Itália: O regresso do "Caimám"

18 de Abril de 2006

Marco Santopadre, militante da Rete dei Comunisti italiana em Roma, analisa neste interessante artigo de actualidade a situaçom sociopolítica da Itália que ficou traçada após as eleiçons de 9 e 10 de Abril. Eis a traduçom galega do texto publicado hoje mesmo no jornal basco Gara.

O regresso do "Caimám"

Marco Santopadre (Roma)

Num filme do realizador esquerdista Nanni Moretti, estreado poucos dias antes das eleiçons de 9-10 de Abril, Silvio Berlusconi é denominado O Caimám e celebra-se a sua entrada à prisom após ter sido condenado num dos muitos julgamentos que protagoniza. Muita gente passou horas nas filas para poder entrar nos cinemas que tinham programado um dos filmes italianos melhor sucedidos dos últimos meses. Páginas inteiras dedicadas ao realizador Moretti nos jornais, entrevistas nos canais televisivos, debates nas rádios… Todo parecia fazer parte de um ritual colectivo que apenas podia acabar com o desaparecimento de um personagem pol´tiico que todos os inquéritos e sondagens situavam como perdedor, e a muita distáncia, nas eleiçons.

"O país está mal", "o sistema económico nom é competitivo", "o primeiro ministro nom resolveu o seu conflito de interesses"... Todo parecia um coro de críticas por parte da sociedade civil contra um líder que muitos considerárom um acidente da história e do sistema mesmo em Itália. Um acidente que as eleiçons, afinal, iam apagar, limpando a consciência sofrida de milhons de italianos envergonhados por terem no poder um personagem folclórico de mais e, amiúde, inapresentável. "O que é que ham de pensar de nós os outros cidadaos europeus, a opiniom pública de França, de Espanha, da Alemanha… se nom mandarmos embora do Palazzo Chigi o Berlusconi?" tem sido o refrám reiteradamente utilizado na campanha eleitoral polo centro-esquerda.

Mas enquanto Prodi e os líderes da Unione pediam o voto para limpar a imagem nacional italiana através de um "governo de gente séria e honesta ", o Caimám fijo campanha contra o "perigo comunista"... Chamava em diferentes ocasions "palermas" aos eleitores adversários e, sobretodo, conseguia mobilizar a base social dos sectores que o julgavam defensor dos seus interesses: os profissionais na luita contra os impostos, os operários do Norte com o medo à invasom dos imigrantes extracomunitários, os pequenos comerciantes e empresários encorajados porum discurso proteccionista contra a concorrência dos produtos chineses, o mundo católico conservador premiado com o financiamento das escolas privadas e com a defesa da moral e dos valores tradicionais.

Em poucos dias, Berlusconi aumentou sensivelmente a intensidade e a violência dos seus ataques aos seus inimigos históricos: os "juízes comunistas", a "esquerda antiliberal", os jornalistas e os intelectuais manipulados, os sindicatos inúteis e parasitários… e ganhou! O Caimám, que muitos viam à espera do primeiro voo para as Caraíbas, ressurgiu das suas cinzas, mais forte do que antes, mais determinado, mais violento, mais perigosos. Sobretodo, demonstrou que a sua popularidade cresce, que se reforça. De ser um acidente do sistema, passou a ser um líder popular, carismático. Duce, duce, gritavam-lhe os militantes neofascistas no último discurso numha praça de Nápoles lotada de gente.

Hoje, depois de vivermos estas eleiçons, podemos afirmar com rotundidade que apenas graças a umha lei eleitoral maioritária, inventada e aprovada pola direita pouco antes das eleiçons e fortemente rejeitada no seu dia pola oposiçom, o antigo democristao Prodi tem agora as 60 cadeiras da maioria na Cámara dos Deputados, apesar de ter umha vantagem de unicamente uns 25.000 votos num país com quase 50 milhons de eleitores. No Senado, a situaçom é ainda mais paradoxal: o Pólo (centro-direita) tem mais de 50% dos votos, mas duas cadeiras menos do que a Unione (centro-esquerda), após a contagem dos boletins de voto dos italianos que votárom no estrangeiro. Se os italianos emigrados na América Latina, EUA, Canadá, Austrália… pudérom votar na renovaçom do Parlamento de Roma foi sobretodo graças a umha lei patrocinada polo fascista no arrependido Mirko Tremaglia.

Alguns dim que os italianos que moram no estrangeiro tenhem um olhar privilegiado da situaçom no nosso país, e que estám cheios de serem interpelados permanentemente por terem um primeiro ministro tam inapresentável. Mas a verdade é que, enquanto a Unione apresentou umha lista unitária, a direita no estrangeiro apresentou-se dividida, e isso num sistema eleitoral maioritário é sinónimo de derrota.

Um país partido em dous

A Itália que sai das eleiçons de 9-10 de Abril é um país bastante surrealista, kafkiano, partido exactamente em duas partes, com umha direita mais forte do que nunca a pedir a contagem dos boletins de voto, a denunciar irregularidades e a ameaçar com mobilizaçons. "Como pode Prodi governar um país sem umha verdadeira maioria?", repete sem cessar a propaganda de umha direita que leva umha ofensiva sem precedentes e empurra para umha soluçom à alemá, quer dizer, umha grande coligaçom que mantivesse no poder um líder que vê com preocupaçom a possibilidade de ficar cinco anos na oposiçom. O bloco reaccionário nom quer aceitar umha derrota tam paradoxal que ameaça com influir negativamente sobre os seus interesses materiais e sobre a possibilidade de dar continuidade à aliança com os EUA.

