Movimentos sociais e autonomia, esquerda, complexos e intransigência

24 de Agosto de 2006

Os acontecimentos vividos nas últimas semanas em torno da crise incendiária e as respostas sociais, com destaque para a mobilizaçom do dia 20 de Agosto, dam pé a este artigo em que o secretário-geral do nosso partido, Carlos Morais, analisa em profundidade o estado da esquerda nacional numha Galiza governada pola suposta alternativa ao fraguismo.

 

Movimentos sociais e autonomia, esquerda, complexos e intransigência

Carlos Morais (secretário-geral de Primeira Linha e membro da Permanente Nacional de NÓS-UP)

As atitudes e comportamentos mantidos por boa parte do conjunto dos sujeitos políticos e sociais galegos perante a dialéctica gerada pola vaga incendiária e a actuaçom do governo autonómico na crise, exprimem um preocupante cenário que nom podemos deixar de abordar polo grau de polémica atingido e polas futuras conseqüências à hora de levantar na Galiza umha esquerda soberanista com projecçom de massas.

Umha boa parte das forças sociais e políticas, e da rede de activistas implicad@s no desenvolvimento do ciclo das grandes luitas populares determinantes à hora de derrotar o PP, -aberto com as greves gerais de Junho de 2001 e 2002, posteriormente na oposiçom à LOU, na denúncia da maré negra do Prestige, da guerra imperialista no Iraque, da manipulaçom informativa e tentativa de golpe de estado mediático em Março de 2004-, que num sentido laxo podemos enquadrar no campo "antissistémico", mantenhem frente ao governo bipartido umha tripla posiçom que a grandes traços podemos resumir em:

-umha vergonhosa submissom e absoluto acriticismo, de portas para fora, face à gestom neoliberal e regionalista da Junta.

-silêncios cúmplices, justificaçons incompreensíveis, confusionismos e ambigüidades calculadas, que na prática significam avalizar ou dar oxigénio a um governo que nom representa os interesses objectivos do povo trabalhador galego.

-ficar literalmente mudas optando polo autismo e o niilismo.

A chegada ao poder do binómio PSOE-BNG, após 16 ignominiosos anos de autoritarismo fraguista, gerou grandes expectativas em amplos sectores populares que apostárom decidida e activamente na alternáncia. A ingenuidade e a alegria por ter sido superada umha etapa tam obscura dificultava e mesmo impedia analisar racionalmente a carência de vontade política dessas forças para introduzirem as mundanças desejadas. Só a fé e a superstiçom no carácter transformador e progressita do bipartido justificava aquele entusiasmo, actualmente reconvertido em perplexidade e contida decepçom.

Porém, umha parte daqueles referentes e activistas, basicamente os ligados ao mundo da cultura e do espectáculo mais implicados na campanha que contribuiu para desmascarar as práticas caciquistas e o perfil neofascista do PP, tenhem sido "premiados" polas novas autoridades polos seus serviços à pátria. Aí radica boa parte do silêncio ensurdecedor perante a gestom continuísta de Tourinho-Quintana na prática totalidade da política da actual Junta. Basta com ligar uns minutos os patéticos programas de humor e variedades da TVG para entender o que dizemos. Em muitos dos quais se atinge tal nível de paroxismo que qualquer pessoa despistada poderia chegar à conclusom de que é Fraga Iribarne quem segue ocupando o Paço de Rajói.

Chega com ler os articulistas oficiais para constatar a domesticaçom feita a golpe de talonário ou promessas de atingir um cargo de livre designaçom na mastodôntica administraçom que, em vez de ser reduzida, tal como prometérom, superou quantitativamente a etapa do PP.

Este sector, -unido às entidades e organizaçons sociais vinculadas organicamente com o autonomismo-, tenhem-se caracterizado nesta crise nacional por pretender criar umha Galiza virtual, evitando que as organizaçons populares intervinhessem aplicando duas premissas essenciais a qualquer movimento social transformador e portanto crítico com a realidade: questionar a acçom do governo, mantendo umha saudável distáncia perante as instituiçons, e evitar maquilhar a realidade, nom ocultando a verdade.

