É preciso matar Che Guevara outra vez

16 de Maio de 2006

Reproduzimos o artigo assinado polo escritor e jornalista brasileiro Fausto Wolff no Jornal do Brasil de ontem mesmo, em que dá umha visom do conflito entre os governos boliviano e brasileiro por causa da nacionalizaçom do petróleo ordenada por Evo Morales. Umha lúcida visom progressista enfrentada a qualquer tentaçom chauvinista, no interior do gigante sul-americano.

 

É preciso matar Che Guevara outra vez

Fausto Wolff (Publicado no Jornal do Brasil -Rio de Janeiro- a 15 de Maio de 2006)

Depois que visitou o Brasil, Ionesco nom voltou a escrever porque a nossa realidade superava qualquer absurdo que ele pudesse imaginar. Ele, o absurdo, está em toda a parte: no presidente que tem um sistema de saúde quase perfeito, no ex-governador que se defende fazendo dieta, no juiz que condena um assassino confesso à liberdade, na vítima do imperalismo que quer ser imperialista às custas do país mais pobre da América do Sul. Lendo o relatório da ONU, deparei com o absurdo insuperável: no Brasil, país imperialista, a desigualdade social é maior do que na Bolívia, até pouco tempo atrás, país colónia ou Tierra de Madre Juana.

Os que aplaudírom a entrega da Vale, da CSN, a base americana em Alcântara, a venda e a recompra da Light, os privatistas da Petrobrás, som os actuais defensores nacionalistas da nossa terra, mesmo que ela esteja na Bolívia.

Enquanto eu, garoto, pintava nos muros das ruas de Porto Alegre "O Petróleo é nosso", os "nacionalistas" de hoje pintavam umha caveira com a fouce e o martelo encimando a frase "E o resto é silêncio". Os jornais e rádios de Assis Chateaubriand, do norte ao sul do Brasil, insistiam que nom havia petróleo no país e que quem afirmasse o contrário era comunista e traidor da pátria.

Hoje, pola segunda vez na História, há a possibilidade de umha integraçom sul-americana nom comandada polo Tio Sam. Mas os nossos "nacionalistas" pregam retaliaçom à ousadia de um "índio analfabeto com ideias do século XIX", como me dixo em e-mail um "patriota" exaltado.

Lula vive um dilema: como continuar fiel a Washington sem romper com a Bolívia? Terá gás suficiente para agradar a "esquerda" e à esquerda? Como, minha senhora? É, este é outro absurdo: nom há ninguém de direita no Brasil. Vamos ajeitar um pouco a casa. A verdade é que, na Bolívia, os exploradores estrangeiros nom tinham comprado apenas o direito à exploraçom, mas as próprias terras sobre as quais jazem os riquíssimos recursos naturais. Será possível que o Brasil queira que a Bolívia continue a vender as suas reservas de gás e petróleo sem acrescentar no preço o lucro dos que transformam o petróleo cru em gasolina e o gás em electricidade? Será que o Brasil nom sabe que os contratos que davam de mao beijada, o petróleo e o gás bolivianos som inconstitucionais pois jamais fôrom aprovados polo congresso do país?.

Estamos a falar de reservas de, no barato, 11 bilions de dólares. Antes da privatizaçom, metade do dinheiro que entrava nos cofres do Tesouro boliviano vinha das estatais de gás e petróleo. Hoje 10% do que entra venhem da exploraçom estrangeira. Na Bolívia, o custo da produçom e transporte de um barril de petróleo é de 7 dólares. Ao ser refinado, é revendido aos bolivianos polo preço de mercado, ou seja, 48 dólares o barril. Os importadores querem óleo cru para o devolverem como matéria plástica. Será tam criminoso assim querer usufruir das próprias riquezas em vez de doá-las e morrer de fame? Nós, que desde sempre fomos colónia de Portugal, de Inglaterra, dos Estados Unidos e hoje das transnacionais, deveríamos compreender a Bolívia mais do que ninguém, principalmente porque somos riquíssimos e podemos dar-nos ao luxo de desperdiçar um terço do que dela importamos. A Bolívia já foi assassinada por Espanha, a grande genocida do século XVI. Finalmente, chegou a hora da virada: um homem da terra, um legítimo inca, tomou o poder e a nossa elite quer transformá-lo num Lula. Há muitos nomes para a farsa, esolham aí: "Bate que eu gosto", "Perdoa-me por me traíres", "Vamos matar o Che outra vez?"

Tristes trópicos: os países ricos ajudam os países ricos e eles ficam mais ricos porque corrompem os ricos dos países pobres. Continua a valer a mortal frase do coronel Yuracy: "O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil". E tome polca!".

 

 

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