Discurso do secretário-geral de Primeira Linha, Carlos Morais, no encerramento do IV Congresso do Partido

17 de Dezembro de 2006

Reproduzimos a seguir o discurso de encerramento do IV Congresso do nosso partido, pronunciado polo secretário-geral, Carlos Morais, no passado sábado dia 17 de Dezembro em Ferrol.

 

Camaradas:

Chegamos ao encerramento do IV Congresso com o convencimento de termos, mais umha vez, contribuído para reforçar, com a nossa experiência militante, com os nossos contributos teóricos, o caminho aberto há dez anos quando um punhado de intrépid@s jovens fundárom o Partido perante a inexistência de um projecto sociopolítico que conjugasse de forma original e criativa a superaçom da exploraçom capitalista que padece a classe trabalhadora, com a recuperaçom dos direitos colectivos da Naçom Galega, introduzindo em igualdade de importáncia a específica luita polos direitos de metade da força de trabalho, ou seja o combate polo Socialismo, a Independência e a superaçom da opressom patriarcal.

Eis o que Primeira Linha, sem aditivos nem maquilhagens, denomina Revoluçom Galega.

Caminho e objectivo complexo mas apaixonante, caminho e objectivo difícil mas necessário, caminho e objectivo em que, contra todo o prognóstico, nom só continuamos, senom que nos achamos mais arroupad@s, mais preparad@s, mais convencid@s para prosseguir, para somar mais contigentes, mais forças, e avançar sem desalento no rumo marcado.

Nesta ocasiom, o IV Congresso plasmou as reflexons que a nossa acçom teórico-prática véu recolhendo e constatando na intervençom que nós, comunistas galegas, que nós, comunistas galegos, desenvolvemos sobre a concreta morfologia de classes do nosso país.

A importáncia, pois, deste Congresso, de evidente continuidade, radica em primeiro lugar na elevada coesom política e ideológica, na profunda unidade que o nosso partido tem atingido desde o período aberto no II Congresso de 1999, consolidado no III Congresso em 2002.

Somos umha organizaçom com umha elevada unidade política e ideológica. Esta inegável virtude permite multiplicar a nossa capacidade de intervençom, optimizar os modestos recursos de que dispomos, e termos umha incidência muito superior a aquela que habitualmente possuem as organizaçons fracturadas ou imersas em constantes debates identitários e/ou de orientaçons táctica eestratégica. Podemos congratular-nos, sem o mais mínimo erro de cálculo, em contarmos com umha militáncia coesa que confia no projecto e n@s camaradas que assumírom as responsabilidades de conduzir -em permanente, sistemática e dialéctica sintonia com o conjunto da organizaçom- o Partido até o V Congresso. Embora a nossa particular cultura militante esteja habituada a desfrutar deste saudável clima unitário, nom podemos deixar de reconhecer que é um valor de que carece o conjunto das forças politicas da esquerda nacional deste país.

Porém, um dos perigos inerentes a organizaçons políticas como a nossa em períodos de desmobilizaçom popular é deixar-se arrastar polo sectarismo, por atitudes aparentemente puristas que procuram evitar contaminaçons reformistas nom participando em luitas parciais ou desprezando as de um conteúdo considerado excessivamente minimalista. Embora a nossa prática tenha dado inumeráveis mostras do necessário pragmatismo e sentido comum, agindo, dinamizando e promovendo os mais diversos movimentos de massas, Primeira Linha nom está isenta destas incorrectas e erróneas práticas. É necessário fazermos ainda mais trabalho de massas, involucrar-se mais no tecido associativo, nos movimentos populares, nas organizaçons sociais.

Nestes dez anos, ensaiamos diversas experiências de unidade de acçom e orgánica com outras correntes políticas sem o resultado aguardado. Embora estas tentativas nom tenham frutificado plenamente, nom renunciamos a continuar explorando espaços comuns de trabalho e luita com todas aquelas expressons da esquerda favoráveis ao exercício do direito de autodeterminaçom, independentemente da sua actual relaçom orgánica, e maior ou menor fidelidade com o projecto interclassista e regionalista representado polo autonomismo.