Lamentavelmente, comprovamos como a maioria das organizaçons de massas nacionalistas nom as aplicárom, optando por manterem esperpênticas atitudes que oscilavam entre evitar, mediante um trabalho próprio da renda de Camarinhas, criticar a Junta, cujo paradigma é o comunicado da CIG sobre os incêndios, até os mais entreguistas discursos justificando o indizível, como pudemos escuitar dos dirigentes da ADEGA, que semelha mais umha prolongaçom da Conselharia do Meio Rural, que a organizaçom decana do ecologismo galego. As elevadas quantias que, mediante subsídios da administraçom, alimentam o seu "staff", som umha boa pista para entendermos porque aqui e agora nom se aplica a "lei universal" pola qual um governo, independentemente de quem o ocupe, é responsável por todo o que sucede no seu ámbito directo de actuaçom. Em lugar disso, optou-se por por umha injustificável exculpaçom, por regressar ao cenário de 2003, em que o responsável directo e único era o PP.

Mas, além disto, as declaraçons de Jorquera, de Soares Canal, de Tourinho e de outros altos cargos e responsáveis das forças que conformam o governo, nom deixam lugar à mais mínima dúvida e interpretaçom: o bipartido mantivo a mesma política de prevençom e combate aos incêndios do PP, o governo autonómico nom tivo a coragem política de sentar as bases para mudar a política urbanística, agrária e florestal aplicada na Galiza nas últimas quatro décadas.

Frente a todo isto, optou-se por fechar os olhos, por tapar as orelhas e implementar as estratégias de corrupçom dos movimentos populares que o PSOE tam bem executou após 1982, mediante a cooptaçom de dirigentes e destacados activistas dos movimentos sociais.

Porém, ainda mais preocupante e grave do que a atitude das entidades vinculadas directamente com o BNG, parece-nos a que mantém boa parte das organizaçons que se situam no campo "radical", tanto as independentistas, como as outras situadas na esquerda autodeterminista.

 

A manifestaçom de Nunca Mais

A mobilizaçom que, sob a chancela de Nunca Mais, percorreu as ruas de Compostela no passado domingo 20 de Agosto foi um autêntico laboratório social destas intensas contradiçons, da efervenscência e tensom carácterísticas dumha etapa de transiçom em que o velho nom acaba de morrer e o novo nom dá nascido, em que se aplicárom em carne viva boa parte destas atitudes.

Em primeiro lugar, nom devemos desconsiderar a instrumentalizaçom que da congelada e burocratizada plataforma Nunca Mais realizam aquelas pessoas e forças que ilegitimamente se consideram proprietárias dum movimento popular que é parte do povo galego. Nom se convocou as centenas de entidades aderidas para debater que fazer perante a crise incendiária, optando-se por decidir, seguindo o mais puro verticalismo estalinista, convocar umha manifestaçom, suplantando deste jeito o seu inicial carácter assemblear e democrático. As pessoas que seguravam a faixa de Nunca Mais som expoente do que afirmamos.

A manifestaçom foi convocada com base numha série de reivindicaçons que evitavam reclamaçons directas e claras aos inquilinos do actual governo autonómico. Galiza (Todos) contra o lume como aquele anúncio televisivo do governo espanhol. E Paremos o terrorismo incendiário foi a fórmula mágica que buscava umha resposta maciça como vávula de escape do mal-estar social e simultaneamente evitasse a mais mínima crítica à actual Junta. Tam absurdo, delirante, e surrealista como obsceno e fraudulento.

O BNG, perante o protagonismo e referencialidade atingida polo PSOE mediante a oportunista e vácua visita de Zapatero, e a discreta intervençom dos seus responsáveis políticos, optou pola arriscada opçom de ocupar a rua sem concretizar as causas e os responsáveis pola agressom ambiental e económica que calcinou numha semana perto de 100 mil hectares. Abstractas tramas incendiárias, difusos bandos mercenários, estariam por detrás dos incêndios, alimentando a tese dumha conspiraçom ao serviço do PP, evitando assim definir com clareza quais som as causas estruturais e conjunturais do que, ano após ano, provoca que os montes do nosso país se convertam em cinza. As grandes empresas do complexo industrial madeireiro, as imobiliárias e empresas de construçom, as eólicas, cujos nomes e sedes sociais som bem conhecidas, ficam novamente isentas de responsabilidades. No fim de contas, som elas que contribuem para pagar campanhas eleitorais e para dar salários extra aos profissionais da política.

De passagem, aproveita-se a conjuntura para impulsionar a via policial, reclamar a criaçom da polícia autonómica e legitimar o papel do exército espanhol.

No entanto, a manifestaçom, concebida como um acto de adesom inquebrantável e incondicional à Junta, semelhante a aquelas míticas ceias do PP a Romai Beccaria ou os multitudinários jantares a dom Manuel, nom atingiu o que os seus promotores buscavam: converter o imenso Obradoiro na versom galaica da praça de Oriente.

