Dialéctica de coincidências em Euskal Herria

5 de Julho de 2006

Primeira Linha em Rede publica o artigo do militante comunista e abertzale Iñaki Gil de San Vicente que o web de NÓS-UP deu a conhecer onte como adianto do dossier sobre o "debate estatutário" do número 14-15 do Voz Própria, vozeiro nacional de NÓS-UP.

Dialéctica de coincidências em Euskal Herria

O anúncio do presidente do Governo espanhol, Rodríguez Zapatero, sobre o início das conversas oficiais com a ETA, é mais um passo do longo processo iniciado há um terço de século. Embora suponha umha novidade pois é a primeira vez na história dos muito frequentes contactos directos ou indirectos entre todos os governos espanhóis e a ETA, na qual o governo estabelecido anuncia oficialmente e com antelaçom que se vam produzir no longo processo histórico que antecede e que provoca esta situaçom. Nom caiu do céu nem responde a umha súbita conversom paulatina do PSOE à democracia; e ainda menos é um capricho extravagante de Zapatero apoiado por um corifeu de incondicionais e arrivistas. O seu anúncio supom, na realidade, um reconhecimento implícito de que o Estado espanhol nom pode vencer policialmente a esquerda abertzale no contexto actual, de que pode ser bom aumentar o fundo, o conteúdo das conversas que já mantinham, e, por último, de que ambas as cousas, podem beneficiar ao PSOE.
Há momentos na história em que, por razons da complexidade das contradiçons em luita, coincidem dous inimigos e marcham durante um tempo na mesma direcçom. Som coincidências que duram pouco porque se movem nas partes exteriores dos problemas, nom som coincidências estruturais e duradouras mas fugazes e superficiais. Evidentemente, conforme dixemos antes, nom som fortuitas nem casuais, já que o acaso nasce do choque de processos causais, sobretodo nas acçons humanas, na realidade social. Esclarecer isto é importante para entender o que está a acontecer no Estado espanhol e na parte que ainda ocupa de Euskal Herria.
Vamos centrar-nos em primeiro lugar na parte mais conhecida e por isso mais breve: durante um terço de século a esquerda abertzale foi acumulando forças, superando repressons e armadilhas, convencendo sectores e indicando pacientemente que nom havia outra soluçom que chegar a um acordo. Tem sido um caminho duro no qual a esquerda abertzale e sobretodo a ETA, nom tem duvidado em corrigir a sua linha anterior, aceitar publicamente os seus erros, autocriticar-se e abrir novas vias. Entretanto as forças constitucionalistas e autonomistas empenhavam-se em, além de esmagarem ETA, ainda em evitarem que nada mudasse, que todo continuasse na mesma, excepto no aumento das suas prebendas institucionais, batotas e negócios. Se tivesse sido por eles, agora continuaríamos igual que antes no que concerne a Euskal Herria.

