Fogos, instituiçons e movimento popular

13 de Agosto de 2006

O web de NÓS-Unidade Popular publicou um artigo de opiniom, também publicado por Vieiros, em torno da crise ambiental que vive a Galiza. Maurício Castro reflecte sobre o papel que corresponde aos movimentos sociais em relaçom às responsabilidades políticas das forças governantes. Reproduzimo-lo como contributo ao debate social existente no seio da esquerda nacional nesse aspecto.

Fogos, instituiçons e movimento popular

Maurício Castro

Seria simplista, perante umha crise ambiental como a que a Galiza padece nestes dias, limitar a nossa análise das causas e responsabilidades às instituiçons e partidos encarregados da gestom do sistema, umha vez que umhas e outros som apenas umha parte da engrenagem que fai funcionar o regime político existente no nosso país.

Nestes dias já tenhem sido apontadas causas económicas, especulativas, interesses de sectores como o da madeira ou a construçom, ou o desmantelamento planificado do sector primário galego a partir da nossa entrada na Uniom Europeia, que forçou um pulo da economia de subsistência para umha modernizaçom mal conduzida que provocou um abandono desordenado e em massa do rural galego por parte de centenas de milhares de pessoas. Economistas e ambientalistas tenhem exposto ao longo destes anos esse processo, que hoje é reconhecido por quase todo o mundo.

No entanto, existem sectores sociais sem umha posiçom clara a respeito das instituiçons que, segundo as regras do jogo do sistema actual, tenhem a máxima responsabilidade na gestom das políticas florestais, urbanísticas e, em geral, relacionadas com o combate aos incêndios. Nas seguintes linhas, tentaremos analisar brevemente qual deve ser a posiçom dos movimentos sociais nesse aspecto concreto da actual luita social contra os incêndios.

A organizaçom ambientalista Greenpeace acaba de lembrar que, tal como no caso das marés negras, no que denomina “crises incendiárias” existe na Galiza umha cadência própria, de 5 ou 6 anos, remontando para o demonstrar até 1989, ano em que ardêrom 205.392 hectares e fôrom detidas 30 pessoas. Já naquela altura, lembra Greenpeace, os media e os políticos responsáveis pola política anti-incêndios começárom a utilizar a etiqueta “terrorismo incendiário”. Nengumha novidade, portanto, o seu uso na actual crise por parte de políticos, meios de comunicaçom e movimento popular.

Seis anos depois, em 1995, ardêrom 46.669 hectares, sendo detidos 53 incendiários. O presidente da Junta na altura, Manuel Fraga, falou de “terroristas políticos e ambientalistas” como causantes dos fogos. O fiscal chefe da Galiza afirmou literalmente que “bandos organizados de incendiários convertêrom a Galiza numha imensa fogueira”.

Já em 2000, as hectares totais queimadas fôrom 45.952. A resposta do Delegado Provincial da Conselharia do Ambiente foi avaliar que os incêndios eram “planificados polo mesmo cérebro”, e a Conselharia apontou, de maneira delirante, para o BNG e a CIG como “beneficiários do fogo”, por “tentarem rendibilizar politicamente as conseqüências que tivo a insistente acçom incendiária”.

Nos últimos anos, e remontamos a 2004, os executivos autonómicos, em maos do PP, reafirmárom a tese do “terrorismo ambiental”, chamando à implicaçom da populaçom galega “na luita contra esta problemática ambiental e económica”. Além do mais, nesse ano, o conselheiro do Ambiente polo PP, Xosé Manuel Barreiro, pedia “a nom utilizaçom dos incêndios florestais no confronto político”.

Entretanto, o líder da oposiçom parlamentar, Emilio Peres Tourinho, apesar do apoio expresso do PSOE às políticas impostas durante anos ao agro galego, considerava “fundamental que o conselheiro do Ambiente, Xosé Manuel Barreiro, admita a relaçom entre o abandono do rural e os incêndios”.