Tendo em conta a complexa e contraditóra motivaçom da convocatória, a mobilizaçom em pleno Agosto foi considerável. Mas nem fôrom 40 mil as pessoas que entrárom na realista opçom final da Quintá, nem umha destacável parte das que assistimos comungavamos com as rodas de moinho das palavras de ordem oficiais. O balanço foi literalmente um fracasso que o regionalismo tentou capitalizar mediante umha burda manipulaçom e instrumentalizaçom. A guerra de números sobre a participaçom e as tentativas constantes para evitar as justas e correctas críticas ao bipartido encabeçadas pola esquerda independentista conformada por NÓS-UP e BRIGA exprimem o nervosismo de quem está consciente da delicada situaçom em que se acha.

Os sucessos na Quintá, onde os mais variados estômagos agradecidos e famílias -(cargos públicos do BNG, burocratas e funcionários das organizaçons de massas autonomistas bem remunerados, e mesmo responsáveis políticos da actual Junta que nesta ocasiom mudárom os fatos de El Corte Inglês pola camisola reivindicativa)- protagonizárom um novo episódio de intolerância, ao pretenderem sufocar a legítima e necessária dissidência de parte do movimento popular, -semelhante à também falhida tentativa em impedir que o cortejo da esquerda independentista entrasse na praça ponte-vedresa onde finalizava no passado ano a manifestaçom contra Ence-, fôrom mais umha amostra da sua falta de respeito e consideraçom pola liberdade de expressom. Nesta ocasiom, empregando novamente a violência física, ao pretenderem infrutuosamente retirar as grandes fotografias seguradas por militantes da esquerda independentista em que se definia com precisom as responsabilidades compartilhadas das forças do actual regime espanhol na Galiza na actual crise, ou lançando fanatizadas palavras de ordem, antes próprias de idiotas, como "Alfredo seguro ao PP dá-lhe duro!" ou "Adiante já com Soares Canal!", para fazer calar a denúncia da co-responsabilidade do governo na crise.

Pois, por enquanto, PP, PSOE e BNG mantenhem políticas urbanísticas, agrárias e florestais semelhantes. O especulador e anti-popular PGOM de Vigo aprovado polo PP e o BNG, ou a aposta na turistificaçom selvagem de Compostela promovida polo PSOE e o BNG, som dous exemplos indiscutíveis desta afirmaçom.

É inconsistente, a partir de postulados de esquerda, culpar dos incêndios exclusivamente o PP. Nom temos a mais mínima dúvida de que a extrema-direita é co-responsável por esta crise ecológica, pois as suas vinculaçons com algumhas destas empresas som tam públicas como a gestom da Comunidade Autónoma nos últimos lustros, promovendo a eucaliptizaçom selvagem e um urbanismo caótico. Porém, o papel atribuído à Galiza polo capitalismo espanhol, a dependência nacional que padecemos, nom é responsabilidade exclusiva do bloco oligárquico politicamente representado por Rajói e Nuñez Feijó.

Os acordos institucionais entre as três forças institucionais nos mais diversos aspectos das políticas estratégicas que reforçam os mecanismos de dependência também som públicos. O novo Estatuto que o BNG teima em pactuar com o PP e o PSOE para perpetuar a dominaçom do capitalismo espanhol sobre a Galiza confirma esta coincidência, com todos os matizes que se quigerem colocar.

 

PSOE-BNG a mesma merda é!

Pola primeira vez de forma nítida, sem timidez nem eufemismos, esta palavra de ordem foi empregada por centenas de pessoas numha manifestaçom popular. É algo natural e só questom de tempo. A ninguém deveria surpreender nem escandalizar. É tam normal o seu uso como o da mais conhecida PSOE-PP a mesma merda é!, popularizada polo nacionalismo galego na década de oitenta e profusamente empregada no recente 2 de Dezembro de 2002, na histórica primeira manifestaçom de Nunca Mais, quando o séquito de Zapatero aterrou na Alameda compostelana.

Mas umha parte das forças políticas e sociais que se enquadram "objectivamente" à margem do sistema, evitárom apoiá-la e mesmo tentárom insistentemente ocultá-la, empregando palavras de ordem "politicamente mais correctas".

Aqui radica um dos nós górdios que o movimento revolucionário galego historicamente arrasta, que tem provocado a sua endémica dispersom e dificulta objectiva e subjectivamente umha imediata recomposiçom.

