Os incêndios galegos: artigo de opiniom de Carlos Taibo

16 de Agosto de 2006

Publicamos a traduçom galega do artigo assinado por Carlos Taibo e publicado no portal La Insignia, com umha reflexom sobre as possíveis causas últimas que se ocultam na vaga de fogos florestais que arrasárom a Galiza durante as últimas semanas.

Os incêndios galegos

Carlos Taibo. La Insignia. Agosto de 2006.

Nom deixa de surpreender que os meios de comunicaçom se resistam a propor explicaçons sobre o que acontece nestes dias na Galiza. A circunspecçom e a prudência imponhem-se em toda a parte perante o que parece ser entendido como umha questom muito delicada que poderia escapar, facilmente, das maos. Fai sentido, no entanto, escarvar no que um escuita quando vítimas e peritos falam fora dos microfones e sem autocensura.

Nesta altura já ninguém pom em dúvida que a maioria dos incêndios galgeos das últimas semanas obedece a razons e pautas diferentes das já conhecidas. Pouco relevo corresponde nestas horas aos alegados interesses da indústria madeireira, os pirómanos ou as condiçons climatéricas que vinhérom a facilitar a expansom dos fogos mas só a custo é que podem ser considerados a causa deles. Embora seja evidente que o desastre ecológico e humano que o progressivo abandono da agricultura e da pecuária tem suposto, e com ele o despregamento de umha predadora eucaliptizaçom, deve ser invocado com firmeza, tampouco parece que, em si mesmo, deite muita luz sobre o que agora mesmo temos entre maos, por muito que traga um cenário vital para o percebermos. Nem sequer serve -parece- a sugestom de nos acharmos perante qualquer género de exacerbaçom de factores de ordem diversa que estariam a operar em simultáneo. A impressom geral -nom falemos de certezas, porque nom há- é que, por trás de muitos incêndios, se acha umha organizaçom planificada que atende metodicamente à satisfaçom de objectivos precisos e que, numha leitura inevitável, obedece, premeditada e inconscientemente, a afiados interesses políticos e económicos.

Quando chega o momento de aquilatar a última intuiçom, os olhares orientam-se para o que, afinal, som duas grandes explicaçons que, isso sim, até podiam ser unidas numha só, umha vez que os interesses que invocam som, infelizmente, compatíveis. A primeira aponta para a já conhecida história de pessoas que, após terem trabalhado na prevençom e a extinçom de incêndios durante anos, teriam visto rescindidos os seus contratos e teriam resolvido assumir, em conseqüência, um duríssimo exercício de protesto. Sem descartarmos de nengumha maneira que isto tenha podido acontecer nalguns cenários, temos de perguntar a nós próprios polas possibilidades que a tal explicaçom correspondem na hora de dar conta de um sem-fim de incêndios registados em lugares muito díspares. Isto último reclama de umha organizaçom coordenadora que se fai bem difícil de imaginar a nom ser que implique, e voltamos a umha sugestom delicada que já adiantamos, a instáncais políticas com interesses conotados e às suas eventuais prolongaçons mafiosas, nomeadamente porquanto algumhas notícias -os incêndios nas proximidades dos aeroportos de Santiago e Vigo; o possível emprego de avionetas incendiárias- sugerem que estaria a recorrer-se a técnicas e instrumentos que transcendem sobejamente as capacidades de trabalhadores despeitados e pirómanos improvisados. Para além disso, as tais pessoas, levariam tam longe o seu desígnio de protesto como para manterem umha férrea pressom sobre umhas autoridades que, com toda a evidência, se vírom desbordadas polo repto criminoso que lhes foi colocado e pola sua aceitaçom de tantas regras do jogo?

Embrenhemos, contodo, na segunda explicaçom, que em primeira instáncia nasce de umha simples consideraçom geográfica: é extremamente chamativo que a maioria esmagadora dos incêndios se tenha registado nas duas províncias galegas mais ocidentais, a Corunha e Ponte Vedra, e nom nas duas mais orientais. Como é o facto de o grosso deles ter adquirido carta de natureza nas redondezas de centros urbanos e localidades de algum peso, no seu caso perto do mar e das vias de comunicaçom. O mapa dos incêndios coincide de lés a lés -digamo-lo claramente- com o mapa dos grandes projectos imobiliários que se argalham na Galiza ocidental.

Há uns meses ouvim dizer que na Galiza era prevista a construçom de nada menos que 600.000 vivendas. Embora o número for seis vezes inferior, é fácil palpar a dimensom do negócio. Nom se esqueça que o Mediterráneo começa a estar saturado de construçons e que o habitat deixa muito a desejar, com o qual, por lógica, construtores e especuladores tenhem de procurar outros horizontes. Eu sei que há quem lembre -temo que com algumha ingenuidade- que a legislaçom em vigor impede construir, se nom estou enganado, durante trinta anos, em terrenos queimados. A réplica torna, porém, fácil e lembra que, para já, as normas restritoras atingem em exclusiva ao solo rústico de protecçom florestal, e nom ao urbanizável, que é o que em muitos casos está a arder; os incêndios embarateceriam as terras correspondentes e induziriam muitos proprietários, reácios a vender, a mudarem de opiniom. Mas para além disto, há ainda quem sugira que, caso se estenda a superfície queimada, este dado, por si próprio, irá tornar-se num interessante elemento de pressom sobre as autoridades para modificarem, sempre em proveito dos interesses imobiliários, o sentido das leis hoje aplicadas. Acrescentemos, em suma, que sobram os motivos para duvidarmos de que estas últimas estejam a ser objecto de minuciosa execuçom.

O leitor avezado bem pode tirar, sem ter que ser guiado na tarefa, as suas conclusons. Cada qual tem direito, no entanto, a exprimir a sua intuiçom, cada vez mais assente, de que, por detrás da catástrofe, humana e ambiental, que se regista nestas horas na Galiza, se acham sórdidos interesses económicos e, como é preceptivo nestes casos, nom menos sórdidas e interessadas conivências políticas. Que cada qual adiante ao respeito os nomes que julgar conveniente.

 

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