Na morte de Eva Forest: exemplo da intelectualidade que necessitamos

20 de Maio de 2007

Escritora, intelectual, senadora abertzale, activista dos direitos humanos, solidária internacionalista... ontem todos os povos do mundo perdemos um exemplo vivo do que deve ser o compromisso social de um ou umha intelectual, ao serviço da transformaçom social, dos direitos da maioria, contra o imperialismo e os abusos do poder.

Infelizmente, nom há hoje, na Galiza nem na maioria dos países capitalistas, muitos exemplos da estatura ética e intelectual de Eva Forest. Por isso, nom só a sua pátria adoptiva, Euskal Herria, sofre umha tam dolorosa perda.

Todos os povos que luitam por um mundo melhor sofremos com o irmao povo basco o fim de umha vida entregada a a combater a ditadura franquista, a defender os direitos nacionais bascos, a apoiar processos revolucionários como o cubano, a denunciar as torturas no Estado espanhol... a melhorar, em definitivo, as condiçons de existência da maioria.

Como militantes comunistas e independentistas da Galiza, como internacionalistas, somamo-nos à merecida homenagem internacional a Eva Forest com a publicaçom, pola primeira vez no nosso idioma, de um trabalho publicado em 2004 em que, precisamente, reflecte em alta voz sobre qual deve ser a posiçom da intelectualidade perante os conflitos sociais existentes na sociedade em que vivem.

Umha posiçom digna e nítida no caso de Eva Forest, que na Galiza mantivérom vultos hoje também lembrados como Roberto Vidal Bolanho, gigantes na sua grandeza frente à tam abundante como miserável intelectualidade vendida aos subsídios, quer governativos, quer empresariais, e no caso galego às colaboraçons em espanhol oferecidas pola empresa de comunicaçom espanhola da última moda.

O texto seguinte, intitulado "Onde é que se situam os intelectuais?", conserva toda a sua força e vigência, por isso recomendamos a sua leitura vividamente.

 

Onde é que se situam os intelectuais?

Texto para os ASKE-Encontros sobre o Compromisso do Intelectual

Eva Forest

Embora o tema seja muito amplo e a sua complexidade requeresse umha intervençom mais extensa, vou tentar ser breve e ater-me aos vinte minutos que nos pedírom aos relatores para assim dar tempo às perguntas do público e ao debate que, para mim, é o mais importante.

Nom entrarei em considerar o que é que se entende por intelectual, nem em valorizar o seu trabalho científico ou artístico em relaçom às suas repercussons políticas, nem noutros muitos aspectos, alguns dos quais já tenhem sido expostos anteriormente por outros companheiros. Vou limitar-me a apenas assinalar um ponto que sim julgo chave quando falamos de intelectuais e que vem muito ao caso na hora de falarmos do compromisso: é a importáncia de os intelectuais e os artistas terem consciência da sua situaçom social no mundo que habitam e da responsabilidade que tal implica.

Isto, que assim dito parece elementar e até umha obviedade tratando-se de pessoas cujo ofício consiste em grande parte em pensar, em imaginar, em criar e recriar o mundo, nom parece estar mui claro para a maioria na hora de o levarem à prática. Vou explicar-me.

Estám a acontecer cousas gravíssimas no mundo. No Afeganistám, no Iraque, no continuente africano, na América Latina, à nossa volta. Centenas de emigrantes morrem todos os dias perto de aqui, na sua tentativa de fugirem à fame e chegarem à Europa; vemos diariamente as imagens no ecrám das tevês: os seus cadáveres amontoados como lixo, os olhares acusadores dos que sobrevivem, as crianças indefesas de regresso aos seus países onde morrerám de doenças curáveis e de abandono. Vemos os prisioneiros de Guantánamos enjaulados como alimárias, enquanto comentamos o horror comendo batatas fritas com amigos que também se laiam a olhar a TV. Sabemos que em Moscovo, para despejar um teatro, acabam de ser gaseados os seus ocupantes porque se suspeita que entre eles há “terroristas” e isso justifica matá-los como quer que seja. Sabemos que a tortura vai em aumento: tortura-se nos campos de concentraçom do Iraque, nos quartéis da Guarda Civil em Madrid, em Euskal Herria. Sabemos que centenas de presos vivem padecimentos numha crónica agonia nos cárceres da dispersom de Espanha. A Palestina é um inferno de atrocidades que nos enche de vergonha. Estamos rodeados de agressom e barbárie, de acontecimentos provocados pola cobiça de aqueles que açambarcam sem escrúpulos as riquezas. O imperialismo cresce cada vez mais e já parece dominar o mundo, e a partir da sua prepotência dá-se despudoradamente ao labor de efectuar genocídios sem nem sequer ocultá-los. Ontem foi o Afeganistám, agora é o Iraque, talvez depois seja Cuba.

