Galiza
um ano depois de deslocar a Fraga

22 de Agosto de 2006
·Carlos Morais é Secretário Geral de
Primeira Linha
Umha boa
parte do movimento popular que tinha apostado cega e abertamente na unilateral
e limitada carta do eleitoralismo para deslocar o PP do governo autonómico
em Junho de 2005, na actualidade ou bem se acha satisfeitamente supeditado
à logica institucional das forças políticas que conformam o bipartido,
-numha deriva de cooptaçom semelhante à que protagonizárom a escala estatal
forças sociais críticas após a vitória do PSOE em 1982-, ou bem está desorientado,
perplexo, decepcionado e desmotivado polo curso dos acontecimentos. Obviamente
ambas as atitudes antagónicas som negativas para contribuir a articular
no nosso País massa crítica questionadora da ordem social vigente.
Para compreendermos
algumhas chaves cognoscitivas e comportamentos dos movimentos sociais nom
podemos desconsiderar o peso das grandes expectativas que amplos sectores
operários, juvenis, e em geral de boa parte d@s activistas sociais mais activos do País, depositaram
nas inevitáveis mudanças que se viriam a produzir na Galiza emanada
da nova maioria aritmética parlamentar progressista na Junta.
Porém,
mais dum ano depois deste “idílico cenário” que atrapou centenares de honest@s luitadores/as que se deixaram seduzir irracionalmente
pola satisfacçom de superar 16 anos de fraguismo, a realidade foi
dando razom à firme posiçom que a esquerda independentista representada
por NÓS-Unidade Popular veu defendendo desde que Tourinho e Quintana ocuparam
os seus gabinetes. Além de mecanicismos e superstiçons a realidade deixou
claro que o continuismo define com precisom a acçom de governo que caracteriza
os 13 meses de governo progressista na Comunidade Autónoma Galega.
Um cenário
continuista
As forças
revolucionárias nunca depositamos a mais mínima confiança num cenário institucional
que, configurado pola sucursal autonómica do PSOE em aliança com o BNG,
manteria na sua essência as políticas socio-económicas praticadas anteriormente
pola direita espanhola, perpetuando simultánea e dialecticamente os mecanismos
da dependência nacional que padece a Galiza polo capitalismo espanhol.
Nom podia
ser de outro jeito. A natureza de ambas as forças políticas e os interesses
de classe que representam nom poderiam gerar umha situaçom qualitativamente
diferente à que hoje padecemos.
O PSOE
representa basicamente os interesses da fracçom liberal urbana da burguesia
espanhola, e na Galiza sempre foi um partido caracterizado pola submissom
aos ditados da cúpula de Ferraz. Umha seja, um partido espanholista e neoliberal
com grandes dificuldades para adoptar o epidérmico verniz galeguista que
define amplos contingentes do PP.
O BNG acede
à Junta numha conjuntura caracterizada basicamente por dous factores: a
plena supeditaçom à lógica da II Restauraçom bourbónica e em plena
crise interna provocada polo descabeçamento na sua liderança e pola resistência
dos sectores de “esquerda” a sua definitiva claudicaçom. O actual BNG é
a dia de hoje umha força regionalista instalada em parámetros de centro-direita
nos eixos medulares de boa parte da sua pratica política. A sua direcçom
carece de escrúpulos, princípios, e sem grandes complexos renunciou aos
objectivos estratégicos que dérom lugar à sua criaçom em 1982: soberania
nacional e justiça social.
O PP ainda
está adaptando-se à nova situaçom derivada da perda do poder autonómico
e posterior mudança de liderança após a volta de Fraga para Madrid. Ambas
as tarefas nom som fáceis e necessita tempo e grandes doses de realismo
para poder digerir a derrota após três lustros consecutivos de poder absoluto.
De facto, metade do período do novo governo autonómico estivo literalmente
fora de jogo centrado na sucessom de velho fascista e parte das suas
fracçons de apoio pola renovada imagem e estilo representado por Alberto
N. Feijó.
As três
forças políticas com representaçom institucional mantenhem um respeito absoluto
polo quadro jurídico-político aspirando exclusivamente a reproduzir o turnismo
característico da democracia burguesa exercitando umha acçom de governo
e de oposiçom acorde com as necessidades impostas polos poderes fácticos.
