A Galiza irredenta também existe

A chamada "Carta Geométrica da Galiza", publicada em 1845, é um dos precedentes da proposta territorial para a Galiza apresentada por NÓS-UP em 2003

21 de Outubro de 2006

No debate em curso sobre a territorialidade da naçom galega, a esquerda independentista está a fazer frente a tanto sensacionalismo e espanholismo mediáticos com posiçons claras e bem formadas. Com o intuito de apresentar umha proposta séria e fiel nom apenas à tradiçom do nosso movimento de libertaçom nacional, mas à construçom nacional e ao socialismo na Galiza do século XXI.

Um bom exemplo é o artigo publicado ontem polo jornal Galicia Hoxe e o portal Vieiros, entre outros sítios da Internet e impressos. Da autoria de Igor Lugris, membro da Direcçom Nacional de NÓS-UP e da sua Assembleia Comarcal do Berzo, além de activista pola normalizaçom lingüística e cultural nessa comarca, recomendamos a sua leitura, como antídoto a tanta desinformaçom sobre a realidade da Galiza da margem leste das fronteiras autonómicas.

A Galiza irredenta também existe!

A defesa da galeguidade das terras situadas além dos limites geográficos que o Estado espanhol marcou para a Galiza, quando menos desde 1833 (ano da divisom administrativa provincial de Javier de Burgos, ainda em vigor, que supujo a partiçom quadriprovincial da Galiza, e a perda de territórios na faixa oriental da nossa naçom), é umha constante para o nacionalismo e o independentismo galego. Desde a Sociedade Nacionalista Pondal na Argentina e o conjunto dos arredistas galegos do exílio e a emigraçom, até a Geraçom NÓS, o Partido Galeguista, e o nacionalismo que se recompom depois do levantamento fascista de 1936, todas as correntes, passadas e presentes do nacionalismo e o independentismo, reivindicam, com maior ou menor ênfase, com mais ou menos força, a galeguidade das terras que hoje ficam fora da Comunidade Autónoma Galega, sob administraçom asturiana ou castelhano-leonesa. NÓS-Unidade Popular fai parte dessa tradiçom, recolhe-a, actualiza-a e tenta, sendo conseqüente e na medida das suas possibilidades, realizar um trabalho político que ponha na ordem do dia política a questom da territorialidade.

Que um periódico de Samora crie, artificialmente, umha polémica a partir do “descubrimento” (tardio) do mapa da nossa Naçom elaborado por NÓS-UP, e desconheça os factos que venho de relatar, nom causa surpresa. Ao fim e ao cabo, o desconhecimento da História das Naçons que ainda hoje o Estado espanhol mantém abaixo da sua bota é o alicerce fundamental sobre o qual é construída a “História de Espanha”. Causa surpresa é que meios de comunicaçom galegos recolham essa notícia, alimentem a polémica e dediquem páginas e minutos a partir de um profundo desconhecimento da História da Galiza.

Profundo desconhecimento que ignora, consciente ou inconscientemente, que ainda en 1821 existia umha proposta formal de incorporaçom definitiva do Berzo à Galiza; que a Carta Geográfica de Domigos Fontám, de 1834, inclui dentro da Galiza a faixa oriental galegófona dos territórios do Eu-Návia, Íbias, o Berzo, a Cabreira, e a Seabra; que o primeiro livro do Rexurdimento literário da Galiza, “Ensayos poéticos”, foi escrito e publicado no Berzo, por António Fernández y Morales, lá por 1861, em que o autor recolhe a problemática da identidade lingüístico-cultural, mas também político-administrativa do Berzo; que o Anteprojecto de Estatuto de Autonomia elaborado polo Seminário de Estudos Galegos em 1931, assim como o Projecto de Estatuto que se aprova na Assembleia de Concelhos galegos decorrida em 1932 em Compostela, assim como o Estatuto definitivamente aprovado polo povo galego em 1936, recolhiam que se poderiam “agregar à Galiza qualquer território limitrofe de características históricas, culturais, económicas e geográficas análogas, mediante os requisitos que as leis gerais estabelerecerem”.

Ainda mais grave é desconhecer que o Projecto de Estatuto elaborado em Abril de 1978, conhecido como o Estatuto dos 16, e no Projecto elaborado pola Assembleia de Parlamentares Galegos enviado às Cortes Espanholas, se incluía umha mençom exactamente igual à de 1936, que foi suprimida na Comissom Constitucional do Parlamento espanhol que aprovou a redacçom definitva do Estatuto de 1981 (parece ser que nesse sentido fôrom determinantes as pressons de diversos parlamentares leoneses, entre eles, especialmente, Rodolfo Martín Villa, conhecedor da galeguidade das terras do Berzo, e da evidente possibilidade de que vários concelhos da faixa oriental se acolhessem a esse preceito para pedirem a sua incorporaçom à Galiza). Ainda mais recentemente, poderíamos citar o caso de diversos concelhos e aldeias situadas fora dos limites da CAG, que ao longo dos últimos 30 anos tenhem declarado a sua intençom de solicitar a integraçom na Galiza (Enzinhedo, Truchas, a Ponte e Benuza em 1991, Oência em 1992, a Veiga de Valcarce em 2001, etc…) Para nom continuarmos a citar exemplos, concluamos por nomear o artigo assinado por 33 pessoas do Berzo, “Tira por ela Galiza mas Castela nom a solta”, feito público em diversos meios de comunicaçom, tanto galegos como leoneses, em Outubro de 2005, e que defendia a legitimidade e justiça da opçom de reintegrar o Berzo na Galiza se umha maioria da populaçom assim o desejar; ou a existência de umha pequena força política no território do Návia-Eu, Alternativa Popular Eu-Naviega, que aposta polo estreitamento de relaçons entre esse território e a CAG a todos os níveis.

Em definitivo, este debate é umha constante ao longo da nossa história, da História da Naçom galega. Diversos traços definitórios, lingüísticos e culturais, mas também históricos, geográficos, económicos, sociológicos… fam com que os territórios do Eu-Návia, o Vale do Íbias, o Berzo, a Cabreira e a Seabra fagam parte dessa difusa Galiza irredenta que muitas pessoas, no aquém e além Eu e Zebreiro, queremos que faga parte, com todos os direitos, da Galiza. Essa é a nossa proposta. Convencermos a maioria dos e das nossas compatriotas, o nosso compromisso.

 

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