Está a acontecer isto todo sob o nosso olhar de horror, a nossa incompreensível passividade. Obrigam-nos a sermos testemunhas de crimes atrozes. Testemunhas que olham e calam ou que protestam pouco: testemunhas que, com o seu silêncio e a sua passividade, se tornam em cúmplices. Umha cumplicidade que aqueles que vivemos no Ocidente, nestas terríveis democrácias representativas dos países que chamam desenvolvidos, arrastamos como um pesado lastro, sabendo que é umha insidiosa e crónica doença que nos afecta enormemente. Tentamos resistir, escapar, confrontar a terrível ameaça. Procuramos companheiros solidários, que nos dem calor: formar grupo, fazer causa comum. Notar que nom estamos sozinhos, que há outros muitos que resistem: procuramos vozes que denunciem, que dem fôlegos, gritos de rebeldia, de insubmissom, de insurgência: mobilizar a humanidade sensível antes de que ela seja exterminada: que o nosso pequeno e fraco grito se prolongue, encontre múltiplos ecos, alastre por toda a terra, de lés a lés, sacuda e acorde os adormecidos, os anestesiados.

O que é que fai com que, no meio deste panorama tam desolador, nada exagerado embora poda parecer, perguntemos a nós próprios hoje aqui sobre o papel que jogam os intelectuais e os artistas nesta sociedade?

Eles estám submetidos às mesmas pressons que os outros, em maior ou menor escala participam também dos sentimentos descritos. Nom som nem mais sensíveis, nem mais inteligentes, nem mais fortes, nem melhor dotados. Nem menos vulneráveis à corrupçom, nem mais honestos tampouco.

E, no entanto, pensamos que podem desempenhar algum papel nesta sociedade, colaborar na h ora de mudá-la, intervirem de algum jeito na medida que a sua projecçom pública lhes dá umha dimensom que a grande maioria nom tem. Em defintivo, por umha série de razons, parece-nos que gozam –como di Chomsky– de umha situaçom social privilegiada em relaçom a outras pessoas.

Este privilégio, que é relativo e depende de muitos factores e é maior ou menor segundo o grau de notoriedade atingido –nom raro nula, nom esqueçamos–, fai parte do ofício e a maioria das vezes nom pode ser eludido, como no caso de aqueles a quem a fama acompanha. Tal pintor, tal cantor ou cantora, tal prémio Nobel, tal cientista, tal cineasta, som personalidades em ocasions míticas cuja opiniom tem umha grande influência nos media. O que eles dixerem ou figerem, de algumha maneira vai repercutir naqueles que ouçam, ou leiam. Da sua tribuna, podem dar nas vistas, alertar de um perigo, fazer pública a injustiça. Assinalar com o dedo o responsável, dizer “eu acuso”. Isto podemos matizá-lo depois, no colóquio, mas é um facto que a informaçom é mais acessível para eles, que tenhem maiores possibilidades de a difundirem, que idsponhem de plataformas e recursos: estám na rádio, na televisom, som entrevistados, publicam artigos, livros, dam palestras.

Nem o camponês, nem a limpadora, nem o funcionário público, nem o merceeiro da esquina, por mui preocupados que estiverem polos problemas, tnehem a possibilidade de se informarem em fontes nom manipuladas, nem de espalhar essa informaçom, nem de serem porta-vozes de nada.

