Imperialismo espanhol visto por um comunista português: Do fantasma do iberismo à dominaçom espanhola

7 de Novembro de 2006

Reproduzimos o artigo publicado no passado dia 2 de Novembro no jornal português Alentejo Popular, de Beja, polo comunista português Miguel Urbano Rodrigues. Nele, o veterano militante contesta a campanha promovida por meios burgueses espanhóis e portugueses em favor da anexaçom de Portugal por Espanha.

O artigo transparece a falta de suficiente compreensom por parte do autor em relaçom à problemática das naçons sem Estado na Península Ibérica, com destaque para o caso galego. Trata-se de umha carência habitual na esquerda portuguesa, que historicamente tem assimilado a visom unitária madrilena e favorecido assim, sem querer, a hegemonia do mesmo imperialismo espanhol que, com bom critério, quer combater como militante revolucionário português.

Contodo, achamos recomendável a leitura de um artigo que contesta a ofensiva imperialista espanhola em curso; umha ofensiva que começa a afectar ao povo português, graças à colaboraçom de sectores da sua própria burguesia nacional.

Do fantasma do Iberismo à dominaçom económica espanhola

Miguel Urbano Rodrigues

Antes e depois da visita de Cavaco Silva a Madrid, alguns órgaos de comunicaçom social aproveitárom o acontecimento para retirar de arquivos bolorentos o tema do iberismo e agitar esse fantasma. Promovêrom sondagens que apresentárom resultados muito semelhantes. Quase metade dos espanhóis seriam favoráveis à existência de um único Estado na Península e um quarto dos portugueses desejariam a fusom com a Espanha.

O Público dedicou três paginas ao assunto. Numha delas, o correspondente de El País em Lisboa, em tom que navega entre o sério e o irónico, reflecte sobre a hipótese da criaçom de «umha naçom única».

O que chama a atençom nesses s textos e noutros publicados na imprensa é a leviandade da maioria dos comentários e depoimentos e o silêncio sobre duas questons, essas sim, importantes:

1. Nengum dos autores e entrevistados manifesta curiosidade polo súbito interesse dos media pola problemática da integraçom de Portugal na Espanha.

Ninguém pergunta porque se levanta de repente na comunicaçom social esta algazarra tonta em torno do iberismo.

2. Em nengum dos artigos lidos encontrei qualquer referência à avassaladora colonizaçom económica de Portugal pola Espanha.

No labirinto de argumentos invocados a favor e contra o projecto ibérico identifiquei um denominador comum: a conclusom de que portugueses e espanhóis se assemelham como dous irmaos. Até Miguel Bastenier, que discorda da Ibéria única, escreveu na sua coluna de El País, que «nom há dous países que se pareçam mais».

O mito e a realidade

Umha extensa e sinuosa fronteira separa, na aparência artificialmente, Portugal da Espanha. Mas é suficiente atravessá-la e logo, ao entrar nos pueblos e nas vilas da raia, qualquer estrangeiro percebe que somos povos marcados por profundas diferenças.

A história que nos diferenciou com lentidom -somos filhos da Galiza- principiou a cavar abismos culturais entre os dous países após a Revoluçom de 1640 que pujo termo à breve uniom dinástica. A partir de entom, o castelhano, que era de uso comum, inclusive na literatura, entre os portugueses instruídos, quase deixou de ser falado. Portugal voltou-se para França e durante três séculos o povo de Voltaire passou a ser a referência cultural.

Distanciados por um século, Eça e Saramago contemplam e sentem França e a Espanha sob perspectivas que têm muito pouco de comum.

Mas é transparente que a influência de Paris como fonte de inspiraçom, no caminhar do Portugal urbano, nom foi substituída, ao desaparecer, por umha presença espanhola. Para a juventude, as grandes referências som hoje anglo-saxónicas nos mais diferenciados aspectos da vida quotidiana e na adopçom de valores culturais.

É um facto que acultura norte-americana, sobretodo a sub cultura de exportaçom, marca hoje decisivamente o comportamento social da totalidade das sociedades europeias. Os efeitos - do choque produzido nom som, porém, os, mesmos, da Suécia a Itália, de França à Grécia.

Espanha, na transiçom do fascismo para um regime de fachada democrática, tem assimilado o pior do neoliberalismo globalizado e da chamada macworld cultura. O autóctone e o importado fundírom-se numa amálgama na qual a herança mediterránica - sobretodo a de Roma e do Islám- cede perante a ofensiva de um capitalismo cuja peculiaridade regional é de umha enorme agressividade.

A burguesia portuguesa, impressionada polas taxas de crescimento do PIB no país vizinho, cita com respeito o «milagre espanhol». Nem sempre o afirma explicitamente, mas admite que é um factor de peso a favor de umha uniom com Espanha. Espanha passou inclusive a ser um país exportador de capitais, o que suscita a sua admiraçom.