Por seu turno, Prodi contesta "que ganhamos!", que com as leis maioritárias se ganha por um só voto que seja. Mas o centro-esquerda parece estar com medo, reage a gaguejar, a criar um clima de instabilidade, de confusom na sua base eleitoral e social escondido atrás da suposta tranquilidade de Prodi. E o líder do Partido dos Comunistas Italianos, Diliberto, perguntou a si próprio numha entrevista se nom se terá chegado a umha situaçom que exija dormir cada noite numha casa diferente, como nos tempos das ameaças de golpe dos anos setenta.

Umha interpretaçom exagerada de umha preocupaçom que parece paralisar a base da esquerda institucional, que após ter engolido a sobrevivência do Caimá, agora tem de aturar a sua ofensiva ideológica. Eis a situaçom de um "povo de esquerda" que espera com ansiedade um sinal de força, de dignidade, por parte do lidership que parece nom chegar nunca.

Prodi fijo umha campanha fraca, mole, sem argumentos, a pensar simplesmente que o tema da honestidade e da seriedade seria suficiente para convencer a opiniom pública. Entretanto, Berlusconi representou os interesses materiais e ideológicos da sua base social e mobilizou sectores novos, o que explica a alta participaçom nas eleiçons, em defesa dos projectos dele.

No entanto, a base social de certa esquerda que estava à espera do anúncio da retirada das tropas do Iraque por parte de Prodi, a paralisaçom das obras do comboio de alta velocidade, ou a retirada das leis que precarizam o trabalho, ficou desiludida.

Ganhar o poder para nom mudar de política

Pode-se ser mobilizada com argumentaçons éticas e morais umha pública que quer saber como chegar à quarta semana do mês com salários e pensons insuficientes? Os factos dim que nom. Embora a maioria dos eleitores do centro-esquerda tenham acudido às urnas para se desfazerem do Caimám, figérom-no sem muita ilusom de poderem determinar umha mudança real nas políticas económicas e sociais.

As primeiras declaraçons de Prodi parecem confirmar as preocupaçons de quem, por exemplo, critica a submissom da chamada "esquerda radical" ao programa centrista de Prodi. O novo primeiro ministro já dixo que Itália retirará as suas tropas do Iraque apenas com o acordo do Governo de Bagdad, quer dizer, de Washington, e que, para sanear os desastres deixados por Berlusconi nas finanças públicas, os italianos terám de suportar sacrifícios económicos e, por se nom fosse avondo, que o património público terá de ser privatizado.

Paradoxalmente, os italianos nom conseguírom, nom quigérom conseguir, afastar completamente o Caimám do poder, e terám um governo berlusconiano sem Berlusconi. Nom era um segredo para ninguém que o chefe dos empresários italianos, Luca Cordero di Montezemolo, fijo campanha em prol de Prodi, do mesmo jeito que figérom os maiores jornais controlados polos poderes económicos e financeiros.

Enquanto isso, os movimentos sociais italianos perguntam a si próprios porque é possível mudar em França a tendência política no tema da precariedade labora, por exemplo, e nom em Itália.

Os empresários e as hierarquias da Igreja em Itália poderám gozar de umha situaçom em que ambas coligaçons nom terám a força suficiente para agirem sem um consenso mais amplo. Confindustria di agora, após os insultos, que há que garantir a estabilidade, a concórdia nacional, a governabilidade, o crescimento económico, e que tal só pode ser feito com a colaboraçom entre o Pólo e a Unione. Que os ministros sejam do centro-esquerda e até da "esquerda radical", pouco interessa, se as linhas fundamentais forem decididas nos congressos dos empresários ou em Sam Pedro do Vaticano, isso sim, com o necessário consentimento das direitas. Como dizia o falecido chefe da FIAT, Giovanni Agnelli, há alguns anos, a abençoar o primeiro governo Prodi (1998), "nada melhor do que umha política de direita feita por um governo de esquerda".

A última vez, essa actuaçom trouxo a ruptura da Refundaçom Comunista com o govenro de Prodi, o que impediu levar a cabo esse experimento. Desta vez, para evitar o mesmo, o Ulivo, o futuro Partito Democrático, garantiu a fidelidade do líder da Refundaçom Comunista, Bertinotti, que afirma andar "à procura de Deus" e que mesmo antes das eleiçons limpou as listas do partido de candidatos incómodos da minoria, contrários à aliança com Prodi, ou próximos de mais dos movimentos sociais em luita. Em definitivo, Bertinotti desfijo-se dos que o criticarám por ter ministros num governo neoliberal e por estar disposto a colaborar inclusive numha eventual agressom militar contra o Irám. Ele contestará com a chantagem de sempre: "O que queredes, que o Caimám volte?". Mas, na verdade, o Caimám já voltou.


Voltar à página principal