Esta situaçom, mais ou menos privilegiadas, mas privilegiada ao fim, que converte o intelectual numha personalidade pública e respeitada, implica umha carga de responsabilidade que fai parte do ofício escolhido: quer saiba, quer nom; quer queira, quer nom; o que o intelectual ou artista figer ou deixar de fazer, tem sempre umha repercussom social pola qual, por pequena que for, ele é responsavel.

Tomar consciência desta responsabilidade social que implica a profissom eleita, é um mínimo grande passo que deveria dar todo intelectual com orgulho de ser tal, porque nesse conhecimento é que radica grande parte do seu comportamento futuro. Um passo que o situa na estimulante situaçom de pensar nele e na sua envolvente, de reflectir no posto que nesse espaço ocupa e que, chegado o momento, o capacitará para medir os seus actos e assumir as suas responsabilidades, ou eludi-las. Um passo decisivo que o coloca plenamente no limiar do seu ofício, tam cheio de escolhos e dificuldadese, que nom fijo mais do que começar.

Este conhecimento da sua situaçom enquanto intelectual, à vez que lhe dá notícia das responsabiliaddes que implica, cria-lhe múltiplas dúvidas que o obrigam a tomar decisons que o comprometem, que o amarram e o libertam em simultáneo, que som como pequenas janelas de luz que o pesquisar vai abrindo. É um processo complexo onde se avança passinho a passinho, quase imperceptivelmente, e vai fraguando-se umha consciência mais profunda. Daí a grande importáncia para um intelectual de converter em observatório o seu ponto de partida, de arrancar da torre mais alta a olhar nom só à sua volta, mas para longínquos horizontes que outros nom enxergam. Estou a falar de umha responsabilidade ética elementar, como a que, em maior ou menor grau, acompanha outras profissons, a dos médicos, a dos advogados, a dos engenheiros. Também os intelectuais tenhem a sua como tais, uma responsabilidade que os compromete com o social e que os abre a umha dimensom política que os humaniza.

Dimensom política no senso mais amplo, comum a todos os humanos polo facto de o serem. Nada de extraordinário, mas sim muito importante. Agora, polo menos, umha vez situado, o intelectual já sabe onde é que está; ou onde é que nom está e deveria estar; ou onde é que nom quer estar, porque acha que nada o obriga a estar.

A partir desta tomada de consciência prévia, imprescindível e própria da sua ocupaçom, que é pensar, os contornos um tanto imprecisos que envolvem o conceito de responsabilidade intelctual esclarecem-se e o horizonte despeja-se. Seja qual for a sua leiçom –a de assumir a sua responsabilidade, ou a de nom se responsabilizar e ser um irresponsabilidade consciente–, qualquer umha que ela for, digo, a sua decisom é sempre preferível àquela que é tomada a partir da ignoráncia, porque foi assumida com conhecimento de causa e atrás de si nom deixa nengumha ambigüidade que desoriente –essa ambigüidade em que tantos intelectuais navegam perdidos e tantos outros à vontade polo muito que lhes convém, e que é caldo de cultura da confusom reinante, do oportunismo e da manipulaçom. Essa ambigüidade que, por ela própria, mereceria um capítulo à parte.

Nom estou a falar do ámbito político, quero insistir nisto, embora talvez logo tenha reperscussons políticas o que nele acontecer. Estamos ainda nesta zona em que a persona sensível se movimenta por reflexos morais de justiça, de amor, de solidariedade, perguntando-se, com inocência, os porquês do que vai descobrindo, e assombra-se, estranhado, de cómo é possível que, estando tam perto, nom o tivesse visto dantes. Nom parecia possível que as cousas fossem assim, que a realidade aparente encobrisse tanta verdade ignorada. Tanta injustiça, tanta mentira, tanta desumanizaçom.

Em momentos tam graves como aqueles que enumerei no início, em que estám a acontecer aberraçons mostruosas e horrorosas, provocadas polos estados imperialistas, parece que o mínimo que deveria fazer um intelectual honesto é deixar ouvir a sua voz de protesto e de denúncia.

