Soberania timorense ameaçada por colonialismo australiano

27 de Junho de 2006

A actual crise institucional, política e social que arrasta de há semanas a jovem naçom timorense tem um responsável directo: os interesses imperialistas australianos que procuram impor em Dili um governo submisso para assim facilitar o controlo dos vastos recursos energéticos das suas águas territoriais.
Primeira Linha em Rede publica um interessante artigo de Nick Beams, analista político australiano, que foi publicado no portal português www.resistir.info

Porque a Austrália quer uma mudança de regime em Timor Oriental

Se alguém acreditasse na versom oficial, a entrada das tropas da Austrália em Timor Leste deveria-se aos mais nobres motivos. Estam ali simplesmente para restaurar a paz e a estabilidade após o colapso da autoridade do governo. Mas esta ficçom política foi desmascarada polos acontecimentos dos últimos dias, pola luita polo poder que iniciou a crise e que a trouxo à superfície.

A intervençom do governo de Howard nada tem a ver com a protecçom dos interesses do povo de Timor Oriental. O objectivo é produzir umha "mudança de regime" substituindo o governo do primeiro-ministro Mari Alkatiri por uma administraçom mais em consonância com os interesses australianos.

Há uma máxima em política exterior que di que nom existem aliados nem alianças permanentes, só interesses permanentes. É o caso de Timor Oriental, onde uma das principais preocupaçons do governo australiano, apoiado pelo Partido Trabalhista da oposiçom, foi assegurar que outros poderes nom tivessem possibilidade de usar sua influência no que se refere explicitamente ao "pátio traseiro da Austrália".

Em 1999 o governo de Howard enviou tropas para liderar a intervençom militar da ONU a fim de assegurar que a Austrália - mais do que o primeiro poder colonial, Portugal - exercesse a maior autoridade no Timor Oriental pós-independência e estivesse na melhor posiçom para explorar as valiosas reservas de gás e petróleo. Sete anos depois as motivaçons essenciais som as mesmas.

O conflito subjacente com Portugal foi aberto em 9 de Junho quando o primeiro-ministro John Howard assegurou numha entrevista que a crise de Timor Oriental devia-se a uma "pobre governabilidade". Era um ataque claro ao governo de Alkatiri. A declaraçom foi respondida polo ministro dos Negócios Estrangeiros português, Diogo Freitas do Amaral, que definiu as afirmaçons de Howar como "umha interferência nos assuntos internos" de Timor Oriental. "Nom estamos de acordo com esta classe de declaraçons por parte de países estrangeiros", acrescentou.

Mas Howard nom foi dissuadido. De facto, decidiu dizer mais quando tivo a oportunidade seguinte.

Numha apariçom no programa matutino do domingo da televisom ABC, "Insiders", Howard foi perguntado "que mau" tinha sido o governo de Timor Oriental e sobre a responsabilidade de Alkatiri.

Howard afirmou que nom queria entrar "em comentários pormenorizados sobre os políticos do país", mas foi exactamente o que realizou. Era óbvio, dizia Howard, que o país nom fora bem governado nos últimos anos. Além disso dijo que nom pensava retractar-se dos comentários feitos dous dias antes.

Perguntado sobre se os planos a longo prazo da Austrália seriam semelhantes a aqueles levados a cabo nas Ilhas Salomom, onde oficiais australianos tinham tomado conta do Ministério das Finanças, assim como da gestom da polícia e das prisons, Howard foi mais além:

"Bem, nom descarto nada, mas nom quero declarar nada sobre o que vai suceder ou sobre o que deveria suceder sem antes discutir o assunto com os timorenses orientais", dijo. "Quero dizer, encontramo-nos diante de um caminho complexo a percorrer. Por um lado, queremos ajudar, somos o poder regional que está em posiçom de fazê-lo. É nossa responsabilidade ajudar, mas quero respeitar a independência dos timorenses. Contodo, por outro lado, devem desempenhar essa independência ou as responsabilidades dessa independência com mais eficácia do que o figeram nos últimos anos".

O "caminho complexo" refere-se às actividades dos rivais da Austrália na regiom, como indicavam os comentários do ministro dos Negócios Estrangeiros português. Até o momento, o governo australiano estivo em condiçons de contestar estas pressons graças ao apoio dos Estados Unidos. Do mesmo modo como a administraçom Clintou apoiou a intervençom de 1999, a secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, deixou claro que o seu país apoia plenamente a última deslocaçom de tropas. Numa conversaçom telefónica com o ministro das Relaçons Exteriores australiano, Alexander Downer, Rice dijo ter-lhe perguntado: "O que quer que fagamos?".

O foco imediato da mudança de regime é a reuniom do Conselho de Estado, de carácter consultivo, que se celebra agora em Dili. Esta entidade, convocada polo presidente Xanana Gusmão, tem a capacidade de demitir o governo de Alkatiri e nomear um suposto governo de unidade nacional até as próximas eleiçons que devem ser celebradas em Maio.

Após uma reuniom de 9 horas celebrada ontem [dia 10], o Conselho nom chegou a tomar uma decisom e as negociaçons continuam hoje. Enquanto isso, nom havendo decisom oficial, o ministro das Relaçons Exteriores de Timor Oriental, José Ramos Horta, deixou claro que, no que a ele e a Xanana Gusmão se refere, Alkatiri deve renunciar.

