Entrevista: "O sentimento do povo libanês perante o envio de tropas da ONU é de humilhaçom"

10 de Setembro de 2006

Reproduzimos a entrevista realizada por Mariano Pujadas e publicada polo portal contrainformativo La Haine, com o activista e jornalista Jaume d'Urgell, que participa no sul do Líbano numha viagem de solidariedade com o povo libanês, participando nos trabalhos de construçom, ajuda à populaçom civil e documentaçom dos efeitos da agressom sionista.

Sendo a suposta aceitaçom social do envio de tropas por parte do povo libanês um dos argumentos das forças parlamentares que, unanimemente, aprovárom no Congresso espanhol o envio de tropas, achamos de interesse contrastar com o testemunho deste internacionalista.

- A ONU emitiu umha resoluçom onde se fam umha série de apelos ao cessamento dos ataques de Hezbollah, exigências de desarmamento, etc… em que situaçom é que se acham as negociaçons?

Polas informaçons de que disponho, até hoje a ONU negoceia apenas com o Governo libanês, que aliás nem tem muito boa fama entre o povo, tanto pola corrupçom interna como pola escassa presença e apoio real dos partidos no sul do Líbano. Por isso, umha cousa é que a ONU esteja a negociar com o Governo Libanês e umha outra é que Hezbollah participe activamente ou que essa negociaçom responda a interesses populares. Som cousas diferente.

A situaçom é mui complicada, para além das resoluçons. Salvo excepçons, actualmente o bombardeamento já terminou, mas nestes últimos dias estamos a assistir a um recrudescer das acçons do exército israelita em território libanês.

- O que se transmite da imprensa empresarial é que Hezbollah, umha vez que "aceita a mediaçom da ONU", é a favor do envio de tropas.

Hezbollah é um partido político com um apoio social, nestes lugares do sul do Líbano onde eu estou, em torno dos 80%. E nom é a favor do envio de tropas, simplesmente está a cooperar para que a situaçom seja normalizada no possível. Hezbollah e a sua frente de resistência civil está a limitar-se a respeitar a resoluçom da ONU. Quer dizer, entre algumhas vilas hoje em dia existem ainda acampamentos militares de Israel, e Hezbollah deixou de assediar esses elementos estranhos que tem dentro do País; nom ataca os militares, apesar de eles continuarem a cometer agressons. Por exemplo, sexta-feira produziu-se um seqüestro de três cidadaos que estavam a reconstruir umha escola. Cousas terríveis desse género passam-se periodicamente.

Para fazermos umha ideia, é como se no Pireneu espanhol houvesse disseminados uns 100 acampamentos militares franceses e que desses acampamentos surgissem soldados que, de quando em quando, seqüestrassem pessoas de Huesca ou as matassem.

Hezbollah respeita a resoluçom, consente-a e nom ataca os agressores, mas há que ter em conta que a diferença de proporçom de força militar a respeito de Israel é monumental. Aqui ninguém tem armas grandes nem meios aéreos. Portanto, acho que a posiçom de Hezbollah nesta altura é de "esperar e ver".

- Segundo a tua visom, achas que o envio de tropas seria positivo para o povo libanês?

É verdade que a presença da ONU seria positiva se eles fossem o que afirmam ser. Mas nom é umha "polícia boa" à qual recorrer, eu nem o chamaria ONU: aqui vam vir umha coligaçom multinacional integrada por soldados pertencentes a uns tantos países amigos de Israel (para já, umha das condiçons impostas por Israel é que os países que enviem tropas tenham relacionamentos diplomáticos com o regime sionista).

Portanto, nesse sentido, o sentimento é de humilhaçom. Desejam que haja olhos internacionais que impidam o que está a acontecer, mas parece-lhes umha humilhaçom que haja tropas estrangeiras, amigas dos invasores, a ocuparem o território. Afecta à moral nacioanl de aqui, a gente nom gosta mesmo nada, como é natural, de que na hora de ir trabalhar tenha de passar por controlos militares da ONU e que um soldado lhes pida a documentaçom num inglês mal falado. É possível que certos abusos sejam suavizados, mas o preço que se paga é muito alto. Ao menos essa é a sensaçom que recolho nas vilas em que eu ando.

 

:: Mais informaçons sobre o mesmo tema

BNG votou a favor do envio de tropas espanholas ao Líbano (+...)

 

Voltar à página principal

 

 

Imagem da partida das tropas espanholas para o Líbano, com o apoio de todas as forças ditas "de esquerda" no Congresso de Madrid. NÓS-UP foi por enquanto a única força galega que manifestou a sua oposiçom