Basta apenas olhar em volta e assumir dignamente a responsabilidade que lhe di respeito. Utilizar os numerosos ensejos que a sua situaçom lhes coloca, pegar tomar conta dos próprios como intelectual. Porque ele tem os meios e a capacidade criadora própria do seu ofício para intervir. Ele trabalha com a imaginaçom; trabalha com o intelecto. As suas possibilidades som infinitas para dar nas vistas, para mostrar a entranha oculta dos problemas, para enriquecer o discurso e impedir que o belo desejo de que um outro mundo é possível fique petrificado em palavra de ordem. “Nom devo calar por mais que com o dedo, quer tocando a testa, quer a boca, silêncio avises ou ameaces medo”. Dizia o grande Quevedo. E dizia-o belamento em soneto utilizando essa situaçom privilegiada.

Entre nós, temos um exemplo recente que ilustra o que quero dizer: o caso do director do diário Egunkaria, Martxelo Otamendi.

Martxelo Otamendi é detido sob acusaçons terríveis associadas ao terrorismo. É torturado e, pouco depois, posto em liblerdade. E Martxelo denuncia perante o juiz primeiro, perante a imprensa depois e sempre que pode, nas suas conferências e entrevistas a tortura a que foi submetido. Conta o relato dele com todo o pormenor. Sofreu vexames terríveis, insultos, humilhaçons, foi obrigado a despir-se, a permanecer horas de pé, sofreu burlas, foi-lhe aplicada corrente eléctrica, o saco de plástico que produz asfixia, pancadas, ameaças. O que a ele lhe figérom, estám a fazê-lo a diário a todos os que som detidos. Mas essa maioria anónima nom tem voz, nom tem credibilidade, é ignorada. Neste caso, Martxelo falou por todos eles. Recorreu à sua situaçom privilegiada de director de um jornal para contar a verdade. E essas verdade tem sido difundida, ouvida, abriu caminho por entre o muro de mentiras e anda a circular.

Quando o intelectual, consciente da sua privilegiada situaçom, age com coereência e enfrenta o poder, passa a ser um suspeito que corre riscos mui grandes. A martxelo, processárom-no umha outra vez por ter denunciado torturas e recebeu ameaças de morte se continuar a reafirmar-se na denúncia.

Visto friamente e à distáncia, a sua denúncia foi um acto cívico normal –que menos pode fazer um cidadao agredido desta maneira pola Polícia de um país que di ser democrático? Acto cívico que, porém, se converteu num gesto heróico, dadas as condiçons de repressom que estamos a viver no País Basco, e que tivo umha grande repercussom política.

É assim como se complexizam as situaçons. Gestos de dignidade como este som os que, em ocasions, conduzem quem os pratica para posteriores passos políticos de grande trascendência. Alguém nem tinha pensado em ser político, mas um dia descobre que o ser humano consciente nom pode eludir essa condiçom. Pensar e ser coerente com o que se pensa tem os seus riscos. É um caminho difícil, é verdade, toda umha longa aventura que pode condicionar umha vida e que a muitos dá medo ao ponto de a abandonarem. Mas para outros vale a pena face à mediocridade, a anestésia e a morte que nos preparam se nom reagirmos a tempo.

É assim que, por vezes, a partir de um simples comportamento coerente com a sensibilidade e a dignidade, chega um a tomar consciência política profunda. Foi assim que Howard Zinn, que foi bombardeado na Segunda Guerra Mundial e julgava honestamente que vinha à Europa para luitar pola democracia, tomou consciência da mentira e a aberraçom em que tinha sido envolvido e chegou a ser o magnífico historiador da “outra história dos EUA”, e a grande pessoa de admiráveis dimensons humanas e políticas. Foi assim que o Che deixou de ser médico e transformou-se em exemplar revolucionário. Som eleiçons mui respeitáveis todas. Ninguém nasce ensinado e o intelectual e o artista tampouco, mas se toma consciência da sua situaçom privilegiada e resolve agir em conseqüência, pode converter-se na força criadora que abre e ilumina caminhos.

Este aspecto tam elementar nom parece merecer demasiada atençom para quem deveria prestar-lha. Nas democracias formais, ou representativas, para me limitar àquilo que tenho mais próximo e é o meu ámbito próprio, os intelectuais, salvo raríssimas e heróicas excepçons, fecham os olhos e aconchegam-se no poder. Às vezes, de umha maneira mui visível e ostentosa até. Outras, a maioria, de umha maneira mais ou menos soterrada, consentindo a partir da penumbra, ao abrigo sempre da confusom.