Em declaraçons à televisom ABC, Ramos Horta dijo: "O que agora é necessário é uma soluçom da actual crise política que implica, obviamente, primeiro o primeiro-ministro no sentido que muita gente quer, o da sua renúncia".

Quando perguntado da sua situaçom, Ramos Horta recusa comentar, explicando que está envolto em negociaçons com ambas as partes.

A campanha em Timor Oriental para expulsar Alkatiri, o líder do partido preponderando (Fretilin) decorre há algum tempo. A situaçom explodiu após a decisom de Alkatiri de converter em opcional a educaçom religiosa, ao invés de obrigatória.

Este movimento elementar de separaçom igreja-estado provocou denúncias virulentas da igreja católica. Celebraram-se manifestaçons com proclamaçons de expulsom de Alkatiri e o final do "seu governo extremista". Numha nota pastoral publicada em Abril de 2005 a hierarquia eclesiástica de Dili dizia que o gabinete continha "marxistas" que punham a democracia em perigo. Além disso dizia-se que o governo seguia políticas baseadas no "modelo chinês" e no "terceiro mundo retrógrado".

Segundo umha reportagem do Asia Times, o embaixador dos Estados Unidos em Timor Oriental apoiava abertamente a igreja nos seus protestos de rua contra o governo no ano passado, chegando inclusive a comparecer pessoalmente a uma delas.

Em Janeiro último um líder da Fretilin membro do parlamento nacional, Francisco Branco, denunciou que um conhecido sacerdote empreendeu uma campanha para derrubar o governo. Segundo Branco, o sacerdote tinha explicado aos paroquianos que a decisom de enviar estudantes a Cuba converteria Timor num país comunista e que a Fretilin tinha planeado matar padres e freiras se ganhasse as eleiçons seguintes.

Umha vez iniciada a intervençom militar, os media australianos, seguindo o governo Howard, aumentaram as denúncias contra o governo de Alkatiri.

Num comentário publicado sábado passado, o editor australiano Greg Sheridan qualificou Alkatiri como um "desastroso primeiro-ministro, liderando a 'chamada camarilha de ideólogos de Moçambique', em referência ao longo período de exílio de Alkatiri em outra colónia portuguesa durante a ocupaçom indonésia de Timor Oriental.

"A catastrófica decisom de converter o português em língua nacional de Timor Oriental ilustra perfeitamente o dogmatismo e o grau de irrealidade do pensamento de Alkatiri. É uma decisom que priva de direitos civis os jovens timorenses que falam tetun, indonésio ou inglês. Entrincheira a camarilha de velhos e dogmáticos marxistas-leninistas da Fretilin e exacerba as divisons no seio da sociedade de Timor Oriental. Além de nom ajudar em nada a que os jovens de Timor Oriental ganhem a vida".

Alkatiri e os seus partidários nom som marxistas nem comunistas. Nem tam pouco o governo de Howard e seus porta-vozes dos media estám interessados nas políticas do governo para o povo de Timor Oriental. A oposiçom australiana a Alkatiri baseia-se em que Alkatiri e sua facçom procuram apoios de outras potências mais relevantes, principalmente Portugal e, cada vez mais, durante o último período, a China, como contrapeso ao imperialismo australiano.

Após quatro anos de intransigência de Howar e Downer, o governo de Dili foi obrigado no ano passado a adiar o acordo sobre fronteiras marítimas entre os dous países por 50 ou 60 anos. Segundo o direito internacional de fronteiras que a Austrália recusa-se a reconhecer, Timor Oriental tem direitos sobre a maioria dos recursos de gás e petróleo. Contodo, Canberra teve êxito na hora de conseguir que Dili cessasse suas reclamaçons de soberania sobre as áreas chave de recursos do mar de Timor durante duas geraçons. É o tempo suficiente para que se esgotem as principais fontes de gás e petróleo.

Se Alkatiri fosse considerado um aliado da Austrália em Timor Oriental, e nom como um obstáculo, a atitude do governo Howard, e consequentemente os comentários dos mass media, teriam sido muito diferentes.

Para começar, os chamados soldados dissidentes, cuja rebeliom acendeu a mecha da crise, nom seriam retratados como vítimas de uma injustiça. Ao invés disso, a decisom de despedi-los depois de terem ido à greve teria sido aprovada. Os comandantes do exército australiano ao invés de manter contactos com os "rebeldes" teria-nos denunciado por organizar um motim, tomando as leis nas suas maos e criando condiçons para o terrorismo. Contodo, a campanha para expulsar o governo de Alkatiri ajusta-se perfeitamente aos interesses australianos.

Estes interesses centram-se em assegurar a posiçom australiana numa regiom onde crescem grandes conflitos de poder. Como destacava ontem um comentário da Australian Financial Review, a rivalidade emergente entre o Japom e a China está a estender-se polo Pacífico, colocando um "desafio real a um governo que afirma sempre manter magníficas relaçons com Tóquio e com Pequim".

Depois de assinalar questons económicas de longo prazo que sempre motivaram a política exterior australiana na regiom, o comentário prosseguia: "É útil recordar que em 1920 os planificadores estratégicos da Austrália estavam preocupados porque o Japom tentava lançar suas redes nos supostos recursos petrolíferos do Timor português, e em 1975 abrigava-se o medo de que a China manipulasse os independentistas timorenses de esquerda a fim de obter vantagem territorial".

 

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