A fraude
estatutária
Neste período
as forças institucionais estiveram centradas no debate da reforma do Estatuto
de Autonomia vigorante exclusivamente na Comunidade Autónoma Galega desde
1981, pois nom podemos desconsiderar que umha boa parte do território nacional
(17.2%), que engloba 6.4% da sua populaçom, se acha sob administraçom asturiana
e castelhano-leonesa, e portanto sem capacidade jurídica para participar
e incidir no presente e futuro da Galiza.
Reformar
o actual Estatuto é a prioridade do governo bipartito. Mas para realizar
qualquer modificaçom necessita ineludivelmente do apoio do PP. Sem o apoio
de 2/3 partes d@s deputad@s do parlamentinho nom é possível realizar
a mais mínima mudança. Isto de partida impossibilita e condiciona avançar
no auto-governo aplicando a lógica reformista. Sem o PP nom se pode modificar
nem umha só vírgula do actual Estatuto. Mas a estas limitaçons insalváveis
devemos acrescentar a carência de vontade política para mudar a relaçom
da Galiza com Espanha e exercitar o direito de autodeterminaçom. Estes objectivos
nom estám presentes na agenda de nengumha de três forças que tam só estám
negociando vinte e cinco anos mais de estabilidade e enquadramento da Galiza
na Espanha. Descartando de partida um processo de reforma que permita decidir
ao conjunto do povo galego o seu futuro, as elites políticas e económicas
tam só pretendem aperfeiçoar a dependência galega introduzindo ligeiras
modificaçons que possibilitem melhorar a sua capacidade política de gestom
dos recursos económicos mediante o alargamento da capacidade fiscal, e aspirar
a poder contar com representaçom na UE. O que a dia de hoje estám negociando
PP, PSOE e BNG é umha fraude que nega a soberania da Galiza e o povo galego
como sujeito de decisom. O projecto nacional espanhol vai sair reforçado
deste processo e a Galiza ainda mais enfraquecida.
Assim os
possíveis acordos derivados do processo tal como está concebido, a diferença
do catalám, vam contar com o pleno apoio das Cortes espanholas, mas também
com a indiferença generalizada do conjunto do povo trabalhador que o considera
um exercício estéril que nom vai melhorar as suas condiçons de vida.
O debate
terminológico sobre a definiçom nacional da Galiza que o regionalismo demagogicamente
emprega é artificial e carece do mais mínimo interesse pois nom passa de
umha anedota colateral útil para alimentar e tensionar as bases sociais
do BNG e PP, confundir os sectores mais atrasados das massas, mas que basicamente
serve para ocultar o cerne de um pacto cujas consequências som renunciar
a construir a naçom galega.
A revoluçom
tranquila
O vice-presidente
da Junta da Galiza, o regionalista Anjo Quintana, tem empregado esta engenhosa
formulaçom, expressom de umha inerente e irresolúvel contradiçom, para definir
a sua acçom de governo. Mas entre Junho de 2005 e 2006 na Galiza nom houvo
mais revoluçom que o obsceno incremento salarial d@s deputad@s e a susbtituiçom de centos de assesores e pessoal
de confiança na administraçom autonómica vinculada ao PP por gente do binómio
PSOE-BNG.
A tranquila
revoluçom significou mais um ano perdido para construir a naçom galega
da esquerda. A retórica dos dirigentes autonómicos reconhece implicita e
explicitamente que nom se adoptou nem umha só medida de caracter estratégico
para modificar o papel atribuído à Galiza polo Estado espanhol. A Junta
nom aplicou nem a mais tímida medida para superar o empobrecimento paulatino
da Galiza no contexto estatal, nem para paliar a realidade diária da sua
classe trabalhadora que continua a padecer as taxas de desemprego, baixos
salários, precariedade e sinistralidade laboral, emigraçom, pobreza e exclusom
social, mais elevadas do Estado espanhol e da metade ocidental da Uniom
Europeia. Também nom se adoptaram as medidas de choque para evitar a uniformizaçom
cultural e linguística que o imperialismo espanhol pretende implementar.
As condiçons de vida da classe trabalhadora neste ano nom melhoraram, como
também nom o fijo a dramática situaçom da nossa língua e cultura nacional
ameaçada pola imposiçom do espanhol. Nom podia ser de outra maneira pois
um dos principais agentes espanholizadores é o sócio hegemónico do governo
autonómico.