Mas o capitalismo espanhol caracteriza-se pola sua débil centralidade estato-nacional, das suas forças centrípetas, e pola persistência das reivindicaçons nacionais periféricas, das forças centrípetas. Periodicamente esta contradiçom agudiza-se ao extremo de terem que intervir as forças armadas, intervençons explícitas ou simples "sugestons" entre corredores. Quando a tensom inter-nacional dentro do Estado se conjuga com a tensom social, com a luita de classes no seu interior, entom o mais frequente é que estalem crises verdadeiramente estruturais. O exército é quem recompom com brutalidade a situaçom, como em 1936-39. Mas em determinados contextos globais a soluçom militar é a pior de todas, sendo preferível mudar algo sem importáncia para que nada importante mude, como em 1975-78. Para lográ-lo, um dos truques é ceder parte do bolo que a burguesia central obtém com a opressom nacional dos povos às burguesias colaboracionistas que, com muito gosto, se desvelarám para agradar à irmá maior. De facto, durante o quase meio século de ditadura, estas burguesias nom figérom literalmente nada polo seu povo mas limitárom-se a um colaboracionismo declarado mas nom oficial. Como iam fazê-lo na altura em que podiam aumentar a sua parte de bolo ao colaborarem oficialmente com a "democracia"? Isto explica que nom tenham feito nada durante o seguinte terço de século.
No entanto, por baixo dessa passividade premeditadamente egoísta, a realidade mudava a pouco e pouco, imperceptivelmente mas sem pausa. Tudo flui e nada permanece. A lentidom subterránea apanhava rapidez e saía à superfície pola acçom de quatro factores principais como eram: um, a incidência militante da esquerda abertzale em Euskal Herria e a paulatina recuperaçom do activismo político no resto do Estado, sobretodo nas outras naçons oprimidas; dous, simultaneamente, as mudanças de fase dentro do imperialismo, a nova reordenaçom europeia, a aceleraçom do processo mundializador de capital, etc., e as formas específicas que essas mudanças tomavam no Estado espanhol: obsolescência técnica, défice externo, endividamento privado, boom finaceiro-especulativo da economia do tijolo e do turismo, etc.; três, como efeito de ambas mudanças, as burguesias periféricas começaram a ver a necessidade de algumhas reformas a tempo para nom ficarem atrasadas nem à frente dos seus povos, que exigiam mais direitos, nem à frente do Estado que, para assegurar umha incerta situaçom económica de fundo, exigia mais dinheiro e reforçava a centralidae administrativa com leis e decretos diários, reduzindo ainda mais as pequeníssimas atribuiçons delegadas por Madrid; e quatro, dentro da burguesia espanhola começou a produzir-se um distanciamento nom importante entre os dous grandes blocos: quem preferiam adorar o euro e quem adoravam o dólar, embora na realidade se prostrassem perante os dous.
Logicamente, este distanciamento tinha o seu reflexo e efeito indirectos no plano político, sobretodo pola peculiaridade dos dous grandes partido espanhóis consistente em serem peças chave para a administraçom política, sócio-económica e ideológica do capitalismo espanhol. Dentro do PP dominava esmagadoramente o deus dólar e no PSOE havia, e há, um sector importante com muitos interesses subimperialistas na América Latina, entretanto um outro sector via a urgência de umha definitiva ligaçom ao euro como a melhor tábua de salvaçom externa, sem abandonar o dólar. Estando ainda o PP no Governo do Estado, no PSOE produziu-se umha áspera luita interna na qual saiu vencedor por pouco um sector quase desconhecido nucleado por Rodríguez Zapatero, ao qual augurárom umha rápida substituiçom: "Zapatero o Breve", alcunharam-no. Assim que foi eleito secretário geral várias tendências internas começaran as suas batotices e obstruçons, procurando o seu rápido esgotamento. Mas isto nom sucedeu por razons muito simples de entender.
O PSOE fora recriado artificialmente na segunda metade de 1970 com dinheiro alemám e permisso da ditadura, obedecendo as directrizes da embaixada norte-americana em Madrid: havia que criar umha sólida cerca perante o suposto "perigo comunista" do PCE -que de leom republicano devéu em pomba monárquica-, de modo que a transiçom da propriedade franquista à propriedade juancarlista fosse normal, sem sobressaltos. A nova pomba monárquica suicidou-se num alarde de espanholismo burguês e o PSOE absorveu e integrou toda a classe de náufragos políticos, arrivistas e trepas. Por volta de 1993, cumprida a metade da sua funçom iniciaram a sua demoliçom que concluiu em 1996 com a vitória eleitoral do PP. As decrépitas burocracias do PSOE nom podiam nem recompor o partido, corrompido até a medula, nem menos ainda reconquistarem o governo. Enquanto as fracçons dominantes se devoravam na briga polo controlo interno, entre elas meteu-se sem barulho um grupo regeneracionista que nom se significara anteriormente e no qual quase ninguém tinha reparado. A sua vitória foi umha surpresa para os barons, ególatras e ensoberbecidos, indiferentes perante as mudanças internas nas bases do partido
Desde aproximadamente 1993 o PSOE foi deixando atrás de si um rasto inocultável de corrupçons internas e externas, de cesarismo na sua direcçom única, de rompimento da sua unidade anterior, de manipulaçons e batotas e sobretodo de fracasso no elementar: vencer ETA e melhorar a situaçom social. A sua traiçom ética, a sua domesticaçom política e o seu giro ao pior da ideologia burguesa, figérom com que muitos sectores da juventude urbana votaram no PP. Naturalmente, certos grupos militantes de responsabilidade média e de base nom aceitavam essa descomposiçom e à primeira oportunidade mostraram o seu mal-estar votando no mais desconhecido, ao menos elevado e por isto o mais fiável. A cauta política de Zapatero gozou do apoio dos erros do PP, que na sua ánsia por multiplicar o antes possível os benefícios de umha parte da burguesia, estava a arrasar com todo o demais, de modo que para o final do século XX começavam a notar-se os sintomas de um mal-estar crescente, situaçom já nítida desde o 2001 e que com vicissitudes foi a que explodiu em Março de 2004 perante a descarada manipulaçom do PP dos atentados em Madrid: se o Governo e o PP faziam isso nesses dias, o que fariam depois durante mais quatro anos de mandato? Esta dúvida aterrorizou centos de milhares de abstencionistas progressistas e de esquerda que, tapando o nariz, dérom o voto a um tímido e desconhecido Zapatero.
