Imperialismo promove "revoluçom laranja" na Bolívia

20 de Dezembro de 2006

Reproduzimos um artigo de Heinz Dieterich em que se defende a tese da aposta ianque no modelo de "revoluçom laranja" frente à agressom directa fracassada em diversos países nos últimos tempos.

 

Bolivia: salto qualitativo da “Revoluçom Laranja”, limpeza étnica e terrorismo oligárquico

1. Salto qualitativo da “revoluçom laranja” na Bolívia

A oligarquia separatista de Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija, que promove a destruiçom do governo de Evo Morales, aproximou-se mais um passo deste objectivo, na sexta-feira, 15 de Dezembro. Os cabidos abertos e a massiva concentraçom em Santa Cruz, frente à qual o Governo nom foi capaz de organizar umha manifestaçom de massas da mesma dimensom, som um alerta vermelho sobre a correlaçom de forças no país.

A oligarquia evitou o erro de enfrentar verbalmente o governo central com umha demanda independentista, porque tal exigência teria posto em perigo o amplo apoio que tem nas Forças Armadas que, apesar de continuarem sob o controlo de Washington, poderiam dividir-se perante umha demanda secessionista. No entanto, o objectivo final do processo é absolutamente transparente. Entre as onze características que “deve ter a autonomia regional” e sem as quais os facciosos nom aceitarám nengumha Constituiçom nova, encontram-se varias, que de facto poriam fim ao Estado nacional boliviano; entre elas a prerrogativa da política exterior que anula de facto a soberania do Estado central: “as autonomias, como princípio universal, terám a faculdade de se inserirem de maneira directa no mundo”.

2. A “Revoluçom Laranja” e sua cortina de fumo

Perante um governo desfocado que nom encontra a forma de desarticular a ofensiva da direita para retomar a iniciativa estratégica -e que responde, em conseqüência, com medidas tácticas contraditórias e improvisadas ao avanço das operaçons do inimigo- a direita sabe que o tempo trabalha em seu favor. E enquanto o Governo continua na guerra de papel (pola Constituiçom), Mister Goldberg, o embaixador ianque que balcanizou exitosamente na Iugoslávia, e Mister Negroponte, o chefe da subversom estatal estado-unidense, quem foi o arquiteto dos esquadrons da morte nas Honduras nos anos oitenta, criam organizaçons paramilitares que complementam com o terror social a política de desestabilizaçom dos quatro governadores bolivianos e seus “comités cívicos”.

A “revoluçom laranja”, como novo modelo subversivo empregado na Pátria Grande, substitui parcialmente o modelo de força bruta e confronto direto empregado polo imperialismo anglo-estado-unidense-sionista da liga de Bush. As pretensas negociaçons com a Venezuela, as ofertas a Cuba, a destituiçom de duas/três oficiais pinochetistas, os discursos evangélicos de Goldberg na Bolívia, todo isto é o resultado da forte derrota da falange anglo-estado-unidense-sionista no Iraque, Irám, Libano e Palestina. Nom é mais do que umha mudança conjuntural de táctica que conserva os fins estratégicos do modelo anterior.

3. O terrorismo oligárquico em Santa Cruz

O seguinte testemunho, escrito por jovens simpatizantes do movimento de Evo Morales em Santa Cruz, que fôrom vítimas do terror dos heraldos da autonomia, dam fé das intençons reais de Washington e dos seus oligarcas bolivianos. “Continuam as agressons do Comité Cívico e cada vez há umha presença mais débil do Estado”, foi o título original da testemunha.

“O poderio económico da oligarquia cruzenha e, portanto, a sua capacidade de mobilizaçom de grupos de choque estám a encurralar em Santa Cruz os movimentos sociais que luitam polos direitos das maiorias empobrecidas. As injustiças sociais e os interesses que os mantenhem encontram-se bem protegidos por aparelhos de choque que a partir do Comité Cívico Pró Santa Cruz se coordenam para aplacar e meter medo às maiorias para que estas deixem de actuar. Este aparelho estruturado funciona como umha disciplinada fracçom fascista que selecciona dirigentes para amedrontá-los e começar a descabeçar líderes.

Nas últimas semanas, tenhem estado sucedendo, cada vez com maior freqüência, casos concretos deste tipo como os sucedidos aos colegas de Direitos Humhanos e do MAS (partido de Evo Morales) que fôrom agredidos tanto na sua integridade física como nas instalaçons em que trabalham. Concretamente, o testemunho da colega Mónica Flores, que foi agredida com os colegas do MAS, é a seguinte:

“No dia primeiro de Outubro de 2006, estávamos reunidos polas 7 da noite na direçom departamental do MAS com alguns colegas de vários distritos e companheiros camponeses da província Guarayos. Nesses momentos chegárom jovens em carrinhas jeep 4x4, Monteros e outros automóveis de luxo com vidros fumados e sem placas, chegárom com jornalistas da rede televisiva UNITEL à cabeça da motorista Nardy Rodríguez, três mulheres do Comité Cívico Feminino: Susana, Petronila e outra, mais os jovens que somados eram como cinqüenta. Destroçárom todo o mobiliário com cacetes, paus e petardos que disparavam apontando a nossa humanidade.