Nom é nengumha surpresa afirmarmos que Primeira Linha, como expressom marxista-leninista da nova esquerda independentista, está disposta, sem mais condiçons que o respeito ao pluralismo político-ideológico e um acordo de mínimos sobre um programa de esquerda anticapitalista e soberanista, a participar num processo aberto de reconfiguraçom da esquerda nacional que, sem um calendário, nem umha metodologia predeterminada, contribua para preencher o enorme vazio existente na representaçom de amplas massas operárias, juvenis e populares pola ausência de um projecto destas características no nosso país. Perante a dispersom actual, som fundamentais convergências amplas que actuem de ferramenta defensiva frente ao neoliberalismo e expansionismo espanhol, e simultaneamente contribuam sem ambigüidades para a construçom nacional e elevaçom da consciência de classe do povo trabalhador galego.

E, em segundo lugar, a importáncia deste IV Congresso emana do esforço e coragem teórica realizada na hora de abordarmos com rigor e realismo a revisom de alguns dos paradigmas sobre os quais se véu construindo o movimento de emancipaçom galego contemporáneo.

Estamos referindo-nos, tal como já temos exprimido em diversas ocasions, a que Primeira Linha está plenamente convencida que a Galiza do século XXI nom padece umha opressom nacional de carácter colonial, contrariamente ao que continuam a afirmar, -embora cada vez com voz mais pequena e acomplexada-, os oportunistas guardiáns do templo desse obsoleto dogma vigorante na impraticada teoria dos que se consideram continuadores do movimento nacional configurado na primeira metade da década de sessenta do seculo XX. Mas também dos que, a partir de parámetros aparentemente mais radicais nas formas do que nos conteúdos, se consideram herdeiros legítimos desse movimento, sendo incapazes de se desprenderem dum ADN responsável pola deriva regionalista e neoliberal em que está imerso o nacionalismo galego.

Como marxistas, empregamos um método de análise científico em permanente diálogo com a realidade sobre a qual operamos, na direcçom da sua transformaçom revolucionária. Eis porque após umha década de intervençom na estrutura social galega chegamos à firme determinaçom de que a dia de hoje o nosso país é completamente diferente de aquela Galiza de há trinta ou quarenta anos onde o sector primário seguia a ser hegemónico numha economia de autoconsumo, onde o mundo rural permanecia praticamente intacto e as cidades estavam subdesenvolvidas, onde a marginalizaçom da Galiza a respeito do resto da Europa atingia quotas muito superiores e diferentes às actuais, onde os sinais medulares da identidade nacional no plano lingüístico-cultural possuíam umha indiscutível vitalidade frente à desfeita que padecemos.

Camaradas, aquela Galiza já nom existe. A Galiza de 2007 tem menos semelhanças que diferenças com a de 1967. Portanto, as análises realizadas, as receitas políticas e as fórmulas organizativas empregadas para intervir a partir de posiçons de esquerda soberanista naquela situaçom concreta já nom som, obviamente, válidas para o presente.

Se a isto acrescentarmos as limitaçons genético-estruturais dum movimento nacional feito à medida do minimalismo pequeno-burguês dos Dezpontos fundacionais da UPG de 1964, completado com o escolasticismo pseudo-marxista da nefasta Academia de Ciências da URSS, e dos paradigmas hispano-dependentes do Partido Galeguista, temos um quadro que permite explicar umha boa parte das causas que provocárom a profunda crise em que se acha o autonomismo e da incapacidade da esquerda independentista para a sua consolidaçom como projecto minoritário, mas real, neste país.

Se queremos acertar politicamente e superar o carácter marginal do nosso Movimento devemos insistir nisto sem o mais mínimo pudor.

