Copla, espanholismo e inimigo interno

18 de Junho de 2006

Reproduzimos a traduçom galega de um artigo recentemente publicado polo jornal basco Gara, da autoria da historiadora Alizia Stürtze, em que se analisa as características sociais do espanholismo mais reaccionário incutido polos principais partidos em amplos sectores sociais do Estado espanhol.

Copla, espanholismo e inimigo interno

Alizia Stürtze (Gara, 16 de Junho de 2006)

Hoje que a extrema-direita está a fortalecer-se em numerosos países europeus, no Estado espanhol também se vam endurecendo e “naturalizando” o discurso e as práticas fascistas.

A trégua da ETA e o início de umha abertura de vias para a consecuçom de umha paz justa e duradoura para Euskal Herria acendêrom aparentemente todos os alarmes em certos sectores do Estado, que estám a trazer à tona absolutamente todos os elementos que conformam o seu espanholismo fascista (e golpista), e com os quais alegadamente continua a identificar-se umha fatia da populaçom espanhola, umha vez que é, seica, através da manipulaçom desses “sentimentos” que um importante sector do PP (e certa fatia do PSOE) tencionam cortar a via para umha soluçom dialogada e obter em simultáneo umha boa presada de votos que lhes permita recuperar a poltrona perdida.

Embora tal pareça, nom é insignificante que os telejornais de máxima audiência dedicassem atençom preferente à agonia e morte de umha “rainha da copla”. De facto, o show mediático e os discursos que acompanhárom a morte e enterro de Rocío Jurado, bandeiras espanhola e andaluza sobre o féretro incluídas, nom fôrom apenas bisbilhotices baratas para o “mundo cor-de-rosa”, mas umha utilizaçom que veiculasse novamente a exaltaçom do espanholismo mais rançoso, esse que durante o franquismo se identificava com os valores da copla e as touradas “de tronío”, e que reflectia através da “cançom nacional” a proposta franquista do “ser espanhol”. Chega com ver os personagens políticos que acudírom aos diferentes actos para perceber que o frágil edifício espanhol apenas consegue encorpar a argamassa com esse pseudo-populismo de virgens, “tonadilleras” e toureiros.

Noutro nível mais preocupante e evidente, o estilo e a violência verbal das soflamas que diariamente lança Jiménez Losantos através das ondas da Igreja espanhola lembram curiosamente bastante os das famosas palestras radiofónicas do sublevado Queipo de Llano que, ao estilo da “guerra psicológica” e com o objectivo de amedrontar o inimigo, ridicularizava com umha linguagem vulgar os republicanos aludindo, com o mesmo elevado estilo jornalístico que Jiménez utiliza para desqualificar, à virilidade de legionários e regulares que iam ensinar às mulheres “vermelhas” o que eram os homens a sério.

Em certos meios, portanto, e apesar da suposta modernidade deste Estado espanhol da “democracia”, nom parecem ter mudado muito nem a forma nem o fundo das mensagens. A resposta às perguntas de com que finalidade é que toleram esses bispos tam requintados e pacifistas umha demagogia informativa tam quarteleira, e porque continua a haver tanto comentador incendiário e agitador, parece óbvia: espanholismo e fascismo som duas faces da mesma moeda, e o “sentimento nacional” só se agita a partir de umhas palavras de ordem de extrema-direita que exploram o medo ao “caos” e a irracionalidade.

Dentro dessa mesma estratégia, voltárom a pôr a disposiçom da Associaçom de Vítimas do Terrorismo, ou seja, da extrema-direita do PP e acólitos, um enorme aparelho propagandístico para convocar umha concentraçom contra “a negociaçom com a ETA e polo esclarecimento do 11-M” em que, numha linguagem golpista e salva-pátrias, se chamou à “rebeliom cívica” e se procurou aquecer a temperatura da crispaçom e a ameaça, imprescindíveis, polos vistos, para legitimar umha prática política manifestamente fascista que, com base na necessidade de “pôr ordem” e de continuar a fazer a guerra sem quartel ao “inimigo interno” (à ETA e a quem, de um jeito ou outro, apoiar “as suas intençons”), tenciona impor antidemocrática e fraudulentamente a sua ideia do que é o Estado espanhol e do que o Governo de Madrid pode ou nom pode fazer.

Neste caso, a pregunta seria porque é vital para essas forças retrógradas (pré-constitucionais som chamadas finamente por alguns) continuar a insuflar vida judicial e mediática a esse “inimigo interno” em torno do qual, nom esqueçamos, o franquismo vertebrou e justificou a sua longa e cruel ditadura. Como com Franco, hoje também alguns sectores necessitam pôr ênfase no inimigo interno e na sua bestializaçom para impedirem um desenvolvimento real da democracia e manterem em pé a sua ideia autoritária do Estado, baseada na criminalizaçom de qualquer oposiçom real social e política, e na chamada “teoria da segurança” que na prática supom a imposiçom de um estado de excepçom.

Parece como se esse nacional-catolicismo fascista actualmente maioritário no PP, certos sectores do PSOE e a burguesia que representam, considerasse que o único modo de manter em pé o seu controlo sobre o poder do Estado, para o qual umha certa forma de “nacionalismo espanhol” é imprescindível, fosse atiçar no povo as chamas do ressentimento e o ódio, glorificar a necessidade da vingança, continuar a perseguir o Inimigo, suposto responsável por todos os males e desgraças. Hoje que a extrema-direita está a fortalecer-se em numerosos países europeus, no Estado espanhol também se vam endurecendo e “naturalizando” o discurso e as práticas fascistas. E, para justificarem essa fraude, necessitam continuar a manipular a gente com base no “perigo terrorista”.

Falam em democracia, mas é claro que entre a democracia a que eles aderem e a que Euskal Herria quer atingir nom há qualquer parentesco. Precisamente por isso é que estám tam agitados e raivosos. Precisamente por isso som tam perigosos. Precisamente por isso temos, a partir de Euskal Herria, que demonstrar-lhes a nossa determinaçom de conquistar algo tam democrático como é o direito a decidir.

 

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