Umha advertência à África: A nova grande estratégia imperial dos EUA

4 de Julho de 2006
O imperialismo
é umha constante do capitalismo. Mas ele passa através de várias fases à
medida que o sistema evolui. Na actualidade o mundo está a experimentar
uma nova era de imperialismo assinalado por uma grande estratégia americana
de dominaçom global. Uma indicaçom de quanto mudaram as cousas é o facto
de que os militares americanos agora som verdadeiramente globais nas suas
operaçons, com bases permanentes em todos os continentes, incluindo a África
onde umha nova luita polo controlo está a ter lugar com enfoque no petróleo.
A opiniom da elite nos Estados Unidos na década imediatamente a seguir ao
colapso da Uniom Soviética muitas vezes denunciava a ausência de umha grande
estratégia americana comparável a aquela que George Kennan etiquetou como
de "contençom", sob o manto da qual os Estados Unidos intervieram
em toda a parte durante os anos da Guerra Fria. A questom chave, tal como
colocada em Novembro de 2000 polo analista de segurança nacional Richard
Haass, era a de determinar como os Estados Unidos deveriam utilizar o seu
presente "excesso de poder" para remodelar o mundo. A resposta
de Haass, que sem dúvida contribuiu para que logo a seguir fosse contratado
como director da política de planeamento no Departamento de Estado de Colin
Powell na nova administraçom Bush, era promover uma estratégia da "América
Imperial" destinada a assegurar a predominância global americana durante
as décadas seguintes. Poucos meses antes umha grande estratégia semelhante,
se bem que ainda mais cruamente militarista, fora apresentada pelo Project
for the New American Century, num relatório assinado pelas futuras figuras
de topo da administraçom Bush, Donald Rumsfeld, Paul Wolfowitz e Lewis Libby,
entre outros. [1]
Esta nova grande estratégia imperial tornou-se realidade, a seguir aos ataques
do 11 de Setembro de 2001, nas invasons americanas do Afeganistam e do Iraque
-e passou logo a ser venerada na declaraçom de 2002 da Estratégia
de Segurança Nacional da Casa Branca. Concluindo a nova investida imperial
na Harvard Magazine, Stephen Peter Rosen, director do Olin Institute
for Strategic Studies de Harvard e membro fundador do Project for the New
American Century, escreveu:
“Umha
unidade política que superioridade esmagadora em poder militar, e utiliza
tal poder para influenciar o comportamento interno de outros estados, é
chamada um império. Como os Estados Unidos nom procuram controlar território
ou governar os cidadaos do império além mar, somos um império indirecto
mas, temos de admitir, no entanto um império. Se isto é correcto, nosso
objectivo nom é combater um rival, mas manter nossa posiçom imperial e manter
a ordem imperial. O planeamento para guerras imperiais é diferente do planeamento
para guerra convencionais internacionais... Guerras imperiais para restaurar
a ordem nom som tam forçadas [por consideraçons de dissuasom]. A quantidade
máxima de força poderia e deveria ser usada tam rapidamente quando possível
para impacto psicológico -para demonstrar que o império nom pode ser desafiado
com impunidade... A estratégia imperial focaliza-se em prevenir a emergência
de rivais poderosos e hostis ao império: pola guerra se necessário, mas
também pola assimilaçom imperial se possível”. [2]
Comentando
em fins de 2002 na Foreign Policy, John Lewis Gaddis, professor de
história militar e naval em Yale, declarou que o objectivo da guerra iminente
ao Iraque era infligir uma "Agincourt
na margens do Eufrates". Isto seria uma demonstraçom de poder tam
grande que, tal como na famosa vitória de Henrique V no século XV em França,
a paisagem geopolítica seria alterada durante as décadas seguintes. O que
em última análise estava em causa, segundo Gaddis, era "a administraçom do sistema internacional por uma única hegemonia"
-os Estados Unidos. Este assegurar da hegemonia sobre todo o mundo
polos Estados Unidos por meio de acçons antecipativas (preemptive) era,
argumentou ele, nada menos que "umha nova grande estratégia de transformaçom".
