O petróleo para os bolivianos [e as bolivianas]

3 de Maio de 2006

A justa recuperaçom do controlo dos hidrocarburos bolivianos polo governo presidido por Evo Morales, depois de décadas em maos da pior rapina do capitalismo especulativo mundial, deixou ao léu a verdadeira estirpe nom apenas da direita mais reaccionária (representada no Estado espanhol polo PP). Também se pronunciou essa pseudo-esquerda que, em funçom dos "interesses pátrios" da sua grande burguesia, adere à petiçom de que o povo da Bolívia continue a renunciar a dispor dos seus recursos naturais e continue a morrer à fame sem incomodar o imperialismo.

É o caso do PSOE, que reivindica as posiçons dos piratas de Repsol YPF e chega a ameaçar directamente o Governo boliviano, mas também da IU que evita qualquer crítica à oligarquia espanhola que saqueia a América Latina, limitando-se a pedir-lhe, à boca pequena, algumha contençom.

Nengumha surpresa, de resto. Pola nossa parte, apresentamos o editorial publicado hoje mesmo polo prestigioso jornal progressista mexicano La Jornada, que dá umha visom diferente à dos media que nestes dias nos contaminam com as suas mentiras chauvinistas ao serviço do imperialismo espanhol.

 

O petróleo para os bolivianos

Editorial de La Jornada (3 de Maio de 2006)

A 100 dias de ter chegado ao poder, o governo de Evo Morales adoptou ontem umha medida magnífica: decretou que os hidrocarburos do subsolo boliviano passem ao "controlo absoluto" do Estado, por meio da empresa pública refundada Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB). A disposiçom estabelece um prazo de 180 dias para as empresas estrangeiras subscreverem novos contratos de trabalho e a confiscaçom de acçons de empresas mistas para fazer corresponder à naçom mais de 50% da propriedade das mesmas.

A disposiçom é, para já, o cumprimento estrito de umha das promessas centrais da campanha do actual mandatário: a recuperaçom dos recursos naturais bolivianos, os quais fôrom convertidos em botim de empresas transnacionais nos períodos presidenciais de Gonzalo Sánchez de Lozada (1993-1997 e 2002-2003), disciplinado executor do Consenso de Washington e do neoliberalismo mais literal. Mas a nacionalizaçom ontem conhecida, numha data emblemática, é mais do que um compromisso entre o governo de Morais e fatia maioritária da sociedade: constitui umha condiçom imprescindível para levar avante o país andino da sua postraçom económica e orientá-lo para um desenvolvimento que permita atender as suas pavorosas desigualdades sociais, a sua miséria e a sua marginalizaçom. A medida é, ainda, um fito histórico na construçom da soberania boliviana.

As duas transnacionais mais afectadas polo decreto som a hispano-argentina Repsol YPF e a brasileira Petrobras. É lógico que em círculos governamentais de Madrid e Brasília se tenham lançado imediatamente expressons de desgosto pola medida oficialmente denominada Decreto Supremo 28701 "Heróis do Chaco"; que o ministro brasileiro das Minas e Energias, Silas Rondeau, a qualificasse de "gesto nom amigável", e que o minstro espanhol do Exterior tenha manifestado a sua "preocupaçom". Cabe é esperar que tanto o governo de José Luís Rodríguez Zapatero como o de Luiz Inácio Lula da Silva actuem com espírito compreensivo, compreendam que nacionalizaçom dos hidrocarburos é umha necessidade impostergável da Bolívia e consigam conter a hostilidade provocada polo decreto de Morales nos círculos financeiros espanhóis e brasileiros.

É pertinente lembrarmos que a luita dos bolivianos por recuperarem os recursos do controlo estrangeiro nom começou ontem, nem quando Evo chegou ao Palácio Quemado de la Paz. Já a 13 de Março de 1937, no governo de David Toro Ruilova, foi nacionalizada a Standard Oil e fundada a YPFB. O controlo sobre o petróleo voltou a ser perdido em anos posteriores, e a 17 de Outubro de 1969, durante a gestom de Marcelo Quiroga Santa Cruz no Ministério das Minas e o Petróleo, fôrom nacionalizados os bens da Bolivian Gulf Oil Company. Ontem, afinal, o governo de Evo Morales rendeu umha justa homenagem à memória de Quiroga Santa Cruz, assassinado pola reacçom em 1980; aos mineiros lendários; aos caídos durante a chamada Guerra do Gás, em 2003, e a muitos outros, dando um passo trascendental para garantir o futuro dos bolivianos [e as bolivianas].

 

 

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