Timor-Leste: mais umha "Revoluçom Laranja" ao cheiro do petróleo

5 de Setembro de 2006

Reproduzimos o texto publicado no número 105 -Maio e Junho de 2006- da revista comunista portuguesa Política Operária, em que António Cândido analisa os acontecimentos que nos últimos meses tenhem sacodido a ex-colónia portuguesa, e que concluírom com a renúncia do primeiro-ministro Mari Alkatiri por pressons dos sectores pró-australianos, com Ramos Horta à cabeça.

Timor-Leste: mais umha "Revoluçom Laranja" ao cheiro do petróleo

António Cândido

No meio da informaçom parcelada e confusa que nos chega acerca da crise político-militar em Timor-Leste, umha cousa fica clara: a política neocolonial da Austrália (o aliado seguro dos EUA naquela zona do mundo) está, em conluio objectivo com a Igreja Católica, a querer impedir aquele pequeno país de se desenvolver autonomamente na base dos seus recursos naturais, que som importantes.

Nos últimos tempos, dous acontecimentos fundamentais podem ajudar-nos a compreender a agitaçom político-militar timorense e as suas duas consequências mais visíveis: o ressurgimento de milícias armadas, ditas "descontroladas", em Díli e a suposta crise de autoridade e popularidade do primeiro-ministro Mari Alkatiri. Esses dous acontecimentos som, primeiro, o diferendo a propósito da laicidade do ensino público, entre o governo que a defendia e a Igreja Católica que a contestava; e, em segundo lugar (e muito menos referido na imprensa), o desacordo entre Alkatiri e os australianos acerca da localizaçom da refinaria petrolífera que irá tratar os hicrocarbonetos extraídos das ricas jazidas do Timor Gap. Os australianos - a quem Alkatiri já impugera a restituiçom a Timor de metade do seu petróleo - querem, por força, que essa refinaria se situe na costa norte da Austrália, e Alkatiri nom cede e exige que essa indústria transformadora se situe em Timor, como parte do seu autodesenvolvimento.

Ora, como surge esta crise político-militar em Timor? O major Alfredo Reinado, que, com alguns dos seus homens, desertou das Forças Armadas comandadas polo general Matan Ruak para exigir "a imediata demissom desse criminoso do Alkatiri", é claramente um homem dos australianos, é claramente teleguiado polos australianos e agora militarmente protegido por eles. É clara a atitude de ingerência do governo australiano, para quem "esse país nom tem sido bem governado". O governo português, polo seu lado, enfrenta -na ONU e no terreno- as humilhaçons e trapalhices decorrentes da sua posiçom secundária em matéria neocolonial.

Em Timor, a Igreja tem um papel importante nesta "revoluçom laranja" anti-Alkatiri. Há pouco tempo, o bispo de Baucau, D. Basílio, dizia que "o governo nom respeita o povo, o povo nom quer o Alkatiri", sem sequer se referir a eleiçons, nem ao facto de a liderança de Alkatiri ter sido esmagadoramente confirmada no recente congresso da Fretilin.

Os grupos armados que começaram a atacar pessoas e casas, provocando um êxodo de civis que lembra os tempos sinistros das milícias pró-indonésias em 2000, agem -segundo as nossas fontes- de forma muito mais organizada e selectiva do que na crise do referendo de há seis anos. Pode a sua constituiçom ser organizada na base de pessoas que estiveram envolvidas nessas milícias, e que entretanto regressaram a Timor-Leste e fôrom perdoadas. Mas nom se sabe quem as organiza e comanda agora. A componente social-democrática timorense, organizada na UDT, declarou pola voz de Mário Carrascalão que é preciso mudar mas... "no respeito polas instituiçons".

Com o acordo de Xanana, Ramos Horta -apoiante dos EUA na guerra do Iraque, e que deu o nome de J. F. Kennedy à rua onde mora- parece ser o"o homem dos australianos" e passou a acumular as pastas da Defesa e dos Negócios Estrangeiros.

Xanana afirmou, na tomada de posse dos novos ministros, que nom admitirá "mais delongas e hesitaçons em dar resposta ao sofrimento e às carências gritantes" dos timorenses. Ora, é preciso sabermos que é precisamente este ano que o governo de Timor começa a receber alguns frutos importantes do seu petróleo. Segundo um conselheiro económico de Alkatiri -recentemente na SIC Notícias (1), o orçamento de Estado timorense irá, este ano, quadruplicar ou quintuplicar. Alkatiri sempre tem afirmado que o desenvolvimento do país terá de ser feito com base nesses prazos e numha política de infra-estruturas a longo prazo, que preserve a independência do país. Nom pode ser um acaso -associando isto com o desacordo quanto à localizaçom da refinaria- que esta sanha neocolonial australiana surja precisamente agora.

O eixo imperial anglo-saxónico nom quer permitir em Timor-Leste quaisquer veleidades de independência. E -coincidência- a SIC destaca para Díli, para a cobertura "jornalística" dos acontecimentos, o seu correspondente... nos EUA; nota-se nos comentários que ele fai.

Notas

(1) SIC: canal televisivo privado português

 

:: Mais informaçons sobre o mesmo tema

Soberania timorense ameaçada por colonialismo australiano (+...)

 

Voltar à página principal

 

 

Mari Alkatiri, primeiro-ministro timorense e alvo da campanha neocolonial orquestrada polos imperialismos australiano e estado-unidense contra a soberania de Timor