Os verdadeiros ladrons som outros

8 de Outubro de 2006

Embora referido ao contexto do País Basco, a historiadora Alizia Stürtze giza no seguinte artigo um perfil nítido das características do capitalismo neoliberal que padecemos nos diversos países da Europa ocidental, perfeitamente aplicável à realidade da Galiza. O texto foi publicado hoje mesmo no diário basco Gara.

Os verdadeiros ladrons som outros

Alizia Stürtze

Há um par de dias, num telejornal, as imagens de pessoas filmadas polas cámaras de segurança enquanto roubavam nalgumha grande superfície eram acompanhadas com umha acusadora voz em off a laiar porque estes furtos suponhem perdas milionárias que devemos pagar “entre todos”. Quer dizer, aos sofridos consumidores sai-nos mais cara a vida porque uns desalmados levam sem pagar a garrafinha de Rioja, comem o saquinho de batatas antes de passarem pola caixa ou tiram o alarme ao anorak na escuridade do gabinete de provas. Segundo nos insistem de maneira maçadora nos media, o latrocínio em que os piratas informáticos incorrem, ou aqueles que descarregam filmes ou copiam um disco prejudica nom apenas Bill Gates (o homem mais rico do mundo) e as multinacionais discográficas e cinematográficas, como sobretodo a gente comum. Um outro tema informativo recorrente é o relacionado com a falisificaçom de marcas, o “flagelo do século XXI”, em opiniom do FBI. Ao que parece, comprando umha mala, um relógio ou umha camisola dessas de imitaçom fabricadas clandestinamente, nom só estamos a bigarizar o fisco e o proprietário da marca diferenciada, como estamos a cavar a nossa própria cova de ávidos consumistas.

O objectivo destas companhas mediáticas é duplo. De um lado, proteger o investimento e os interesses privados de uns poucos, e justificar o endurecimento das leis contra este tipo de delitos, quer dizer, o aumento da repressom. De outro lado, desviar, como sempre, a atençom e impedir que percebamos que o verdadeiro ladrom e vigarista em grande escala é o capitalismo na sua actual fase; que quem está a apropriar-se ilegalmente do nosso esforço, os nossos impostos, os nossos investimentos e as nossas poupanças é a cúpula do sistema; que, como Petras explica, “a imoralidade deixou de ser um simples incidente no capitalismo, é um fenómeno estrutural, que se acha sistematicamente na organizaçom mesma dos capitais”; e que, estamos, portanto, submetidos ao reino do roubo e a vigarice, mas os meios (incluídos, é claro, os que o PNB e o PSOE controlam) encarregam-se bem de que olhemos para outro lado e vejamos o inimigo onde ele nom está.

As evasons de impostos e de capitais dos mui ricos som multimilionárias, e o branqueamento de dinheiro negro é umha prática habitual. E isso é roubar, embora as instituiçons nom persigam devidamente os paraísos fiscais e continuem a ser “legais”. Na actual situaçom de euforia das bolsas, em pleno frenesi de OPAs e fusons, há delaçons e filtraçons que permitem uns poucos de embolsar em mui poucos dias umhas suculentas fatias com operaçons milionárias de compras de acçons. E isso, como outro enriquecimento acelerado fruto da especulaçom e o tráfico de influências qualquer, é vigarizar, quer seja chamado lucro rápido ou “insider trading”. Bancos e caixas de aforro vem aumentar espectacularmente os seus lucros graças fundamentalmente ao forte crescimento das receitas por comissons e por créditos para o financiamento da habitaçom. Tendo em conta que nos obrigárom a engolir a domiciliaçom bancária de absolutamente todo, fazer crescer o lucro liquido com base na cobrança cada vez maior de cada operaçom bancária só pode qualificar-se de facada legal. E encher-se de dinheiro graças à desgraça de quem tem de adquirir habitaçom sob hipoteca a um preço totalmente exorbitante nom pode ser mais do que moralmente ilícito.

Até por sabermos que, das subidas dos tipos de juro decididas polo Banco Central Europeu, bancos e caixas som quem vam tirar vantagem, e conhecendo a relaçom estreita entre o sector banqueiro e o especulativo e quase mafioso da construçom. Sirva como amostra a recém demonstrada ligaçom da Kutxa guipuscoana com a “trama basca” da Operaçom Malaya e os seus investimentos em empresas construtoras imersas em importantes e polémicos projectos, e em suspeitas requalificaçons de terrenos. Todo isso, já agora, enquanto diminui a percentagem desses enormes lucros que reverte para a sociedade em forma de Obra Social.

Enfrentamo-nos a um capitalismo rendista, parasitário e voraz, cujo único objectivo é a maximizaçom do lucro. Para tal, na fase actual e em nome da “concorrência” estám a destruir as bases produtivas, em lugar de as desenvolverem e, com a imprescindível conivência das instituiçons (Eusko Jaurlaritza, deputaçons, cámaras municipais…), estám a conseguir que o reparto social seja cada vez menor e que toda a política fique condicionada polo lucro individual de uns poucos. A progressiva degeneraçom dos serviços autenticamente públicos de Osakidetza e a sua paulatina privatizaçom com base em estranhas concertaçons som o paradigma perfeito deste escandaloso casamento entre instituiçons e capitalismo actual. Casamento que, com certeza, se estende a multitude de sectores anteriormente públicos (e que geravam emprego público) e hoje privatizados (ou a ponto de o serem), para maior engorda de certas grandes empresas (a FCC da Koplowitz, por exemplo), grandes contratadoras de trabalhadores em precário.

Deste modo, em lugar de reinvestirem o dinheiro público na sociedade (ofertando emprego digno, entre outras cousas), trespassam-no aos mais ricos para explorarem e escravizarem bem os seus trabalhadores, que é o único jeito possível de cumprirem com a criminosa lógica do máximo lucro. A esta subtracçom dos nossos direitos podem chamá-la optimizaçom dos recursos ou como bem entenderem, mas nom deixa de ser um flagrante e imoral assalto realizado à grande maioria.

Este regresso para um tipo de capitalismo em que o roubo é a base do financiamento é sinal, em opiniom dos peritos marxistas, de que o sistema está imerso numha crise económica estrutural grave. Dever da esquerda é trabalhar para que essa crise seja a derradeira.

 

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