[3]
A NATUREZA DA GRANDE ESTRATÉGIA
Desde o tempo de Clausewitz, as tácticas têm sido concebidas nos círculos
militares como "a arte de utilizar
tropas na batalha" e a estratégia como "a arte de utilizar batalhas para vencer uma guerra". [4] Em contraste, a ideia de "grande estratégia"
promovida classicamente por estrategas e historiadores militares, tais como
Edward Meade Earle e B. H. Liddel Hart, referem-se à integraçom do potencial
de fazer a guerra de um estado com as suas finalidades políticas e económicas
mais vastas. Como observou o historiador Paul Kennedy em Grand Strategies in War and
Peace (1991): "umha verdadeira
grande estratégia" está "preocupada com a paz tanto quanto
(talvez mesmo mais ainda) com a guerra... com a evoluçom ou integraçom de
políticas que deveriam vigorar durante décadas, ou mesmo séculos".
[5]
Grandes estratégias som geopolíticas na orientaçom, conformadas para a dominaçom
de regions geográficas inteiras -incluindo
recursos estratégicos como minérios e vias navegáveis, activos económicos,
populaçons e posiçons militares vitais. A maior parte das grandes estratégias
com êxito vistas no passado fôrom aquelas de impérios duradouros, os quais
foram capazes de manter o seu poder sobre grandes espaços geográficos durante
extensos períodos de tempo. Portanto, os historiadores da grande estratégia
habitualmente o Império Britânico no século XIX (Pax Britannica) e também
o antigo Império Romano (Pax Romana).
Para os Estados Unidos hoje o que está em jogo já nom é o controlo de uma
simples porçom do globo, mas umha Pax Americana verdadeiramente global.
Embora alguns comentadores tenham visto a mais recente investida imperial
americana como obra de umha pequena cabala de neoconservadores dentro da
administraçom Bush, a realidade é a de umha vasta concordância dentro da
estrutura de poder americana acerca da necessidade de expandir o império
dos EUA. Umha colecçom recente, incluindo contribuiçons de críticos da administraçom,
intitula-se The Obligation of Empire: United States' Grand
Strategy for a New Century. [6]
Ivo. H. Daadler (investigador senior na Brookings Institution e ex-conselheiro
de política externa de Howard Dean) e James M. Lindsay (vice-presidente
do Council on Foreign Relations, empregado anteriormente pelo National Security
Council de Clinton) argumenta no seu livro America Unbound que os
Estados Unidos há muito têm um "império secreto", disfarçado pelo
multilateralismo. A política unilateral da Casa Branca de Bush de construir
o "império só sobre o poder americano"
mudou as cousas só na medida em que jogou fora o carácter escondido
do império e reduziu sua força global ao confiar menos nos estados vassalos.
Segundo Daadler e Lindsay, os Estados Unidos agora estam sob o comando de
pensadores "hegemonistas" que querem assegurar que os Estados
Unidos dominam todo o globo, tanto no seu auto-interesse nacional como com
o objectivo de remodelar o mundo em sintonia com o "imperialismo democrático".
Mas uma postura tam agressiva, destacam eles, nom está fora dos limites
históricos da política americana. Um impulso imperial unilateralista pode
ser rastreada desde Theodore Roosevelt e estava presente desde o princípio
da era da Guerra Fria nas administraçons Truman e Einsenhower. Apesar disso,
Daadler e Lindsay apresentam a possibilidade de umha estratégia mais cooperativa,
com as outras grandes potências a alinharem-se por trás dos Estados Unidos,
como uma abordagem superior para administrar um império. [7]
Tal imperialismo cooperativo, contodo, torna-se mais difícil de alcançar
uma vez que o poder hegemónico começa a desvanecer-se. Nom só os Estados
Unidos estam a sofrer umha competiçom económica acrescida como, com o fim
da Uniom Soviética, a aliança NATO enfraqueceu os vassalos europeus de Washington
que nem sempre seguem sua liderança, ainda que nom sejam capazes de desafiá-la
directamente. A tentaçom que confronta uma potência hegemónica em declínio
-ainda armada e perigosa- em tais circunstâncias é tentar reconstruir e
mesmo expandir seu poder actuando unilateralmente e monopolizando as pilhagens
(spoils).
