Rio de Janeiro, Junho de 92: Fidel Castro adverte sobre a iminência do desastre ambiental global

21 de Fevereiro de 2007

Publicamos a intervençom de Fidel Castro na Conferência de Naçons Unidas sobre ambiente e desenvolvimento, realizada em Rio de Janeiro a 12 de Junho de 1992, pola sua inegável actualidade e lucidez, revisitada quase 15 anos depois.

A deterioraçom ambiental que padece o planeta atingiu tal gravidade que nem as potências imperialistas podem já ocultar o que é visível para a maioria dos seres humanos. A mudança climática provocada pola destruiçom dos recursos e a poluiçom gerada polo irracional modo de produçom capitalista vem sendo denunciada desde há décadas polo movimento ecologista e polas forças políticas e sociais da esquerda revolucionária.

Porém, se acreditássemos nas mensagens que difundem os grandes meios de comunicaçom de massas, a denúncia desta situaçom e a adopçom de medidas viriam da mao de certos dirigentes políticos enquadrados na social-democracia, como o ex-vice-presidente dos EUA, Al Gore.

É por isso de grande interesse publicarmos um discurso do dirigente revolucionário cubano que desmente essas falsas apreciaçons.

Discurso de Fidel Castro pronunciado na Conferência de Naçons Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada em Rio de Janeiro em Junho de 1992

Sr. Presidente do Brasil, Fernando Collor de Melo;
Sr. Secretário-geral das Naçons Unidas, Butros Ghali;
Excelências:

Umha importante espécie biológica está em risco de desaparecer pola rápida e progressiva liquidaçom das suas condiçons naturais de vida: o homem.

Agora tomamos consciência deste problema quando quase é tarde para o impedirmos.

É necessário assinalar que as sociedades de consumo som as responsáveis fundamentais pola atroz destruiçom do meio natural. Elas nascêrom das antigas metrópoles coloniais e de políticas imperiais que, por sua vez, engendrárom o atraso e a pobreza que hoje assolam a imensa maioria da humanidade. Com só 20% da populaçom mundial, elas consomem as duas terceiras partes dos metais e as três quartas partes da energia que é produzida no mundo. Envenenárom os mares e rios, contaminárom o ar, enfraquecêrom e perfurárom a camada de ozono, saturárom a atmosfera de gases que alteram as condiçons climáticas com efeitos catastróficos que já começamos a padecer.

Os bosques desaparecem, os desertos estendem-se, milhares de milhons de toneladas de terra fértil vam parar cada ano ao mar. Numerosas espécies extinguem-se. A pressom populacional e a pobreza conduzem a esforços desesperados para sobreviver ainda à custa da natureza. Nom é possível culpar por isto os países do Terceiro Mundo, colónias ontem, naçons exploradas e saqueadas hoje, por umha ordem económica mundial injusta.

A soluçom nom pode ser impedir o desenvolvimento aos que mais o necessitam. O real é que todo o que contribui hoje para o subdesenvolvimento e a pobreza constitui umha violaçom flagrante da ecologia. Dezenas de milhons de homens, mulheres e crianças morrem cada ano no Terceiro Mundo a conseqüência disto, mais do que em cada umha das duas guerras mundiais. O intercámbio desigual, o proteccionismo e a dívida externa agridem a ecologia e propiciam a destruiçom do ambiente.

Se se quer salvar a humanidade dessa autodestruiçom, há que distribuir melhor as riquezas e tecnologias disponíveis no planeta. Menos luxo e menos esbanjamento nuns poucos países, para que haja menos pobreza e menos fame em grande parte da Terra.

Nom mais transferências ao Terceiro Mundo de estilos de vida e hábitos de consumo que arruínam o meio natural. Faga-se mais racional a vida humana. Aplique-se umha ordem económica internacional justa. Utilize-se toda a ciência necessária para um desenvolvimento sustentável sem contaminaçom. Pague-se a dívida ecológica e nom a dívida externa. Desapareça a fame e nom o homem.

Quando as supostas ameaças do comunismo desaparecêrom e nom ficam já pretextos para guerras frias, corridas armamentísticas e gastos militares, que é o que impede dedicar de imediato esses recursos a promover o desenvolvimento do Terceiro Mundo e combater a ameaça de destruiçom ecológica do planeta?

Cessem os egoísmos, cessem os hegemonismos, cesse a insensibilidade, a irresponsabilidade e o engano. Amanhá sera tarde de mais para fazermos o que devemos ter feito há muito tempo.

Obrigado.

 

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