Novas do Norte de Portugal
21 de Maio de 2006
Apresentamos o artigo de opiniom de Domingos Guedes, activista ambiental português e bom conhecedor da Galiza, em que relata a situaçom e perspectivas da depauperada regiom norte de Portugual.
Novas do Norte de Portugal
Domingos Guedes
O Norte de Portugal
foi considerado, num estudo publicado pola Eurostat, a regiom mais pobre da
UE-15. Impressionante. Segundo este estudo, o PIB per capita PPP (Paridade
de Poder de Compra) do Norte representa 57% da média da UE. Dentro
do Norte, as disparidades entre a Área Metropolitana do Porto e o interior
som abismais. Podemos dizer, assim, que a regiom de Trás-os-Montes
e Alto Douro é o cantinho mais pobre da rica Europa. Trás-os-Montes
e Alto Douro: regiom histórica, antiga província, hoje dividida
em quatro distritos, duas NUT III. Nos últimos quinze anos perdeu 20%
da sua populaçom. As poucas e pequenas cidades vam concentrando os
jovens; as vilas sedes de concelho vam absorvendo o regresso de emigrantes;
as aldeias vam-se apagando, umha a seguir à outra. O IP4 acelerou a
sangria, facilitando o acesso ao exterior. O encerramento das ferrovias acentuou
ainda mais o abandono. Governo após governo, esta regiom vem perdendo
serviços públicos básicos. Agora som as escolas primárias
e as maternidades a fechar. O Estado Português vai-se demitindo, vai-se
indo embora, abandonando os transmontanos à sua mercê. O pior
é que umha boa parte dos governantes som oriundos desta regiom, ou
ali tenhem as suas raízes. Durão Barroso, Duarte Lima, Armando
Vara, todos se vam governando, traindo descaradamente as populaçons
que os elegem.
Quem fica vai tentando a sua sorte. A tarefa das autarquias é complicadíssima,
com os escassos fundos que vam sendo encurtados ano após ano. Os homens-abutres
vam sobrevoando a regiom, esperando a primeira oportunidade para atacar.
Um desses abutres é Patrick Monteiro de Barros. Capitalista da velha
guarda, fugido após o 25 de Abril por ser um bom rapaz, pouco tardou
em voltar e a refazer o seu império. Nos últimos tempos tem
sido particularmente badalado.
Primeiro, anuncia o projecto de instalaçom de umha grande refinaria
em Sines, no litoral alentejano, que criaria 800 postos de trabalho, investindo
milhons de euros. A montanha escondeu o rato. Pouco tempo depois véu-se
a saber que tamanho investimento se baseava no desrespeito pela legislaçom
ambiental nacional, facto que levou o governo a cancelar o pré-acordo
que tinha apalavrado antes.
Segundo, vem a público defender a opçom nuclear para o nosso
país. Esta segunda ideia contou com uma impressionante campanha nos
media, bem paga seguramente. Discutiu-se a necessidade de encontrarmos fontes
de energia alternativas ao petróleo, sendo indicada a nuclear como
a mais barata. Todos os que vimos acompanhando estas cousas sentimos um calafrio:
Trás-os-Montes. Quente quentinho. Acertamos em cheio. O senhor Patrick
tentou comprar a autarquia de Mogadouro, concelho de 700 Km2 e 11000 habitantes,
governado polo PSD. O Presidente da Cámara sugeriu à Assembleia
Municipal vetar toda e qualquer proposta que aponte para a instalaçom
de umha
central nuclear no concelho. Aprovado por unanimidade. Mais: defendêrom
o desenvolvimento do turismo numha lógica de desenvolvimento sustentável.
Patrick oferecia 300 postos de trabalho bem pagos, dez milhons de euros por
ano para os cofres da C.M., entre outros aliciantes.
É bom saber que, mesmo na miséria, ainda há gentes que
nom se deixam comprar. Só é pena que os mesmos autarcas que
tenhem esta coragem nom contestem as políticas dos seus partidos, quando
estes governam em Lisboa.