Hezbollah, Irám e os petroeuros

13 de Agosto de 2006

Apresentamos a traduçom galega de um recomendável artigo da historiadora basca Alizia Stürtze, publicado hoje mesmo em Gara, em que desvenda a lógica material que subjaz na ofensiva imperialista contra o Oriente Médio. De leitura imprescindível para ir mais além das mentiras e deformaçons dos media do sistema.

Hezbollah, Irám e os petroeuros

Alizia Stürtze


Enquanto da "esquerda adormecida" ocidental assistimos no sofá ao genocídio palestiniano e à brutal e indiscriminada invasom de um país soberano como o Líbano por parte de Israel… enquanto os meios de comunicaçom, fervorosos defensores do sionismo e do imperialismo, continuam a apresentar Israel como vítima principal, culpabilizando dos horrores da "nova guerra" os "terroristas" de Hezbollah e Hamas, e demonstrando, mais umha vez, que milhares de vidas árabes inocentes valem infinitamente menos do que um mercenário sionista ou um marine ianque violador e assassino… enquanto Washington acusa a Síria e, sobretodo, o Irám de estar por trás dessa captura de dous soldados israelitas que, supostamente, está na origem da destruiçom sistemática do Líbano e de um gravíssimo aprofundamento da desestabilizaçom no Oriente Médio, de conseqüências imprevisíveis… enquanto o fundamentalista "cristao renascido" Bush (alcoólico arrependido) ameaça com parecidos "paraísos" qualquer país que nom se submeter aos seus "democráticos desígnios"… enquanto nos narcotizam a consciência e o coraçom, repetindo-nos que milhares de crianças, mulheres e anciaos destroçados polas bombas som qualquer género de tributo a pagar em defesa da "civilizaçom" e contra o fundamentalismo terrorista… enquanto isso, após essa sangrenta e aparentemente inextricável cortina, o imperialismo/sionismo fai-nos esquecer, entre outras cousas, que a economia determina em última instáncia o fundamental da sua geoestratégia e que poderíamos estar numha fase de umha guerra económica de longo alcance que bem poderia desencadear umha terceira guerra mundial.

Nom fai falta ser adivinha. Basta com interpretar entre linhas o que dim e escrevem para perceber que, nestes momentos, no Oriente Médio, o Irám é o seu principal alvo, mas nom porque o seu presidente seja um novo Hitler que ajuda os "terroristas" de Hezbollah; nem tampouco só por querer desenvolver um programa nuclear que poderia ameaçar a hegemonia militar israelita na zona. A agressividade ianque contra o Irám obedece em grande parte ao facto de que, indo mais longe do que a "ofensa" de Sadam Husein em 2000, de converter as suas reservas e começar a cobrar o petróleo em euros (que, para certos analistas, foi a principal causa da invasom do Iraque), Teerám pretendia ter já em andamento a sua própria bolsa de petróleo, a Iraniana Oil Bourse (IOB), o que teria umhas forte implicaçons macroeconómicas, suporia o estabelecimento de um sistema de petroeuros para o comércio do crude e a perda do monopólio do dólar como divisa no mercado internacional do petróleo: petroeuros contra petrodólares.

EUA é, com diferença, o país mais endividado do mundo e pode dar-se a esse luxo precisamente porque, desde a sua situaçom dominante, leva anos a imprimir montes de petrodólares que os diferentes estados necessitam para comprar crude e energia aos países produtores. Deste modo, graças ao papel que fabrica sem sustento nengum, EUA possui o petróleo do mundo grátis, controla o seu fluxo e, além disso, maneja a economia internacional: em fins dos 90, mais das quatro quintas partes das transacçons em moeda estrangeira e metade de todas as exportaçons mundiais fôrom feitas em dólares. Hoje em dia, 70% das reservas internacionais som guardadas nessa moeda. Mas, o que aconteceria se a OPEP negociasse o petróleo em euros e grandes estados como o Japom, a China ou a Rússia vendessem as reservas de dólares dos seus bancos centrais e as substituíssem por euros? O que suporia que a Uniom Europeia passasse a pagar na sua própria moeda, o petroeuro começasse a desafiar seriamente o petrodólar e o euro se fosse convertendo em moeda estándar para o mundo?

Consciente da importáncia da imagem até em temas tam obviamente materiais como a moeda, a revista "Time", no seu número de 31 de Julho, "mostra-nos a patinha" e inicia umha campanha de "emporcamento" do euro, relacionando-o com o crime organizado e "demonstrando" que é a divisa ideal para os delinqüentes do planeta, incluídos, é claro, Oriente Médio e os países do Golfo. No entanto, o articulista nom pode ocultar o óbvio: o euro é já a segunda divisa do mundo; pola primeira vez, ultrapassou o peso internacional do dólar fora das fronteiras ianques; e som já numerosos os analistas que julgam esta perda de supremacia do dolar como gravíssima para a economia e o domínio imperial estado-unidenses. Daí que seja um suposto que Washington nom pode permitir que aconteça, e contra o qual dispom já de toda umha bateria de estratégias. A primeira foi destruir o Iraque mediante o alguns chamam "a guerra do petrodólar". Agora, nesta "segunda guerra do petrodólar", estám centrados, entre outras cousas, em impedir que o Irám desenvolva a sua bolsa de petróleo, que conta já com importantes apoios, como o da Venezuela ou da Rússia. Para tal, está a exercer todo o tipo de pressons internacionais, tentando que o Conselho de Segurança imponha sançons a Teerám polo conto do seu suposto programa de armas nucleares, preparando o terreno para um possível golpe de estado que derroque o regime actual; e, com certeza, favorecendo a divisom entre sunitas e xiítas, e apoiando Israel na sua criminosa invasom do Líbano para, de passagem, enfraquecer o Irám (e a Síria).

O povo árabe acha-se no olho do furacám, enfrentando o sanguinário imperialismo gringo que nom duvida em matar e destruir com tal de continuar a dominar o mundo com a supremacia do seu dólar. Nós, da esquerda ocidental, teremos de fazer qualquer cousa para conseguir que o século XXI seja o do fim da hegemonia estado-unidense. Essa qualquer cousa inclui, entre outros elementos, tentar compreender o que é que acontece e porquê, embora para tal tenhamos que enfrentar temas áridos como este da pugna entre petrodólares e petroeuros e o perigo que para os EUA suporia que os petroeuros saíssem vencedores da mesma. As guerras nom só acontecem no campo de batalha.

 

 

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