A GUERRA PELO “NOVO SÉCULO AMERICANO”
O capitalismo é um sistema em escala mundial no âmbito económico mas dividido
politicamente em estados competidores que se desenvolvem economicamente
a diferentes taxas. A contradiçom do desenvolvimento capitalista desigual
foi expressa classicamente por Lenin em 1916, em Imperialismo, etapa
superior do capitalismo.
“Nom
pode haver nengumha outra base concebível sob o capitalismo para a divisom
de esferas de influência, de interesses, de colónias, etc do que um cálculo
da força dos participantes na divisom, da sua fortaleza económica, financeira,
militar, etc. E a fortaleza destes participantes na divisom nom muda num
grau igual, pois sob o capitalismo o desenvolvimento de diferentes empreendimentos,
trusts, ramos de indústria ou países nom pode ser igual. Meio século atrás,
a Alemanha era um país miserável e insignificante, no que se refere à sua
fortaleza capitalista, em comparaçom com a fortaleza da Inglaterra daquele
tempo. O Japom era analogamente
insignificante em comparaçom com a Rússia. Será "concebível" que
num espaço de tempo de dez ou vinte anos a fortaleza relativa das potências
imperialistas venha permanecer imutável? É absolutamente inconcebível”.
[8]
Actualmente é amplamente reconhecido que o mundo está
a experimentar uma transformaçom económica global. Nom só arrefece a taxa
de crescimento da economia global como um todo como a fortaleza relativa
dos Estados Unidos continua a enfraquecer. Em 1950 os Estados Unidos representavam
cerca da metade do PIB mundial, caindo para pouco mais de um quinto em 2003.
Da mesma forma, representava quase a metade do stock mundial de investimento
directo estrangeiro em 1960, comparado com pouco mais de 20 por cento no
princípio deste século. Segundo projecçons da Goldman Sachs, a China poderia
ultrapassar os Estados Unidos como a maior economia do mundo em 2039. [9]
Esta ameaça crescente à potência americana está a alimentar a obsessom de
Washington com o assentar dos fundamentos para um "Novo século americano".
O seu actual intervencionismo é destinado a aproveitar o seu actual primado
económico e militar a curto prazo para assegurar activos estratégicos que
proporcionaram garantias a longo prazo de supremacia global. O objectivo
é estender o poder americano directamente e ao mesmo tempo privar competidores
potencial daqueles activos estratégicos vitais que possam permitir-lhes
finalmente desafiá-lo globalmente ou mesmo dentro de regions particulares.
The National Security Strategy of the United States de 2002 deu notícia
de que "Nossas forças seram suficientemente
fortes para dissuadir adversários potenciais de buscar um fortalecimento
militar na esperança de ultrapassar, ou igualar, o poder dos Estados Unidos".
Mas grande estratégia estende-se para além de simples poder militar. Vantagens
económicas em relaçom a rivais potenciais som a moeda real da competiçom
inter-capitalista. Portanto, a grande estratégia americana integra o poder
militar com a luita polo controlo de capitais, comércio, o valor do dólar
e matérias-primas estratégicas.
O ordenamento mais claro dos objectivos da estratégia americana talvez tenha
sido proporcionado por Robert J. Art, professor de relaçons internacionais
em Brandeis e investigador associado do Olin Institute, em A Grand Strategy
for America. "Umha grande
estratégia", escreve ele, "conta
aos líderes de uma naçom que objectivos deveriam eles atingir e como podem
utilizar melhor a potência militar do seu país para atingir estes objectivos".