Mas o que é, afinal, esse «milagre»?

O capitalismo espanhol é hoje um dos mais predatórios do mundo. Umha revista tam insuspeita pola sua fidelidade ao neoliberalismo como a Newsweek comparou já a actuaçom na América Latina das transnacionais da Espanha ao conquistador do México Hernan Cortés, responsável pola destruiçom da civilizaçom azteca.

O governo de Madrid repete com orgulho que cinco séculos após a chegada de Colombo ao Novo Mundo os investimentos directos espanhóis na América Latina somente som superados polos dos EUA. Mas por que preço para os países onde o capital espanhol se instala?

Para citar apenas os casos mais chocantes, a Repsol, a Telefónica e o Banco Santander aparecem aos olhos das forças progressistas da Argentina, do Brasil, da Bolívia, da Colômbia e do Chile, entre outros, como polvos tentaculares do capital. Nom apenas pola sobrexploraçom dos trabalhadores, também por surgirem envolvidos em escándalos, roubalheiras e violaçons da soberania dos Estados onde desenvolvem a sua actividade.

Aliás, mesmo encarado sob um ángulo exclusivamente económico e financeiro, o «milagre» espanhol tem pés de barro.

Na ultima década, o motor do crescimento do PIB tem sido o boom da construçom, o que segundo Le Monde e o The New York Times, anuncia tempos difíceis porque o sector imobiliário, saturado, perdeu o dinamismo e acusa o efeito da subida da taxa de juros.

A essa fragilidade soma-se umha grande dependência do turismo, umha fonte de receitas extremamente instável.

Os iberistas, ao esboçarem o panorama de umha Espanha pletórica de energias, exemplo de progresso e criatividade numha Europa estagnada, simulam também esquecer que o país exibe a mais alta taxa de desemprego dos 15 membros da Uniom Europeia anterior ao alargamento.

No aranzel levantado em volta das vantagens e desvantagens da integraçom de Portugal em Espanha nom aludem sequer os participantes no abstruso debate a racismo e à xenofobia que fam hoje da pátria de Cervantes um dos países europeus onde os imigrantes, sobretodo os magrebinos e os equatorianos e colombianos, som mais discriminados.

Nom. Preferem discorrer sobre temas como a localizaçom da capital de umha Ibéria unida, a estrutura institucional do Estado -Federaçom ou simples transformaçom de Portugal em mais umha Regiom Autónoma- e, finalmente que papel seria em todo isso o do Rei D Juan Carlos de Bourbon?

Som mínimas as referências à incapacidade secular demonstrada polo Poder Central espanhol para conviver democraticamente com as naçons hegemonizadas por Castela. Nom obstante, afigura-se-lhes natural que Madrid, repressora da fame de liberdade de bascos e cataláns, poda absorver tranquilamente Portugal.

Na abordagem das peculiaridades que diferenciam e aproximam portugueses e espanhóis, fala-se do bacalhau, do fado, do flamenco, de marialvas e senhoritos, dos dous idiomas, mas em todo essse festim de leviandades nom identifiquei um depoimento que tocasse mesmo ao de leve numa questom de fundo: o modo de encarar a existência, o comportamento no quotidiano de portugueses e espanhóis, sejam estes castelhanos, cataláns ou bascos, por outras palavras, a atmosfera humana, o espectáculo da vida oferecido por ambos os povos.

Essa omissom é definidora da inutilidade e do ridículo da ressurreiçom do fantasma do iberismo. Porque o desencontro de idiossincrasias ilumina bem umha realidade: longe de serem «muito parecidos», portugueses e espanhóis distanciárom-se progressivamente, exibindo atitudes quase antagónicas perante a grande e breve aventura da vida.

Vivo em Serpa, na Margem Esquerda do Guadiana. É suficiente atravessar a fronteira e entrar pola Província de Badajoz ou pola de Huelva e parar em qualquer pueblo para sentir umha profunda diferença. Eles trabalham a horas diferentes, transformam o culto do aperitivo num instrumento de convívio, comem a horas diferentes. O ruído é ali componente da vida, do conceito dos lazeres. Em Madrid ou Barcelona, tam desiguais, essas diferenças na atitude perante a vida, na forma de a percorrer e desfrutar, som ainda mais acentuadas.

Nom critico, registo o inocultável.

Essa especificidade espanhola nom acompanhou os senhores da Conquista. Na América Latina hispano-india, o fluxo do quotidiano - com a única excepçom do México - é balizado pola norma europeia. Come-se, trabalha-se e convive-se em horários semelhantes aos dos países da Uniom Europeia. Outra omissom em todos os textos em apreço, na imprensa de Lisboa e Madrid, é a falta de referências à colonizaçom económica de Portugal por Espanha.