Os dous partidos da oposiçom, PSOE e BNG, apresentavam em 2005 duas proposiçons de lei em que instavam à Junta a “pôr em andamento diversas medidas para luitar contra os incêndios, bem como para dispor mecanismos de participaçom social que fagam frente aos fogos que afectam à Galiza”, segundo consta nas hemerotecas. O PP rejeitou as proposiçons e acusou a oposiçom de só atender a “ánimos partidários”.

O BNG foi mais longe e reclamou ao PP um “plano integral com medidas agro-gadeiras que incidam no abandono do mundo rural”.

À chegada do bipartido ao poder autonómico, o novo conselheiro do Meio Rural polo BNG, Alfredo Soares Canal, afirmou em Outubro de 2005 que “mudar agora a política contra incêndios seria temerário”, avaliando os resultados da aplicada polo PP como “razoavelmente satisfatórios”. Anunciou, portanto, que todo continuaria na mesma, para além de “reformas pontuais”.

E, já nestes dias, é o próprio BNG, através do conselheiro e do senador Francisco Jorquera, quem di que devem evitar-se polémicas, pedindo ao PP que nom critique, “arrime o ombro” e deixe a “politicaria barata”. Também Anxo Quintana, e inclusive o ministro do Interior espanhol, do PSOE, falam de terrorismo ambiental e de “máfias organizadas” cuja composiçom, estrutura e fins nom fôrom postos sobre a mesa por nengum partido, governo ou instituiçom em todos estes anos.

Resumindo:

- Nom há novidade nengumha em falar de “redes organizadas” ou “máfias”. Fijo-o primeiro o PP e fam-no agora os membros do governo bipartido, mas num caso e no outro evita-se assinalar essas máfias polo nome e sobretodo persegui-las. A novidade estaria em revelar que máfias som essas e, principalmente, em persegui-las de maneira efectiva.

- É também habitual que o partido ou partidos governantes pidam que se “despolitize” a questom, para que todos “arrimemos o ombro”, enquanto a oposiçom se limita a críticas retóricas que só procuram o desgaste eleitoral, que permita a alternáncia nos governos, mas nom nas políticas de fundo que aplicam, todas cativas do omnipresente neoliberalismo capitalista.

- Com só trocarmos as siglas e nomes de cada partido em funçom da sua posiçom como governo ou oposiçom, veremos que os discursos ao longo dos anos som totalmente homologáveis. Há que reconhecer que umha revisom da hemeroteca serve nom só para relativizar as palavras “firmes e categóricas” dos políticos, mas também para comprovar como a sua aparência categórica e firme acaba diluída à mesma velocidade com que deixa de ser actualidade, sem que as políticas florestal, urbanística e anti-incêndios sejam tocadas por uns nem por outros.

- Se algo fica claro neste assunto tam complexo e emaranhado, é a co-responsabilidade política das três forças maioritárias instaladas nas instituiçons da Galiza. É certo que é maior a responsabilidade de quem governou por mais tempo e em mais instituiçons (o Partido Popular), mas nengumha merece ser poupada da crítica. É necessário que exijamos de maneira particular ao governo actual umha verdadeira transformaçom das políticas que afectam ao monte galego.

- Os movimentos sociais devem, por princípio, manter umha saudável distáncia das instituiçons, que em momentos de crise tentam encarreirar a raiva popular para a integraçom na filosofia do falso consenso e a desactivaçom do descontentamento. Desobedecer o apelo governativo à “despolitizaçom” dos conflitos é a primeira necessidade para evitar essa instrumentalizaçom. Esperemos que essa máxima seja assumida também pola agora ressuscitada Plataforma Nunca Mais.

- No caso desta crise incendiária, há que exigir ao actual governo que rompa com a continuidade das políticas ambientais, florestais e urbanísticas impostas polo PP durante anos, algo que por enquanto nom fijo. Só a partir daí é que um movimento popular vivo, independente e progressista poderá apoiar as políticas concretas de qualquer governo, incluído o que hoje formam o PSOE e o BNG à frente da Junta da Galiza. O resto é manter as práticas clientelares, submissas e antidemocráticas que o PP sempre alimentou, com tanto êxito, no seio da sociedade galega.

Ferrol, Terra de Trasancos, 13 de Agosto de 2006

 

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