Ao conceptualizar uma tal grande estratégia para os Estados Unidos, Art
apresenta seis "interesses nacionais
dominantes" por ordem de importância:
Primeiro, impedir
um ataque sobre o solo americano.
Segundo, impedir
umha guerra euro-asiáticas de grandes potências e, se possível, as intensas
competiçons de segurança que as tornam mais prováveis.
Terceiro, preservar
o acesso a um abastecimento de petróleo a preços razoáveis e seguro.
Quarto, preservar
uma ordem económica internacional aberta.
Quinto, promover
a difusom da democracia e o respeito pelos direitos humanos no exterior,
e impedir o genocídio ou o assassínio em massa em guerras civis.
Sexto, proteger o ambiente global, especialmente
dos efeitos adversos do aquecimento global e mudanças climáticas severas.
Após
a adequada defesa nacional, i.e., a defesa "da pátria" contra
ataque externo, as três mais importantes prioridades estratégicas seguintes
som entom: (1) o tradicional objectivo geopolítico da hegemonia sobre a
área central euro-asiática encarada como a chave para o poder mundial, (2)
assegurar o controlo sobre os abastecimentos mundiais de petróleo, e (3)
promover relaçons económicas capitalistas globais.
A fim de cumprir estes objectivos, argumenta Art, Washington deveria "manter forças em bases avançadas"
na Europa e na Ásia Oriental (as duas bordas da Eurásia com grandes concentraçons
de poder) e no Golfo Pérsico (contendo o grosso das reservas mundiais de
petróleo). "A Eurásia é o lar
da maior parte dos povos do mundo, da maior parte das suas reservas provadas
de petróleo, e a maior parte das suas potências militares, assim como de
uma grande proporçom do seu crescimento económico". É portanto
crucial que a grande estratégia imperial americana esteja destinada a fortalecer
sua hegemonia nesta regiom, a principiar pelas regions petrolíferas chave
da Ásia Sul e Central. [10]
Com as guerras em curso e as ocupaçons do Afeganistam e do Iraque ainda
nom resolvidas, Washington tem estado a aumentar suas ameaças de um ataque
"antecipativo" ao mais poderoso vizinho destes estados, o Iram.
A principal justificaçom apresentada para isto é o programa de enriquecimento
de urânio do Iram, o qual poderia finalmente permitir-lhe desenvolver capacidades
em armas nucleares. Mas há outras razons para os Estados Unidos estarem
interessados no Iram. Tal como o Iraque, o Iram é um importante produtor
de petróleo, agora com a segunda maior reservada provada de petróleo, atrás
da Arábia Saudita e à frente do Iraque. O controle do Iram é assim crucial
para o objectivo de Washington de dominar o Golfo Pérsico e o seu petróleo.
A importância geopolítica do Iram, além disso, estende-se muito para além
do Médio Oriente. Ele é uma peça chave (como é o caso também do Afeganistam)
no Novo Grande Jogo pelo controlo de toda a Ásia Sul-Central, incluindo
a Bacia Marítima do Cáspio com suas enormes reservas de combustíveis fósseis.
