Entrevista a Carlos Morais: "Compatriotas emigrados a Cuba incorporárom-se com todas as conseqüências à luita de libertaçom da sua nova pátria"

2 de Outubro de 2006

Carlos Morais, secretário-geral de Primeira Linha, fijo parte da delegaçom do nosso partido que viajou durante duas semanas de Setembro ao longo da ilha de Cuba, partindo do Oriente e chegando até a capital, Havana. Durante a visita, que serviu para o estabelecimento de relaçons formais entre o nosso partido e o Partido Comunista de Cuba, o camarada Carlos Morais tivo ocasiom nom apenas entrevistar-se com dirigentes do Partido Comunista, mas também de conhecer a vida quotidiana do povo cubano.

Nesta entrevista, transmite-nos algumhas das suas impressons sobre a situaçom no país irmao, na actual fase da sua resistência anti-imperialista e de construçom do socialismo.

 

Primeira Linha em Rede: A desinformaçom e manipulaçons caracterizam as mensagens que sobre Cuba nos transmitem os media do sistema na Galiza. Qual é a tua impressom geral sobre o país após esta visita?

Carlos Morais: Melhor do que aguardava. Embora duas semanas nom sejam suficientes para fazer um diagnóstico rigoroso de um país, a visita constatou os importantes avanços experimentados, após ter superado com êxito os momentos críticos provocados pola errónea dependência que a Revoluçom mantinha com o bloco soviético. Nas conversas directas mantidas com dúzias de pessoas anónimas e com dirigentes, pudemos estabelecer grandes coincidências.

PLeR. Sabemos que a década de 90 foi especialmente difícil para toda a populaçom cubana, durante o chamado Período Especial que se seguiu à queda dos sistemas do Leste da Europa. Percebem-se sintomas de recuperaçom económica?

CM. Sim, sem dúvida. As medidas económicas excepcionais adoptadas pola Revoluçom lográrom boa parte dos objectivos na hora de dotar Cuba de capitais que facilitassem contar com o petróleo e outras matérias-primas essenciais para a reactivaçom e normalizaçom da economia. O turismo e a liberalizaçom do mercado interno em cerca de cem sectores foi vital para evitar o colapso absoluto, e facilitar as condiçons de vida de umha boa parte da populaçom, e deste jeito poder assegurar as conquistas estratégicas atingidas a partir de 1959 em educaçom, saúde, serviços sociais, cultura e desporto de que desfruta a totalidade do povo cubano.

Cuba, em 1990, estava internacionalmente encurralada, isolada, após a queda da URSS e dos países do leste europeu, dos quais mantinha umha absoluta dependênca. Carecia do mais básico para manter o sistema económico construído na década de sessenta. Hoje conseguiu diversificar as relaçons internacionais e contar com valiosos aliados, como a Venezuela ou a China.

PLeR. Um dos tópicos mediáticos do capitalismo em relaçom a Cuba é falar de “sistema repressivo”, do suposto “controlo social” e da “falta de liberdades”. Achas que esses tópicos tenhem algumha base na realidade que se vive na ilha?

CM. Nengumha em absoluto. Som patranhas e propaganda capitalista. O que pudemos constatar é que a Revoluçom Cubana nom só tem garantidos os direitos humanos fundamentais que permitem umha vida digna, senom que tem construído um sistema de participaçom popular que garante umha boa parte das liberdades e direitos individuais e colectivos que, na imensa maioria dos países do globo, ou nom existem ou som meramente formais. Porém, logicamente, ainda há caminho a fazer nesta matéria, concretamente no livre acesso às novas tecnologias, e na aprofundizaçom da democracia socialista.

PLeR. A ameaça do imperialismo ianque contra Cuba, tal como contra a Venezuela, Irám e alguns outros países, é bem real e nom parece que vaia diminuir no curto prazo. Como se vivem no interior de Cuba as perspectivas da aliança anti-imperialista com países como a Bolívia e, sobretodo, a Venezuela?