O processo em curso é avassalador. Ha três décadas, Espanha nom existia praticamente como parceiro comercial de Portugal. Hoje ocupa o primeiro lugar nas importaçons portuguesas. Os nossos vizinhos soubérom aproveitar os mecanismos da Comunidade Europeia. Mas nom ocupam somente umha posiçom hegemónica no comércio. A invasom do capital espanhol é diluviana. A banca espanhola conquistou umha parcela importante do mercado português. O mesmo ocorre com a hotelaria e as grandes lojas transnacionais como El Corte Inglês e Zara.

As imobiliárias espanholas invadem as nossas cidades, do Minho ao Algarve. O processo de colonizaçom pacífica, no ámbito do funcionamento do mercado, assume facetas particularmente alarmantes no Alentejo. Capitalistas espanhóis comprárom já as melhores terras no perímetro do Alqueva. Adquirírom milhares de hectares, sobretodo no Distrito de Beja, para criaçom de porcos, instalaçom de lagares e plantaçom de oliveiras e vinhas.

Essa invasom do capital espanhol é obviamente festejada polo Governo de Socrates e pola grande burguesia como muito positiva. Saúdam os investidores espanhóis como empresários agentes do progresso. Agradecem. Com a espontaneidade da nobreza de 1383 a saudar D João De Castela e a nobreza de 1580 a alinhar com Filipe II.

Essa forma de dominaçom económica encobre, afinal, umha modalidade de intervençom imperial.

O correspondente em Lisboa de El País [o jornal Público] garante que «o imperialismo espanhol está definitivamente liquidado». Mas a sua peremptória afirmaçom apenas evidencia que ou desconhece o que seja o imperialismo ou pretende dissipar no berço temores que identifica em amplos sectores do povo português.

Espanha nom tem mais colónias. Nem passa pola cabeça de qualquer governante espanhol conquistar Portugal polas armas. Mas a actuaçom do capital espanhol na América Latina configura umha forma de imperialismo. Embora diferente, mais discreta, a estratégia subjacente à política dos investimentos maciços em Portugal é igualmente inseparável de umha concepçom imperialista das relaçons entre os povos.

Alias, contrariamente ao que sustentam os apologistas da política de Zapatero, apresentada como social-democrata e progressista, ela, no fundamental caracteriza-se pola fidelidade ao neoliberalismo e polo alinhamento com o imperialismo.

O presidente do Governo de Madrid comprometeu-se nas vésperas das eleiçons que levárom o PSOE ao poder a retirar as tropas espanholas do Iraque. Esse foi um grande trunfo eleitoral.

Cumpriu. Mas quase logo fôrom enviados para o Afeganistám forças do Exercito espanhol para ali combaterem, integradas no dispositivo da NATO, a insurreiçom em curso naquele pais. Ora essa é outra guerra imperialista. Espanha é- nom devemos esquecê-lo- um dos países da Uniom Europeia que nos últimos anos tem colaborado mais activamente, através das suas forças armadas, com a estratégia de dominaçom mundial dos EUA. O discurso de Zapatero tenta negar essa evidência. Mas os factos negam-lhe as palavras.

Podem argumentar os defensores do iberismo que Portugal também enviou forças para a Bósnia, Afeganistám e o Iraque por decisom de sucessivos governos. Assim aconteceu. Mas a pequena dimensom desses contingentes é esclarecedora da diversidade de atitudes dos povos de Portugal e Espanha.

Sócrates é um medíocre ambicioso, profundamente reaccionário. No campo internacional as suas tomadas de posiçom reflectem a orientaçom transmitida por Washington. Mas está consciente de que o povo português conserva viva a memória da guerra colonial desaprovou desde o início as agressons ao Iraque e ao Afeganistám, mascaradas de intervençons em defesa da liberdade e da democracia. Daí o carácter inexpressivo da presença de militares portugueses naqueles dous países. Nem Cavaco ousaria dizer-lhes, como o fijo o Rei de Espanha em visita às suas tropas, que estám a servir a Pátria e os mais nobres ideais humanistas.

Para terminar quero esclarecer que admiro muito a outra Espanha, a Espanha mestiça, nascida de culturas diferenciadas, a Espanha de Cervantes (o Quixote, lido e relido, continua a ser para mim um livro de cabeceira) e de Goya, de Dolores Ibarruri e Líster, a que se bateu contra o fascismo e hoje condena nas ruas o neoliberalismo, as guerras imperiais e a monarquia ridícula e corrupta que as aplaude.

Essa Espanha, fraterna, revolucionária, alinha, tenho a certeza, com aqueles, como eu, que apontam como farsa este alarido dos meios de comunicaçom social na campanha que desenterrou o espantalho do iberismo.

Sou, como comunista, internacionalista. Mas aprendim nos combates da vida que o universal mergulha as raízes no nacional.

Miguel Urbano Rodrigues

 

 

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