Os planeadores estratégicos americanos estam obcecados com os temores de
uma rede de segurança energética asiática, na qual a Rússia, a China, o
Iram e os países da Ásia Central (incluindo possivelmente também o Japom)
ficariam economicamente juntos e dentro de um acordo energético para romper
a camisa de força americana e ocidental sobre o mercado mundial do petróleo
e do gás -criando as bases para uma tranferência geral
do poder mundial para o Leste. No momento a China, a economia em mais rápido
crescimento do mundo, carece de segurança energética apesar de a sua procura
por combustíveis fósseis estar em crescimento rápido. Ela está a tentar
resolver isto parcialmente através de maior acesso aos recursos energéticos
do Iram e dos estados da Ásia Central. As recentes tentativas americanas
de estabelecer uma aliança mais forte com a Índia, com Washington a sustentar
o status da Índia como potência nuclear, som claramente parte deste Novo
Grande Jogo polo controlo da Ásia Sul-Central
-rememorativo do Grande Jogo do século XIX entre a Gram-Bretanha
e a Rússia polo controlo desta parte da Ásia. [11]
A NOVA DISPUTA POR ÁFRICA
Se há um Novo Grande Jogo em marcha na Ásia há também umha
"Nova Disputa pola África" da parte das grandes potências. [12] The National Security Strategy of the United States de 2002 declarou que "combater
o terror global" e garantir a segurança energética americana exigiam
que os Estados Unidos aumentassem seus compromissos para com a África e
apelava a "coligaçons de vontades" para gerar acordos de segurança
regional naquele continente. Logo a seguir o U.S. European Command, com
base em Stuttgart, Alemanha -responsável
polas operaçons militares americanas na África Sul-Saariana- aumentou suas actividades na África Ocidental,
centrando-se naqueles estados com produçom de petróleo substancial e ou
reservas no ou em torno do Golfo da Guiné (que se estende aproximadamente
da Costa do Marfim até Angola). O Comando Europeu dos militares americanos
agora dedica 70 por cento do seu tempo a assuntos africanos, um salto em
relaçom à actividade quase nula até 2003. [13]
Como destacado por Richard Haass, agora presidente do Council on Foreign
Relations, no seu prefácio ao relatório de 2005 do Conselho intitulado More
Than Humanitarianism: A Strategic U.S. Approach Toward Africa: "No fim da década a África sub-saariana
provavelmente tornará-se tam importante como fonte de importaçons energéticas
americanas quanto o Médio Oriente". [14] A África Ocidental tem uns 60 mil milhons de barris de
reservas provadas de petróleo. Seu petróleo tem baixo conteúdo de enxofre,
umha característica apreciada pola economia americana. Agências americanas
e think tanks prevêm que um em cada cinco
novos barris de petróleo a entrarem na economia global na segunda metade
desta década virá do Golfo da Guiné, elevando sua participaçom de 15 para
mais de 20 por cento em 2010, e 25 por cento em
Actualmente a principal base militar americana permanente na África é aquela
estabelecida em 2002 no Djibouti, no Corno da África, dando aos Estados
Unidos controlo estratégico da zona marítima através da qual passa um quarto
da produçom mundial de petróleo. A base no Djibouti também está muito próxima
do oleoduto sudanês. (Os militares franceses tiveram uma prolongada grande
presença no Djibouti e também têm umha base aérea em Abeche, Chad, na fronteira
sudanesa). A base no Djibouti permite aos Estados Unidos dominarem o extremo
oriental da vasta faixa de petróleo que atravessa a África e que é agora
considerada vital para seus interesses estratégicos
-umha extensa faixa que vai do sudoeste a partir do oleoduto de
Na África Ocidental, o Comando Europeu dos militares americanos estabeleceu
agora locais de operaçom avançada no Senegal, Mali, Gana e Gabom -assim como na Namíbia, junto à fronteira sul
de Angola- o que envolve melhorias
de aeródromos, o pré-posicionamento de abastecimentos críticos e combustível,
e o acesso a acordos para a instalaçom rápida de tropas americanas. [15] Em 2003 ele lançou um programa de contra-terrorismo na
África Ocidental, e em Março de 2004 Forças Especiais dos EUA estiveram
directamente envolvidas numha operaçom militar com países do Sahel contra
o Grupo Salafista por Pregaçom e Combate
-na lista de organizaçons terroristas de Washington. O Comando Europeu
dos EUA está a desenvolver um sistema de segurança costeira no Golfo da
Guiné chamado Gulf of Guinea Guard. Também tem estado a planificar a construçom de umha
base naval americana em São Tomé e Príncipe, a qual o Comando Europeu deu
a entender que poderia rivalizar com a base naval americana de Diego Garcia
no Oceano Índico. O Pentágono está portanto a mover-se agressivamente para
estabelecer umha presença militar no Golfo da Guiné que lhe permitirá controlar
a parte ocidental da vasta faixa petrolífera trans-africana e as reservas
vitais de petróleo que agora estam a ser descobertas ali. A Operaçom Flintlock,
um primeiro exercício militar americano na África Ocidental em 2005, incorporou
1.000 Forças Especiais americanas. O Comando Europeu americano irá conduzir
exercícios neste verao para a sua nova força de reacçom rápida do Golfo
da Guiné.