As mutaçons e mudanças na Galiza som tam profundas e traumáticas que nom servem umha boa parte das ideias força sobre as quais foi construindo o movimento de emancipaçom nacional nas últimas quatro décadas. Mas tampouco podemos obviar que outras concepçons eram simplesmente erróneas. Das quais se derivárom a supeditaçom das reivindicaçons de classe às nacionais; a desconsideraçom da específica opressom da mulher; a negaçom da existência dumha burguesia nacional; ou o questionamento do nacionalismo espanhol.

Aquelas águas trouxérom os actuais lodos da defesa do Estado plurinacional, o acatamento à Constituiçom, à monarquia imposta por Franco, ao modelo estatutário, ou essa concepçom regionalista mais próxima de Branhas do que de Castelao do Novo Estatuto que o trio do Hórreo pactuará antes de finalizar a legislatura e para o qual a esquerda independentista já tem manifestada umha rotunda oposiçom. Será esse momento a hora da verdade. Quando todos aqueles sectores declaradamente soberanistas e de esquerda que permanecem no seio do autonomismo tenham que superar o complexo de Hamlet e adoptar umha decisom trascendental que poderá contribuir para mudar o mapa político galego mediante a recomposiçom das forças que continuamos a apostar na única carta possível e necessária: a Independência e o Socialismo.

O processo do IV Congresso, iniciado há meses quando o Comité Central começou a trabalhar na elaboraçom das Teses que hoje aqui aprovamos sem variaçons substanciais, posteriormente continuado nos debates realizados nas Células e diversas estruturas partidárias, conclui a poucos dias de finalizar o ano em que comemoramos com orgulho e satisfaçom o nosso X aniversário.

Nom é aqui o lugar de enumerar os contributos de Primeira Linha ao movimento de libertaçom nacional e social de género, nem as diversas iniciativas em que estivemos envolvid@s nesta intensa e dilatada década, ao exclusivo serviço da classe operária e da Galiza. Este exercício fijo parte do Informe de Gestom e dos debates.

Porém hoje, às portas de encerrar o IV Congresso, nom quero deixar passar esta ocasiom que se me brinda ao ter sido reeleito Secretário-Geral e em que umha boa parte da militáncia está presente, para incidir no que deve ser um dos reptos que temos que lograr cumprir no período que hoje abrimos face o V Congresso.

2007 coincide com o quarenta aniversário da morte em combate do Che Guevara. O Partido vai realizar ao longo do vindouro ano um ronsel de iniciativas e actividades para difundir a obra e os contributos teórico-práticos do mais destacado e genuino comunista da segunda metade do século XX. Pois contrariamente ao que se pensa, a vida e trajectória do Che foi interesseiramente mistificada para ocultar o seu profundo significado, experiência e inequívoco exemplo para a luita pola liberdade dos povos e a emancipaçom das trabalhadoras e os trabalhadores.

A esquerda desnutrida e anémica que hegemoniza a representaçom popular em Ocidente tem contribuído para fazer do Che um simples retrato inofensivo e cativador, desprovisto da profunda carga subversiva de umha vida rebelde e insubmissa inviável de integrar polos mais variados modelos de reformismos.

Ao igual que em 2004 comemoramos o aniversário da morte de Lenine reivindicando o seu carácter de genial revolucionário, cujos contributos teóricos e modelo organizativo seguem -com as imprescindíveis adequaçons- plenamente vigentes, mas incidindo no aperfeiçoamento realizado na reflexom marxista sobre a autodeterminaçom nacional, queremos aproveitar 2007 para estudar, debater, aprender e difundir entre os sectores mais avançados do proletariado, da juventude e das mulheres, o pensamento do Che.

Porque, camaradas, Ernesto Guevara, além de ter sido um combatente no sentido mais literal do termo, também foi um destacado teórico marxista, que prognosticou com brilhante lucidez o ocaso desse socialismo realmente inexistente que representou durante décadas o modelo soviético.