CM. Com expectaçom, ilusom e optimismo. As mudanças operadas na correlaçom de forças na América Latina após duas décadas de neoliberalismo selvagem e recuo das luitas populares, actualmente plasmadas sobretodo na Revoluçom Bolivariana da Venezuela e na vitória do movimento popular na Bolívia som um inestimável contributo para a heróica resistência do povo cubano contra o imperialismo norte-americano. A recente Cimeira do Movimento dos Países nom Alinhados, da MNOAL, em Havana, com presença de dúzias de chefes de Estado e delegaçons do mais alto nível da prática totalidade dos estados membros tem sido umha vitória diplomática sem precedentes da Revoluçom Cubana, que consolida a superaçom da etapa crítica da década de noventa.

Hoje Cuba nom só está fortalecida internacionalmente, apesar da hostilidade imperialista ianque e da UE, senom que continua a ser um referente para os povos e os deserdados de todo o mundo.

PLeR. A presença de galegos e galegas tem sido importante no último século de história de Cuba, e é ainda bem visível. Tivestes ocasiom de contactar com galegos ou galegas envolvidas no processo revolucionário?

CM. Sim. Tivemos a satisfaçom de conhecer e confraternizar com destacados compatriotas emigrados à ilha na década de quarenta e cinqüenta, posteriomente envolvidos activamente no processo revolucionário, tanto no assalto ao quartel Moncada em 1953 como depois na Sierra Maestra, além de no posterior levantamento das instituiçons da Revoluçom.

Conhecemos homens excepcionais, labregos galegos expulsos da seu país no drama da emigraçom imposto polo capitalismo espanhol, que chegárom a um país desconhecido e, numha mostra de coragem e internacionalismo, se incorporárom com todas as conseqüências à luita de libertaçom nacional e emancipaçom social da sua nova Pátria.

PLeR. Imaginamos que, em relaçom ao conhecimento da Galiza como naçom sem Estado europeia, haverá muito trabalho a fazer inclusive nos meios mais politizados da Cuba revolucionária. Que passos podem ser dados por parte da Galiza nesse sentido?

CM. O modesto peso da esquerda independentista e o desinteresse tradicional do nacionalismo maioritário por internacionalizar a luita galega provoca que a Galiza siga a ser a grande desconhecida naqueles foros em que participamos. Cuba nom é, neste senso, umha excepçom. Estreitar laços com a Revoluçom Cubana e com todas as suas organizaçons é fundamental para difundirmos a nossa luita pola soberania e o socialismo, para que as revolucionários e revolucionárias cubanas tenham umha outra concepçom do Estado espanhol mais aberta e solidária com a autodeterminaçom dos povos.

PLeR. Quanto à necessária solidariedade com a Revoluçom Cubana, na Galiza há entidades como a Francisco Vilhamil, que levam anos a fazer um importante labor nesse campo. Como achas que deve orientar-se esse trabalho no nosso país no futuro?

CM. A solidariedade com Cuba necessita um impulso, novas energias, voltar a sair à rua, estar presente no movimento popular, nos centros de trabalho e estudo. A Galiza necessita ter voz própria na solidariedade internacionalista como melhor jeito de exercê-la, de contribuir para ajudar à sua causa, mas também para que a maioria do povo cubano mude as suas concepçons sobre o que hoje somos e conheça de primeira mao a nossa luita, em muitos aspectos semelhante à que eles livrárom primeiro na últimas décadas do século XIX sob a direcçom de Martí e depois com Fidel, o Ché e Raúl.

PLeR. Já para concluir, e partindo dos contactos e conversas com dirigentes revolucionári@s e da percepçom da situaçom social em Cuba, como vês o futuro do processo revolucionário na ilha?

CM.Com optimismo realista. Cuba, nestes momentos, tem que consolidar os avanços experimentados na estratégia imposta no Período Especial e resolver os principais problemas que arrasta e assim o demanda o povo cubano em matéria de alimentaçom, vivenda e transporte. Temos constáncia de que a Assembleia Nacional e o PCC tenhem adoptado as medidas necessárias para corrigir esta situaçom. Porém, a Revoluçom vai ter que enfrentar novos problemas derivados das medidas socioeconómicas excepcionais aplicadas para manter a essência do processo revolucionário. Estamos a falar das desigualdades sociais geradas pola liberalizaçom económica, da corrupçom, da burocracia, absentismo e indisciplina laboral. Mas também da incorporaçom da juventude às tarefas e desafios da construçom do Socialismo.

 

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