Depois todos recordamos o que tem sucedido nestes últimos anos, como os barons torpedárom as suas iniciativas enquanto o seu grupo fiel reordenava o partido, tomando o controlo interno e reorientando a grande massa passiva e oportunista da sua burocracia interna. Estas pequenas contradiçons internas nom eram nada em comparaçom à ferocidade implacável que no exterior mantinha e mantém a direita neofascista do PP e que está a chegar a situaçons que seriam macarrónicas de nom serem potencialmente terríveis, consistentes em que toda a direita mais reaccionária, a fracçom mais atrasada e retrógrada da burguesia, evidentemente a imensa maioria da Igreja, todo esse amplo sector social identificou-se com o modelo do PP e com o seu rechaço absoluto a qualquer processo de resoluçom democrática do conflito espanhol em terras bascas.
Criou-se assim umha situaçom marcada por, primeiro o já prático controlo absoluto do PSOE polo grupo de Zapatero, que está a avançar a marchas forçadas no controlo do Estado. O PSOE tem um programa estratégico de definitiva integraçom do Estado na UE, superando por fim a enorme distáncia que tem separado Europa do Estado espanhol desde os séculos XV-XVI. Muitos sectores burgueses sabem que estám ante possivelmente a última possibilidade de subir no comboio europeu e tem pressa em lográ-lo porque todos os indicativos económicos advertem que mais cedo que tarde desinchará o balom da economia de serviços, de tijolo e de especulaçom. Tenhem de salvaguardar a pouca indústria que lhes resta e isso apenas podem fazê-lo dentro da UE, e contodo nem há certeza total.
Segundo, o PSOE sabe que umha das bases da modernizaçom espanhola é reorganizar as relaçons de exploraçom nacional interna, renegociando com as burguesias periféricas e remodelando o Estado para, entre outras cousas, deter a sangria da dívida autonómica, diminuir o custo do funcionamento do Estado, carregar às autonomias parte dos gastos sociais e públicos e, ainda, recriar o nacionalismo espanhol dando-lhe ares democráticos relacionando-o com esse europeísmo que querem criar a marchas forçadas. Como "varreu" o Estatut Català é um exemplo disto todo.
Terceiro, mas nesta tarefa o PSOE encontrou de frente com o PP, aqui surge precisamente a coincidência transitória com a esquerda abertzale nom porque esta esteja em processo de genuflexom, mas porque o PSOE pensa que utilizando-nos, prometendo-nos cousas, etc., reforça as suas posiçons. Umha cousa é que poda enganar realmente a esquerda abertzale como enganou ERC, comicamente até, similar a umha intriga de "cornos" e umha outra cousa totalmente diferente que poda lográ-lo. Mas nisto falaremos logo. Agora interessa-nos dizer que o PSOE ganha muito com o processo aberto: margina o PP; reforça o partido interna e externamente; ganha prestígio entre sectores progressistas e nacionalistas descontentes por outras actuaçons; ganha prestígio internacional; avança na reforma do Estado; ganha posiçons em Euskal Herria ao absorver parte do voto do PP e da IU... e pode acreditar que engana a esquerda abertzale enquanto negoceia em privado com o PNB, o mesmo que fijo com CiU a custa do Povo Catalám.
Quarto, por parte da esquerda abertzale há muita consciência de que o PSOE nom fai nada por convicçom democrática. Se fosse assim, teria tomado há tempo muitas medidas que nom quer tomar, nom só com respeito a Euskal Herria: para as prisioneiras e prisioneiros, contra a tortura, parando de vez a repressom e colocando o açaime aos juízes e muitas mais medidas mínimas e urgentes, mas no Estado com respeito às classes trabalhadoras e demais, por nom falarmos da sua política internacional -o seu apoio directo e essencial aos crimes marroquinos contra o Povo Saaraui, por exemplo, ou em América Latina, etc-. O PSOE fai o que fai por pura necessidade: ganhar as próximas eleiçons gerais; debilitar o PP; avançar na reforma do Estado que ele quer fazer; tentar enganar a esquerda abertzale com um processo negociador obscuro, desarrumado, vingativo e repressor, ameaçador, duplo, enquanto procura outras saídas, etc.
Quinto, a esquerda abertzale chegou a este novo passo porque trabalhou, com todos os méritos do mundo e consciente de que nom pode nem quer defraudar as esperanças da sua militáncia, esperanças que se centram na firmeza dos seus objectivos estratégicos. Sabe que agora inicia um caminho novo, mas relativamente novo. Quer dizer, o novo consiste em pola primeira vez se está a falar de muitas cousas dentro de umha oficialidade bastante séria, já que a declaraçom de Zapatero nom foi realizada em sede parlamentar, oficialmente recolhida no livro de sessons, mas num gabinete. Mas o relativo da novidade nom consiste nessa artimanha, mas em que se manterám ainda em funcionamento muitos instrumentos repressivos do Estado, da utilizaçom de presas e presos como reféns e dos seus familiares e amigos como objectos de vingança sádica, até as detençons e processamentos.
Sexto e último, portanto, transitoriamente e devido à conjunçom de factores diversos num mesmo contexto, coincidírom a esquerda abertzale e o PSOE nuns quantos metros de caminho. Situaçons assim ocorrem sobretodo nos processos de emancipaçom nacional e social dos povos oprimidos, mas nom na simples luita de classes num país que nom sofre opressom nacional. Semelhante coincidência fugaz de interesses meramente tácticos e contextuais é o que converte a situaçom actual numha pequena confusom que nom se soluciona com os critérios simples e comuns, ideados para ocultarem o movimentos das contradiçons e para ver cada problema de forma estática e separada dos mais.

Iñaki Gil de San Vicente



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