Entrevista com Iñaki de Juana, preso basco em greve de fame há 47 dias

 

23 de Setembro de 2006

Nom é um caso único, mas sim significativo. Há dous anos que devia estar na rua após ter cumprido umha longuíssima condena de 18 anos. Como ele, outros presos e presas bascas vem atropelados os seus mais elementares direitos em cadeias espanholas e som utilizados polo Estado espanhol para condicionar o processo de negociaçom proposto pola esquerda abertzale.

Iñaki de Juana Chaos, que leva 47 dias em greve de fame e com umha situaçom já grave, está a ser alimentado pola força polos médicos impostos polas instituiçons prisionais espanholas, depois de que o preso afirmasse claramente que consideraria essa imposiçom como umha "violaçom".

Numerosas manifestaçons no País Basco reclamam umha saída democrática à situaçom dos presos e que Iñaki de Juana seja posto em liberdade. Diversas entidades e organismos internacionais estám também a aderir à reivindicaçom. O Sinn Fein irlandês é umha das que o figérom nas últimas horas, através da eurodeputada Bairbre de Brun.

A seguir, apresentamos a entrevista a Iñaki De Juana Chaos que publicou o jornal basco Gara, realizada no passado dia 14 de Setembro, em que falava da sua situaçom e da das restantes presas e presos políticos bascos.

Entrevista a Iñaki de Juana

No passado dia 7 de Agosto, começou umha greve de fame indefinida. Quais as razons principais que o levárom a tal decisom?

Fôrom quatro: o convencimento de que a jurisprudência que for criada neste assunto afectará a todos os presos políticos e à liberdade de expressom e nom apenas a mim; a segurança de que nom prejudico ninguém e que as conseqüências positivas serám para todos e as negativas exclusivamente para mim; a íntima necessidade de dizer basta a tanta agressom; e exigir a excarceraçom depois de dous anos de condena cumprida.

Em lugar de ter escolhido um outro modo de luita, optou pola forma mais dura de protesto…

As formas de luita de um preso som muito limitadas: fechar-se nas celas, fazer greve ao trabalho, greves de fame e algumha outra cousa puramente testemunhal. Infelizmente, embora também com muitas limitaçons, o único que pode ser levado a sério como denúncia e pressom é pôr a tua vida em maos da Administraçom. E para o exterior é o que melhor se entende, justamente pola sua dureza.

Leva já mais de um mês sem comer. Como passou este tempo?

Muito rápido, pola enorme motivaçom que tenho. Muito forte e animado. Fisicamente, com o desgaste normal mas, psicologicamente, com maior convencimento do que quando tomei a decisom.

A Audiência Nacional espanhola ordenou que fosse levado a um centro hospitalar para ser submetido a diferentes provas, bem como que seja alimentado inclusive contra a sua vontade. Qual é a sua opiniom?

A dia de hoje, 14 de Setembro, levárom-me ao hospital as duas primeiras semanas, para me fazerem electrocardiogramas e diversas analíticas; pois eu me nego a tal voluntariamente, para nom colaborar com umha equipa médica que é a mesma disposta a agir contra a minha vontade e pola força. Após essas duas semanas, as provas estám a fazer-mas na prisom, mas sempre com o amparo que lhes dá o auto da Audiência Nacional.

A Audiência Nacional decretou por enquanto dous autos: um do Julgado Central de Vigiláncia Penitenciária e um outro da Primeira Sala Penal. Ambos som para eu ser transferido ao hospital quando quigerem e para me fazerem todo o tipo de análises.

Até agora nom foi decretada a alimentaçom forçosa, mas já dixérom que o farám e nom creio que demorem muito, pois o mesmo subdirector médico da prisom informou-me de que de nengumha maneira deixarám que ultrapasse os 50 dias sem me alimentarem à força.

Tanto as medidas que tomárom até agora como as que vinherem estám a violentar injustamente a minha vontade, por muito sustento constitucional que tiverem. Nom só tortura psicológica, polo que supom de violaçom da tua vontade, mas física, violaçom do teu corpo, porque o fam pola força física. Além do mais, estas medidas prolongam o sofrimento, mas nom garantem a vida, e muito menos umha vida saudável e em condiçons.

Um dos autos justificava-se nos seus antecedentes médicos de "insuficiência renal"…

A começos dos anos 90, na prisom de Salto del Negro mantivérom-se umha série de borrokas (luitas) muito duras. Durante o ano 92, participei em três longas greves de fame. Outros companheiros, Esteban, Tapia, Garratz… figérom mais do que eu, antes e depois da minha estada lá.

Na terceira e última greve de fame em que participei, aos quarenta e tal dias tivem umha insuficiência renal grave. Pugérom-me soro à força e levárom-me de urgência fora daquela prisom. Devim estar mal porque me acompanhou um médico durante a travessia toda, de barco, e depois, de ambuláncia até a enfermaria da prisom de Málaga, onde me tivérom mês e meio até ficar recuperado.