O indicador aqui é seguir o comércio: todas as grandes corporaçons petrolíferas
americanas e ocidentais estam a disputar o petróleo da África Ocidental
e a exigir segurança. O Comando Europeu dos militares americanos, relatou
o Wall Street Journal no número de 25 de Abril, também está a trabalhar
com a Câmara de Comércio dos EUA para expandir o papel das corporaçons americanas
na África como parte de uma "reacçom americana integrada". Nesta
disputa económica polos recursos petrolíferos da África as antigas potências
coloniais, Gram-Bretanha e França, estam em competiçom com os Estados Unidos.
Militarmente, entretanto, elas estam a trabalhar estreitamente com os Estados
Unidos para assegurar o controlo imperial ocidental da regiom.
A preparaçom militar americana em África é muitas vezes justificada como
necessária para combater o terrorismo e para conter a instabilidade crescente
na regiom petrolífera da África sub-saariana. Desde 2003 o Sudam tem sido
dilacerado pola guerra civil e polo conflito étnico centrado na sua regiom
sudoeste de Darfur (onde está localizada grande parte do petróleo do país),
resultando em inumeráveis violaçons de direitos humanos e matanças em massa
da populaçom da regiom por forças de milícia ligadas ao governo. Tentativas
de golpe verificaram-se recentemente nos novos petro-estados de São Tomé
e Príncipe (2003) e Guiné Equatorial (2004). O Chad, que é dirigido por
um regime brutalmente opressivo protegido por um aparelho de segurança e
de inteligência apoiado pelos Estados Unidos, também experimentou umha tentativa
de golpe em 2004. Um golpe com êxito tivo lugar na Mauritânia em 2005 contra
o homem forte Ely Ould Mohamed Taya, apoiado polos EUA. As três décadas
de guerra civil em Angola -instigada
e alimentada polos Estados Unidos, os quais junto com a África do Sul organizaram
o exército terrorista da UNITA de Jonas Savimbi- perdurou até o cessar fogo
que se seguiu à morte de Savimbi em 2002. Na Nigéria, o país hegemónico
na regiom, está generalizada a corrupçom, revoltas e roubo organizado de
petróleo, com consideráveis porçons da produçom petrolífera na regiom do
Delta do Níger a serem trasfegadas -mais de 300 mil barris por dia no princípio
de 2004. [16] O ascenso da insurgência armada no Delta do Níger e o potencial
de conflito entre o norte islâmico e o sul nom-islâmico do país é umha grande
preocupaçom americana.
Portanto, há apelos incessantes e nengumha falta de justificaçons aparentes
para "intervençons humanitárias" americanas na África. O relatório
More than Humanitarianism do Council on Foreign Relations insiste
em que "os Estados Unidos e seus aliados devem
estar prontos para tomar a acçom apropriada" em Darfur, no Sudam,
"incluindo sançons e, se necessário, intervençom
militar, se o Conselho de Segurança estiver bloqueado de assim proceder".
Enquanto isso, a noçom de que os militares americanos podem dentro em breve
precisar intervir na Nigéria está a ser amplamente divulgada entre peritos
e em círculos políticos. Jeffrey Taylor, correspondente do Atlantic Monthly,
em Abril de 2006 afirmou que a Nigéria tornou-se "o maior estado fracassado sobre a Terra",
e que umha nova desestabilizaçom daquele estado, ou sua tomada por forças
radicais islâmicas, poria em perigo "as abundantes reservas de petróleo que a América prometeu proteger.
