeu no PSOE e o seu perfil de "duro" em temas lingüísticos, é ainda mais difícil compreender que o BNG renunciasse a qualquer responsabilidade directa na matéria, a nom ser que a renúncia à língua figesse parte dos acordos implícitos entre ambas formaçons. Seja como for, soa a falso que alguém minimamente informado poda agora sentir-se "defraudado" pola passividade normalizadora do Executivo de Tourinho. Umha passividade que converte em "ambicioso de mais" o etéreo Plano Geral de Normalizaçom Lingüística aprovado em 2004 por consenso das três forças parlamentares, e que continua, como nos últimos meses do PP, fechado à chave na gaveta de algum escritório perdido em Sam Caetano. Só esperamos que nom tenha ficado também fechada à chave, no mesmo escritório, a actual secretária geral da Política Lingüística, visto o pouco que se prodigaliza no seu flamante cargo.
De resto, quase preferimos a passividade às grandes palavras e aos falsos anúncios. O mais recente exemplo tivemo-lo na auto-emenda de Mendes Romeu rectificando o anunciado reconhecimento do galego como única língua veicular das provas de acesso à Administraçom autonómica.
Tememos que, sendo realistas, devamos conter a nossa alegria polo exílio vaticanista do bem-aventurado Vasques, pois, para nosso pesar, fica entre nós e à direita de Tourinho, José Luís Mendes Romeu, o seu profeta na Terra