Numha democracia como a que padecemos em Espanha, a diferença do que acontecia anteriormente na ditadura, estar com o poder nom exige nengum esforço de ocultamento; ao invés: nem é mal visto, nem dá nengumha vergonha e até é um státus muito desejado. É também cómodo, com nom ver o que nom deve ser visto, com nom escavar em aquilo que nom deve ser arejado. Com tratar do próprio, sem mais, o intelectual da democracia goza de grandes liberdades de expressom. Na nossa “democracia”, pode ser tratado qualquer problema, desde que nom sejam abordados os quatro ou cinco temas tidos por tabus. Caso se faga, há que cuidar muito o tratamento, para o qual há um acordo tácito de que nunca se fala. Já se sabe que a violência é só praticada polos “terroristas”, que a tortura é umha lacra de outros países, de outras latitudes menos civilizadas, que nada tem a ver com o requintado tratamento que a Polícia ou a Guarda Civil dam aos detidos. Quanto ao basco, é este um problema ancestral, de fanáticos separatistas que nom tem razom em plena modernidade do século XXI. Cuba, por seu turno, é sempre umha ditadura que vai cair um destes dias desde há quarenta anos.

Pequenas cumplicidades sem importáncia que trarám a quem as aceitar compensaçons em múltiplas formas. Ao poder convém ter intelectuais deste género, gente dócil que acata e se acomoda, que está aí a agasalhar em silêncio, que nem fam ruído, nem incomodam, que em ocasions, quando o alvoroço de algum acontecimento o requerer, inclusive aparentam criticar severamente o sistema para assim o reforçarem. Gente que, quando se debruçam em público repetem despudoradamente algum “nós os democratas”, e ficam assim satisfeitos. O poder mima-os, gratifica-os, premeia-os.

Mas da mesma maneira que premeia uns, pune os dissidentes, como acabamos de ver com Otamendi. Aquela situaçom privilegiadas, da noite para o dia, converte-se em perigosa.

Questionar a “democracia”, numha democracia formal, é umha falta muito grave, muito mais do que parece, porque quem governa parte sempre de um princípio, elevado à categoria absoluta que rege qualquer discussom, segundo o qual numha democracia “nunca acontecem estas cousas tam terríveis”: nom se tortura, nom se violam os direitos humanos, é falso que nom haja liberdade de expressom. Som calúnias inventadas polos terroristas. A acontecerem e serem demonstradas, som excepçons, actos isolados de algum louco que se descomediu e que nom fai senom confirmar a regra do afirmado. Desta óptica, o que, nom levando em conta as subtis advertências, teimar na denúncia, passa a ser um inimigo. Um inimigo que, imediatamente, será relacionado com os terroristas, ou com a envolvente dos terroristas, ou com a envolvente da envolvente dos terroristas. Se estivermos perante um intelectual conhecido, o freqüente é que seja iniciada umha campanha de desprestígio que pode acabar por marginá-lo ou considerá-lo um louco.

Quando o intelectual ou o artista se rebelar abertamente contra o poder, entom chega o assédio, a perseguiçom ou, em ocasions, a morte. Nesta sala foi-nos dito nos primeiros dias que alguém sentia vergonha de ser intelectual quando comparado com os trabalhadores. Nom concordo. Pode sentir-se vergonha de tal ou qual comportamento que um tivo, de tal ou qual inibiçom, etc. Mas o intelectual e o artista que toma consciência da sua responsabilidade e se envolve numha luita e é coerente com os seus princípios, nom se diferencia em nada do sindicalista coerente, do camponês coerente, do administrativo coerente. Todos estám envolvidos num mesmo processo e para o poder todos som inimigos a eliminar.

Todo isto que acabei de dizer, tam simples, parece óbvio. Mas muitos nom o sabem. Ou nom querem saber. Ou nom lhes convém em nengum caso que seja dito.

Por isso o digo eu hoje aqui e continuarei a repeti-lo, embora pareça umha ingenuidade.

 

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