Se este dia chegasse, ele anunciaria uma intervençom militar de longe mais
maciça do que a campanha iraquiana". [17]
Mais ainda: grandes estrategas americanos esclarecem que as questons reais
nom som os próprios estados africanos e o bem estar das suas populaçons
mas sim o petróleo a crescente presença da China na África. Como observou
o Wall Street Journal em "Africa Emerges as a Strategic Battlefield",
"a China tornou a África uma linha de
frente na sua busca de mais influência global, triplicando o comércio com
o continente para uns US$ 37 mil milhons ao longo dos últimos cinco anos
e retendo activos energéticos, fechando acordos comerciais com regimes como
o do Sudam e educando futuras elites da África em universidades e escolas
militares chinesas". Em More than Humanitarianism, o Council
on Foreign Relations descreve a ameaça principal como vindo da China: "a China alterou o contexto estratégico na África. Em toda a África
de hoje a China está a adquirir controlo de activos de recursos naturais,
a ultrapassar construtores ocidentais em grandes projectos de infraestrutura
e a proporcionar empréstimos suaves e outros incentivos para fortalecer
sua vantagem competitiva". [18] A China importa da África mais de um quarto do seu petróleo,
primariamente de Angola, Sudam e Congo. Ela é o maior investidor estrangeiro
no Sudam. Está a fornecer subsídios pesados à Nigéria para aumentar sua
influência e tem estado a vender ali avions de combate. O mais ameaçador
do ponto de vista dos grandes estrategas americanos é o empréstimo a Angola
de US$ 2 mil milhons a juros baixos em 2004, o qual permitiu a Angola resistir
às exigências do FMI de reestruturar sua economia e sociedade de acordo
com linhas neoliberais.
Para o Council on Foreign Relations, todo isto constitui nada menos que
umha ameaça ao controlo imperialista ocidental da África. Dado o papel da
China, o relatório do Conselho diz que "os
Estados Unidos e a Europa nom podem considerar a África sua chasse gardé [terreno privado de caça],
como os franceses outrora encaravam a África francófona. As regras estam
a mudar pois a China procura nom só ganhar acesso a recursos como também
controlar a produçom e distribuiçom de recursos, a posicionar-se talvez
para o acesso prioritário aos mesmos quando se tornarem mais escassos".
O relatório do Conselho sobre a África está tam preocupado em combater a
China através da expansom de operaçons militares americanas na regiom que
nada menos que Chester Crocker, antigo secretário de Estado assistente para
assuntos africanos na administraçom Reagan, enfada-se alto e bom som: "tristemente nostálgico de uma era em
que os Estados Unidos ou o Ocidente eram as únicas grandes influências e
podiam perseguir seus objectivos à vontade ". [19]
O que é certo é que o império americano está a ser ampliado para abarcar
partes da África na busca voraz de petróleo. Os resultados poderiam ser
devastadores para os povos da África. Tal como a antiga disputa pola África,
esta nova é uma luita entre grandes potências por recursos e pilhagem -nom polo desenvolvimento da África ou o bem
estar da sua populaçom.
UMHA GRANDE ESTRATÉGIA DE ALARGAMENTO
Apesar do rápido evoluir do contexto estratégico e da mudança para um imperialismo
mais nu nos últimos anos, há uma consistência na grande estratégia imperial
americana, a qual decorre do acordo amplo no topo extremo da estrutura de
poder americana de que os Estados Unidos deveriam procurar "supremacia
global" como afirmou o antigo conselheiro de segurança nacional do
presidente Jimmy Carter, Zbigniew Brzezinski. [20]
O relatório de 2006 do Council on Foreign Relations, More Than Humanitarianism,
que apoia o alargamento da grande estratégia americana para a tomada
da África, foi co-presidido por Anthony Lake, conselheiro de segurança nacional
de Clinton de
A grande estratégia imperial americana é menos um produto de políticas geradas
em Washington por esta ou aquela ala da classe dominante do que um resultado
inevitável da posiçom de poder que o capitalismo americano descobre em si
no princípio do século XXI. A força económica americana (juntamente com
a dos seus aliados mais próximos) tem estado a declinar de um modo razoavelmente
constante. As grandes potências provavelmente nom manteram economicamente
a mesma relaçom entre si duas décadas a partir daqui. Ao mesmo tempo o poder
militar americano aumentou relativamente com o fim da Uniom Soviética. Os
Estados Unidos agora representam cerca da metade de toda a despesa militar
do mundo -umha proporçom duas ou
mais vezes [maior] do que a sua participaçom no produto mundial.
