As onze vitórias de Hezbollah

18 de Agosto de 2006

José Steinsleger


É umha suposiçom que a civilizaçom ocidental livrou grandes batalhas a favor do laicismo, a livre expressom, o pensamento crítico e outras golosaimas intelectuais. De Oriente e Médio Oriente admiramos as suas glórias e esplendores passados, ainda que preferivelmente em forma de livros de arte, viagens a crédito, filmes e produtos maquilhados.


E das suas luitas, o que nos importa? Aqueles povos parecem tam "irracionais", tam "complexos", tam "imprevisíveis", tam "teocráticos". Nós somos melhores! Nós somos parte de umha civilizaçom "racional" na que Estados Unidos, por exemplo, tem um orçamento militar equivalente a 29 mil dólares por cada hora decorrida desde o nascimento de Jesucristo.


Isso chama-se ter fé. Umha fé que hoje, depois da destruiçom de Líbano, assinala a Síria e Irám como estaçom terminal do Senhor. O Líbano foi destruído e a "Profecia sobre Damasco" retumba nos círculos de poder de Washington, Londres e Tel Aviv: "'Tenho aqui que Damasco deixará de ser cidade; será montom de ruínas...; e o que fique de Síria será como a glória dos filhos de Israel', diz Jehová dos exércitos" (Isaías 17:1-3).


No entanto, nos planos de Jehová parece que algo está saindo mal... Essa "merda" de Hezbollah!" (Bush, dixit). Imaginou o ungido, na sua bruta ignorância, que os filhos de Alá podiam ser mais fortes? A falta de credulómetros (aparelinhos que medem a fé), ouçamos a profecia do irmao Sayyid Hasan Nasralá, secretário geral de Hezbollah, o 14 de Julho passado.


Na sua mensagem "à naçom, ao povo do Líbano, aos luitadores da resistência, aos sionistas e aos líderes árabes", Nasralá começou dizendo que nom se dirigia à "comunidade internacional porque nunca pensei que tal cousa existia".


Nasralá advertiu: "... Nom serám só as nossas casas que serám destroçadas. Nom serám só os nossos nenos os que serám assassinados. Nom será mais só sobre a nossa gente a que se verá deslocada. Essa época pertence ao passado... Vocés querem guerra aberta, pois terám guerra aberta. Vocés o quigérom".


Considerado em todo Líbano como um dirigente que "diz as cousas como som" (inclusive por aqueles que nom estám de acordo com a ideologia de seu partido e com suas acçons), a operaçom Promesa Verdadeira enfrentou ao exército de Israel e cumpriu com o anunciado: derrotar à "entidade agressora usurpadora que, agora, nom pode aceitar a sua derrota".


Segundo várias fontes que botárom por terra a falsa e cinematográfica versom do par de soldados israelitas "seqüestrados" por Hezbollah no sul do Líbano (suposto detonante da guerra), a operaçom de Tel Avive devia "... começar com fortes bombardeios aéreos, seguir com umha intervençom terrestre e durar só três semanas". A um mês da invasom, Hezbollah atingiu onze vitórias em onze frentes de luita, a saber:


1. Político: revelou-se como único fator de unidade capaz de garantir a soberania nacional do Líbano.


2. Militar: pujo em questom o mito do "invencível" exército de Israel (armas nucleares, orçamento de defesa de 6 mil milhons de dólares, 500 mil soldados e 600 avions de combate).


3. Social: reforçou sua profunda inserçom e representatividade entre as massas despossuidas do Líbano.


4. Internacional: conseguiu, por ampla maioria, a condena de Israel no Conselho de Direitos Humanos das Naçons Unidas por "massivas violaçons", resoluçom impulsionada em Genevra polos países da Conferência Islámica e a Liga Árabe.


5. Mediático: ridiculizou o uso arbitrário de termos como "terrorismo", "fundamentalismo", "anti-semitismo" ou "fanatismo" para explicar qualquer manifestaçom adversa à política de Washington e Tel Avive.


6. Histórico: asestou a Israel um golpe que nengumha outra força árabe ou muçulmana conseguiu desde a fundaçom do estado sionista em 1948.


7. Cultural: elevou a autoestima da comunidade xiíta que nos países do Islám (com exceçom de Irám), é vista com subestimaçom e desinteresse.


8. Religioso: rompeu o espírito sectário das comunidades confesionais e a política imperialista (como no Iraque), de polarizaçom e confronto de sunis, drusos, cristians e xiítas libaneses.


9. Académico: refrescou e pujo ao dia a pertinência de noçons como "povo", "naçom", "soberania", "revoluçom" e "luita de classes" para dar a batalha efectiva contra o imperialismo.


10. Psicológico: precipitou, no conjunto da sociedade israelita, umha profunda crise ideológica, política e de autopercepçom. O "direito a existir" exige a ocupaçom de territórios e a violaçom de tratados, do massacre sistemático de nenos, mulheres e anciáns, e o assassinato de dirigentes políticos estrangeiros, a tortura legal, destruiçom de casas, construçom de muros e da negativa a existir ou "botar ao mar" a povos e estados vizinhos?


11. Moral: transmitiu umha mensagem de esperança aos povos oprimidos do mundo, e em particular aos povos do Islám e Palestina.

Este artigo foi publicado em "La Jornada".

 

Voltar à página principal