Nom é possível, nem viável, construir qualquer expressom de massas da esquerda autodeterminista se nom for traçada umha intransigente linha divisória frente às posiçons do autonomismo neoliberal. A esquerda anticapitalista e soberanista nom pode continuar mantendo aberto um cordom umbilical com o reformismo regionalista. Isto simplesmente é um cobarde suicídio.

Nom existem razons para legitimar as políticas do BNG e do PSOE. Agir como simples apêndice radicalizado do autonomismo nom só é um preocupante sintoma de atávicos complexos, como representa o fruto das deficiências genéticas plasmadas na síndrome de Édipo, que boa parte do independentismo arrasta e do qual nom quer despreender-se. É umha estratégia condenada de partida ao fracasso, tal como constatam os dous últimos decénios. É continuar a apostar em hipotecar o futuro, por evitar que na Galiza a classe operária, a juventude e as mulheres se dotem dumha ferramenta de autodefesa que consiga, em primeiro lugar, conduzir de marginal a minoritária a actual esquerda independentista, para posteriormente convertê-la num dos motores das principais luitas de massas, atingindo a imprescindível representaçom institucional que desloque o centro de gravidade da política burguesa, para, tal como em períodos históricos anteriores, conseguir superar as forças tradicionais mediante a visibilizaçom dos emergentes agentes e sujeitos sociopolíticos que carecem de representaçom, no quadro dumha estratégia de longo prazo que culmine na Revoluçom Galega.

Denunciar a política do PSOE-BNG nom é fazer o jogo ao PP, tal como se afirma de posiçons pretensamente de esquerda. Nom é praticar a provocaçom esquerdista, nem intervir sob os ditados de serviços secretos, tal como manifesta a paranóia upegalha e os seus coros. Esta estratégia desqualificadora nom é nova, nem original. Já foi aplicada com as suas terríveis conseqüências durante a guerra de classes de 1936-39, quando o estalinismo acusou o POUM e outros sectores da esquerda revolucionária de agentes de Berlim, quinta-colunistas de Franco, etc, e cujos dramáticos resultados fôrom a ilegalizaçom desse partido comunista e a liquidaçom física dos seus principais dirigentes e quadros.

Mas tampouco deve preocupar-nos, a aqueles que temos a firme determinaçom, contra vento e maré, sem ajudas nem esmolas de ninguém, de contribuir para dotar a classe trabalhadora galega da sua expressom sociopolítica genuína.

O MLNG em geral, e Primeira Linha em particular, nom está disposta a fazer o jogo ao PP, mas tampouco ao PSOE nem ao BNG. @s comunistas galeg@s só fazemos o jogo à nossa pátria, a Galiza, e à única classe em que estamos inseridos e ligados: o proletariado.

Nom devemos nada a ninguém. Nom temos portanto que render honra a demiurgos e referentes superados pola implacável dialéctica da luita de classes. Nom queremos repetir experiências fracasadas. Nem vivemos, nem nos alimentados de nostálgicas épicas nacional-populares. Nom temos intençom de fazer méritos para nos integrarmos na comodidade do guarda-chuva autonomista. Somos conscientes de que, a dia de hoje, remamos contra a maré, mas também de que esta é a única via para avançarmos na direcçom correcta.

Aí radica a nossa força, na absoluta independência política, ideológica, sentimental e geracional em relaçom aos gurus e os paradigmas da esquerda nacionalista cujos erros teórico-práticos derom no actual BNG.

Quem conheça a trajectória da nova esquerda independentista a respeito do governo bipartido, sabe perfeitamente que desde antes da ajustada derrota de Fraga manifestamos que nom depositávamos a mais mínima confiança nas suas promessas. Contodo, aos poucos meses da sua tomada de posse, NÓS-UP apresentou umha "Tabela reivindicativa de mínimos", concretizada em 444 medidas para aplicar, no actual quadro jurídico autonómico e neoliberal, políticas de construçom nacional e de esquerda. Neste ano, fomos solicitando à Junta a sua aplicaçom sem obter mais resposta que o eloqüente silêncio e desprezo dos governantes. Ainda assim, em determinadas iniciativas do governo autonómico manifestamos o nosso apoio, crítico, mas no fim de contas apoio.

Goste ou nom, somos parte do movimento de libertaçom nacional deste país. Umha realidade viva, em pleno desenvolvimento e, portanto com uma linha política própria, sobre a qual só o futuro constatará a sua validez.

Galiza, 22 de Agosto de 2006

 

 

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