Como se sabe, quando os rins param a lesom é definitiva, mas os meus nom chegárom a tal ponto. As lesons fôrom reversíveis e recuperei-me totalmente. Após catorze anos, Instituiçons Penitenciárias recuperou esta situaçom passada e é esse o expediente médico que mandou à Audiência Nacional para justificar as medidas adoptadas com tanta celeridade. Daí a redacçom do auto.

Mas quero deixar bem claro que no momento de começar a greve de fame a minha saúde era perfeita, sem a mais mínima doença.

Demonstrou umha total determinaçom para continuar avante com a greve de fame. Em que se baseia a firmeza da sua decisom?

Em que é a única arma que tenho. Nom sei o que acontecerá nesta situaçom. Dependerá de diversos factores. Mas tenho a segurança de que a outra alternativa é a prisom perpétua e a morte de velho em prisom. Prefiro brigar e e vamos lá ver no que dá. De qualquer maneira, luitar é já ganhar. Mas nom quero que esta decisom seja tomada como umha medida desesperada, porque nom é. É um combate.

Desde que começou o seu protesto, fôrom realizados muitos actos nas ruas. Que valor tenhem estes gestos de solidariedade? Chega-lhe o calor da rua?

Chega, sim. Tenhem muitíssima importáncia para o meu estado de ánimo e para a possível, embora difícil, resoluçom desta situaçom. Fico imensamente grato. Mas também estou consciente de que, como deve ser, apenas umha pequena parte é por mim. A solidariedade é com todas e todos os encarcerados políticos e com todo represaliado polas suas ideias. Acontece é que a minha situaçom é umha das mais chamativas, porque escandalosas som todas. E, nesta altura, parece que foi um revulsivo perante a fartura por tanto imobilismo e agressom.

Até agora, tenhem-se sucedido os ataques contra o Colectivo de Presos Políticos Bascos e as suas condiçons de vida. Que leitura realiza desta situaçom e como vê o conjunto do Colectivo?

Eu nom sou quem para opinar do Colectivo no seu conjunto. Isso só podem e devem fazê-lo os companheiros nomeados oficialmente como representantes de todos os presos e presas políticas bascas. Além disso, sinceramente, seria umha ousadia pola minha parte responder a isto porque, ainda que pareça estranho, nom sei. Refiro-me a que, depois da dispersom, quase sempre estivem em departamentos de isolamento com um número limitado de companheiros, com o qual só sei o que pensam uns poucos.

Particularmente, acho que o Estado há anos e, especialmente nos três últimos, dedica-se a encher o saco dos reféns, para depois, se chegar o caso, ir abrindo aos poucos, com conta-gotas. E dilatar durante anos, mantendo umha chantagem, qualquer processo de resoluçom do conflito. Vender com gestos de generosidade os mesmos passos repressivos que tinha dado e, depois de anos, chegar à mesma situaçom em que estávamos há quinze.

Mas, sem falar em nome de ninguém, como qualquer observador, sei é que o Colectivo tem resistido todo o tipo de agressons desde há quase trinta anos, e que continuará a resistir.

No seu caso, fôrom utilizados dous artigos de opiniom para reclamar umha nova condena de 96 anos…

Mas polo primeiro que nom me soltárom foi porque anulárom resoluçons judiciais firmes relativas a redençons por estudos. Quando isto nom lhes dava mais jeito, porque estava a criar inclusive contradiços entre os juízes, e ainda nom estava a "doutrina Parot" do Supremo Tribunal, tirárom o dos artigos. O que cumprisse para encher o saco. Que nom saia ninguém. Ou, entom, que nom saia ninguém que eles nom quigerem que saia.

Ultimamente, responsáveis políticos e institucionais bascos figérom declaraçons a pedirem a repatriaçom ou, no mínimo, a aproximaçom. Como interpreta estas manifestaçons?

Como fogos de artifício. Pura hipocrisia. Porque ficam em declaraçons, os factos nom condizem. Nom tomam medidas efectivas que dem credibilidade. Além disso, nom há que esquecer que todos esses responsáveis políticos som co-partícipes da dispersom, do sofrimento, das mortes, no cárcere e de familiares e amigos, dos acidentes, das cargas económicas…

A única que sempre tem estado do lado dos presos e presas é a esquerda abertzale, e nom há que esquecê-lo nem distrair-se com palavreado. Acontece é que, numha atitude de imensa indignidade, mais umha, todos esses responsáveis políticos procuram umha possível capitalizaçom política do futurível facto de que algum dia se produza a repatriaçom.

Tem esperanças de que a pressom popular consiga algumha cousa para o Colectivo?

Particularmente, dos dirigentes espanhóis nom espero nada, para além da repressom. Tampouco dos colaboracionistas vascongados e navarristas. Como sempre, a esquerda abertzale deverá afrontar os problemas e resolvê-los em solitário e com as próprias forças. Como sempre, luitando e sacrificando-se. Luitar e rebelar-se é nom se deixar assimilar. É resistir. E, afinal, vencer.

 

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