A crise
nacional que a Galiza está a atravessar por mor da vaga incendiária que
arrasou numha semana perto de 100 mil hectares de monte, -basicamente na
faixa sul-atlântica, à beira das grandes vias de comunicaçom e nas proximidades
das grandes cidades-, exprime sem adoçantes as nefastas consequências da
política continuista que conduz inexoravelmente o País e as suas maiorias
sociais face ao abismo. As causas estruturais dos incêndios, -traumática
destruiçom do sector primário, imposiçom de um modelo florestal ao exclusivo
serviço da indústria papeleira e madeireira, caótico “ordenamento” territorial
e urbanístico- e as imediatas e conjunturais ao perpetuar a mesma política
do PP na prevençom e extinçom desta praga, som um perfeito espelho do que
significa para a Galiza continuar a confiar nas forças tradicionais do regime
e naquelas que se adaptaram às regras impostas por Madrid.
A sossegada
urgência de articular a resistência
Embora,
tal como já manifestamos, a esquerda independentista nunca depositasse expectativas
no governo bipartido a inícios de Outubro do ano passado NÓS-UP apresentou
ao governo autonómico umha completa “Tabela reivindicativa de mínimos”,
configurada por 444 medidas concretas para umha política nacional e de
esquerdas, dos mais variadas
âmbitos: saúde, ensino, habitaçom, cultura, desporto, transporte, ambiente,
mulher, juventude, etc, das quais 90% som aplicáveis no actual quadro neoliberal
de dependência nacional, a resposta das novas autoridades foi o silêncio.
Porém,
nom realizaríamos umha análise rigorosa evitando abordar a situaçom do movimento
popular, basicamente das suas expressons mais combativas. Na actualidade
Galiza carece de umha força sócio-política com apoio de massas que represente
os interesses da classe trabalhadora e das camadas populares. A esquerda
independentista ainda nom atingiu o apoio e desenvolvimento necessário para
deixar de ser umha força marginal e converter-se num movimento minoritário.
Essa carência
de referencialidade provoca que a imensa maioria das luitas de massas ou
bem acabem em derrotas imediatas ao estarem dirigidas polas diversas variantes
do reformismo, serem expressom da espontaneidade, ou bem por nom contarem
com umha direcçom operária, provocando deste jeito a extensom da frustraçom
colectiva e as ideias individualistas e derrotistas promocionadas polo abafante
aparelho ideológico da burguesia, mas também a que se enquistem visons localistas
e sectoriais das necessárias reivindicaçons concretas perdendo a imprescindível
visom global e integradora que confere o movimento de libertaçom nacional
e social de género.
A maciça
e combativa greve protagonizada polo proletariado metalúrgico do sul do
País a inícios de Maio deste ano exprime a grave situaçom das condiçons
de vida das massas trabalhadoras, mas também a urgente necessidade de dotar-se
de umha organizaçom operária que defenda insubornavelmente os seus legítimos
interesses.
A esquerda
independentista articulada à volta de NÓS-UP em geral, e @s comunistas em particular, consideramos que a dia
de hoje é imprescindível traçar sem ambiguidades umha linha de demarcaçom
clara entre o espaço socialista e
soberanista que da pluralidade há que continuar a edificar e o autonomismo.
Esta premissa é um princípio indiscutível sem o qual nom existe a mais mínima
possibilidade de avançar na acumulaçom de forças antissistémicas sobre um
programa autodeterminista e de esquerda.
Os avanços
e retrocessos que se tenhem produzido nos últimos anos tenhem servido para
acumularmos experiência mediante o ensaio de vias que a realidade constatou
inviáveis polas peculiares características da composiçom e trajectória dos
sujeitos transformadores existentes na formaçom social galega.
Por isso
hoje e agora os reptos e tarefas som levantar um amplo e plural espaço no
qual o conjunto das forças e sectores da esquerda autodeterminista podamos
confluir sobre reivindicaçons concretas para dotarmos a meio prazo a classe
trabalhadora, a juventude e as mulheres dessa ferramenta de autodefesa imprescindível
para fazer frente às agressons do capitalismo neoliberal e do imperialismo
espanhol. Aí sem exclusons devemos estar todos aqueles sujeitos que confiamos
na imensa força da unidade operária e popular.
Galiza,
18 de Agosto de 2006