O objectivo da nova grande estratégia imperial dos EUA é utilizar esta fortaleza
militar sem precedentes a fim de impedir a emergência de forças históricas
através da criaçom de uma esfera de domínio de espectro amplo, agora abarcando
todos os continentes, de modo a que nengum rival potencial seja capaz de
desafiar os Estados Unidos nas próximas décadas. Isto é umha guerra contra
os povos da periferia do mundo capitalista e pola expansom do capitalismo
mundial, particularmente do capitalismo americano. Mas é também umha guerra
para assegurar um "Novo Século Americano" no qual os países do
terceiro mundo som vistos como "activos estratégicos" dentro de
umha luita geopolítica global mais ampla.
As liçons da história som claras: tentativas de ganhar o domínio do mundo
por meios militares, embora inevitáveis sob o capitalismo, estam destinadas
a fracassar e só podem conduzir a novas e maiores guerras. É da responsabilidade
daqueles comprometidos com a paz mundial resistir à nova grande estratégia
imperial dos EUA pondo em causa o imperialismo e a sua principal raiz económica,
o próprio capitalismo.
Notas
1- Os pontos de vista de Haass som explorados por John Bellamy Foster em
“'Imperial America' and War,” Monthly Review 55, no. 1 (May 2003):
1–10; Project for the New American Century, Rebuilding America's Defenses
(September 2000), http://www.newamericancentury.org/ .
2- Stephen Peter Rosen, "The Future of War and the American Military,"
Harvard Magazine 104, no. 5 (May–June 2002): 29–31.
3- John Lewis Gaddis, "A Grand Strategy of Transformation", Foreign
Policy (November/December 2002): 50–57.
4-
Clausewitz citado em Paul Kennedy, ed., Grand Strategies in War and Peace
(New Haven: Yale University Press, 1991), 1.
5- Edwin R. Earle, ed., Makers of Modern Strategy (Princeton: Princeton
University Press, 1948); B. H. Liddel Hart, Strategy (New York: Praeger,
1967); Kennedy, ed., Grand Strategies, 1–4.
6- James J. Hentz, ed., The Obligation of Empire:
7- Ivo H. Daalder & James M. Lindsay,
8- V. I. Lenin, Imperialism, the Highest Stage of Capitalism (New York:
International Publishers, 1939), 119.
9- Richard B. Du Boff, "U.S Empire," Monthly Review 55, no. 7
(December 2003): 1–2; Dominic Wilson & Roopa Purshothaman, "Dreaming
with BRICs," Goldman Sachs Global Economics Paper, no. 99 (October
1, 2003), 4, http://www.gs.com/
10- Robert J. Art, A Grand Strategy for
11- Noam Chomsky, Failed States (
12- Ver Pierre Abramovici, "
13- Fred Kempe, "
14- Council on Foreign Relations, More Than Humanitarianism: A Strategic
U.S. Approach Toward Africa, 2006, xiii.
15- Council on Foreign Relations, More Than Humanitarianism, 59.
17- Council on Foreign Relations, More Than Humanitarianism, 24, 133; Jeffrey
Taylor, "Worse Than
18- Council on Foreign Relations, More Than Humanitarianism, 40.
19- Council on Foreign Relations, More Than Humanitarianism, 52–53, 131.
20- Zbigniew Brzezinski, The Grand Chessboard (New York: Basic Books, 1997),
3.
21-