Foi um incansável polemista difusor das ideias que devem caracterizar um projecto de emancipaçom humana e construçom de umha sociedade caracterizada pola igualdade, a liberdade e a fraternidade. Porque o comunismo nom se circunscreve, nem muito menos, ao desenvolvimento das forças produtivas e à formalista autogestom e colectivizaçom dos meios de produçom por umha amorfa e desestruturada classe operária que delega nas elites revolucionárias. Sem democracia socialista, sem participaçom directa e constante das massas na orientaçom da construçom do novo mundo este nunca se atingirá, mais que no imaginário colectivo imposto pola propaganda do regime.

Primeira Linha como partido comunista patriótico e internacionalista, como organizaçom revolucionária transgessora dos perversos dogmas que tanto dano provocárom ao movimento revolucionário galego e internacional, quer resgatar e incorporar de maneira sistemática e consciente ao processo de construçom do partido da Revoluçom Galega boa parte dos valores e da moral comunista inexistentes no capitalismo de estado vigorante na URSS e nos modelos satélites. A esquerda no seu conjunto, incluída a que se define como revolucionária, necessita um rearme ideológico sustentado na recuperaçom dos genuínos valores e consciência comunista, dessa verdadeira argila da sociedade nova por que luitamos. Pois nom é viável construir um mundo novo se os arquitectos, as operárias, os materiais empregues, som semelhantes aos deste velho mundo que cai a bocados pola desigualdade, polo sofrimento, pola repressom, morte a que condena a sua imensa maioria.

O Che foi pioneiro desta batalha de ideias numha conjuntura desfavorável para as suas teses, porque o regime soviético ainda se achava com suficientes forças para agüentar duas longas décadas mais. Hoje é muito mais fácil aderir às análises e propostas que o Che difundiu por meio mundo, mas é muito mais complicado sermos coerentes com esse pensamento.

Porém, nom se pode ter umha prática verdadeiramente comunista, nem poderemos contar com o apoio do nosso povo e da nossa classe se nom figermos o que dizemos. Hoje, aqui e agora, é viável e possível, ensaiar boa parte das relaçons, a forma de viver e relacionar-se que deve caracterizar o Comunismo.

A humildade, a coerência, a austeridade, a generosidade, o sacrifício, a entrega, a franqueza, a tenacidade, a disciplina, som valores característicos d@s comunistas, e portanto antagónicos com a prepotência, a hipocrisia, o egoísmo, o consumismo e o esbanjamento, a comodidade, a perguiça, o individualismo, o derrotismo, que implícita ou explicitamente promocionam os aparelhos ideológicos e de propaganda do capitalismo, e que se infiltram no pensamento e na prática da militáncia revolucionária.

A militáncia política, o compromisso social nom se deve, nem se pode conceber como umha carga, como umha pesada lousa que oprime e impossibilita termos privacidade e desfrutar ao máximo da vida. Há que concebê-la como umha satisfaçom pessoal que contribui para a superaçom e perfeiçom do individo, para mudar o presente em sentido inverso ao que desejam os poderosos. Refiro-me a satisfaçom do dever cumprido a que apaleva o Che nesse magnífico texto dirigido a Carlos Quijano publicado por um semanário uruguaio em 1965.

Esse “homem novo” de que falava e com o qual sonhava o Che, mas que também praticou em muitos aspectos do seu dia a dia e cujo trágico final é a mais limpa expressom dumha vida coerente, nom deve ficar adiado para um amanhá sem data, para um futuro sem mais precisom que as indefiniçons oníricas. Nom podemos abraçar este tipo de concepçons idealistas. Com todas as imensas dificuldades que representa atingir, ou somente aproximar-se deste objectivo, os comunistas, as comunistas temos o dever de começar a construir seres humanos novos nesta sociedade velha e decadente.

Eis pois um dos mais importantes desafios que Primeira Linha tem para o período que agora iniciamos. Maos à obra!

Viva Primeira Linha!

Viva a Revoluçom Galega!

 

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