A minha companheira Elvira defendeu-se das agressons com o que tinha a mao e, por defendê-la, encurralárom-me e batêrom-me no rosto com o chicote com que se bate aos cavalos. A chicotada deixou-me um hematoma e um susto que ainda nom me passou. A polícia nunca chegou quando era precisa, e só apareceu meia hora depois. Depois do acontecimento, fomos apresentar a denúncia ao comando policial, onde nom nos atendêrom e ficamos à espera da chegada do “fiscal” da polícia, e apenas duas horas depois foi que pudemos apresentar a denúncia.” Cabe notar que até o dia de hoje nom há nengum detido e o processo está estagnado, embora se conte com as provas mesmas das imagens da televisom, mas nom houvo avanços no caso.

Depois deste acontecimento, deu-se outro caso ainda mais grave e que recebeu mui pouca cobertura polos meios, apesar de que o facto sucedeu nas portas mesmas da Rede UNO de televisom. Nelson Serrano, o companheiro Presidente das Juventudes do MAS de Santa Cruz ia debater e defender na televisom à dirigência, que à cabeça do colega Lucio Vedía defendia os direitos dos camponeses frente às agressons da Uniom Juvenil Cruzenhista (UJC). A UJC já tinha organizado todo um grupo de choque que nos esperava às portas do canal. Eis o testemunho do companheiro: “O meu nome é Nelson Serrano, som presidente departamental de juventudes do MAS no departamento de Santa Cruz. Em Outubro de 2006, fomos defender os direitos do povo como parte de nossa luita, participamos numha entrevista da rede Uno da televisom, programa “Que no me pierda”. A entrevista consistiu num debate com a Uniom Juvenil Cruzenhista, que nesse momento estava representada por umha pessoa de uns 45 anos do COMITE PRÓ SANTA CRUZ. O nosso objectivo como activistas naquele debate foi denunciar os actos do comité PRÓ SANTA CRUZ, a CAO, e a Uniom Juvenil Cruzenhista contra os camponeses, os trabalhadores da COD (Central Obreira Departamental), quem defendêrom a dirigência legitima do companheiro Lucio Vedia. Outro objectivo nosso foi defender os direitos dos jovens do povo cruzenho.

No debate o senhor do Comité Cívico, que estava acompanhado de duas mulheres, totalmente fora do tema atacárom-nos utilizando qualificativos racistas e discriminatórios. Qualificárom-nos de “mocosos e traidores a Santa Cruz”, de cocaleros “narcotraficantes”. Dixo-nos que por ser “collas” devíamos ir-nos de Santa Cruz. O nosso argumento para nos defendermos foi pedir-lhe que respeite os direitos dos que tinham migrado a Santa Cruz e viviam honradamente. O representante do comité respondeu com prepotência e insultando-nos: “collas” da merda, índios, “maricones”, igual agressom recebemos das duas mulheres que o acompanhavam. Depois deste desafortunado momento onde o condutor do programa Enrique Salazar permitiu que o comité descarregue umha cheia de insultos contra nós, aumentando o volume de seu microfone e tirando o nosso perante a audiência, à saída do edifício do canal às 2 e meia da madrugada mas de trezentos unionistas, gente do Comité Pró Santa Cruz, funcionários da prefeitura e os matones de Cotoca, com armas nas maos (paus, e inclusive armas de fogo) esperavam-nos à porta a gritar: “Evo Cabrom”, “Evo Chola de Chávez”, “Collas da Merda”, e tentárom entrar ao edifício do canal onde ainda nos encontrávamos. Graças a um telefonema da ministra de governo, a polícia resgatou-nos com oitenta efetivos antimotins e quatro patrulhas salvando-nos assim de um linchamento.”

Estas agressons nom podem seguir sucedendo-se nem ficar impunes. O povo organizado tem que conhecer estes factos e denunciá-los. O Comité Cívico nom é dono de Santa Cruz nem tem nengum direito acima do povo para crer-se tal. Denunciamos perante a comunidade internacional estas agressons e exigimos ao Governo que faga respeitar aos bolivianos da presença de interesses das multinacionais que se encontram escondidos nestas organizaçons que se camuflan como cívicas.»

4. Limpeza étnica

A 14 de Dezembro, publicou-se o seguinte panfleto fascista, que lembra os grupos fascistas croatas na Guerra dos Balcáns, em vários departamentos de Bolívia, no qual os cambas (blancos de oriente) chamam à limpeza étnica contra os “collas”, os pobladores e emigrantes indígenas. Transcrevo-o tal qual.

“14 de dezembro do 2006

Chamado à populaçom camba

A “Nación Camba e a Unión Juvenil Cruceñista” convocamos os verdadeiros filhos desta terra de Ñuflo Chavez, ao cabido convocado polos pais desta nossa pátria RUBEN COSTAS E GERMAN ANTELO para declarar a nossa independência e fundar umha nova naçom de gente de raça superior que compartilhe a nossa visom de país, por este motivo solicitamos tua participaçom.

Umha vez acabado o cabido procederemos à tomada das instituiçons públicas como também das empresas que sejam de “collas”, já que todo o que há nestas terras deve ser nosso, os cambas, e nom assim das raças malditas que devem ser eliminadas, já que som umha contaminaçom para nós.

As raças malditas som: Quechuas, Aymaras, Guaranies, Ayoreos, Pupyguaranis, Matacos e todos os que nom som como nós.

Também para que fique claro:

pai camba + mae camba = filho camba puro

pai camba + mae colha = filhos camba

pai colha + mae camba = filho colha

pai colha + mae colla = filho colha

Nom devemos permitir nengumha infiltraçom na nossa naçom. Também lhes pedimos que todo aquele que tem algumha arma, quer de fogo, quer branca, a leve ao cabido, já que desde esse momento começaremos a limpeza étnica.”

 

 

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