Rosas pola Memória em Ponte Areas: Memorial do silêncio

14 de Novembro de 2006

Embora com algum atraso, nom quigemos deixar de informar sobre o acto em homenagem à memória d@s represaliad@s polo fascismo espanhol em 1936 e seguintes na vila de Ponte Areas, um acto emotivo organizado pola Comissom local que trabalha na reivindicaçom da Memória Histórica e que contou com a participaçom de familiares de assassinados e assassinadas. Apresentamos a bela crónica redigida polo historiador Ángel Rodríguez Gallardo, participante no acto.

Memorial do silêncio

7. Rosas pola Memoria

Por Ángel Rodríguez Gallardo

29 de Outubro de 2006. No alto da Glória, no cemitério de Ponte Areas, desdobra-se umha manhá de outro na memória. Várias dúzias de vizinhos e vizinhas da vila do Tea, provistos e provistas de bandeiras comunistas, nacionalistas e republicanas mas, sobretodo de cinqüenta e oito cravos, convocarom-se para dedicar a primeira Homenagem Pública aos cinqüenta e oito represaliados do concelho ou no concelho de Ponte Areas entre 1936 e 1939.

Ali, no muro do cemitério, apertevam-se o relato do assassinato de Javier Esteves Viana, imolado por umha patrulha de falangistas na mesma parede do campossanto a 14 de Setembro de 1936; ou o setenta cabodano do crime de Hermínio Gonçales Cobelo, crivado polas balas fascistas no derradeiro dia de Outubro também de 1936; ou as mortes dos quatro “asturianos” (Francisco Álvarez Menéndez, Nicanor Braga Ordóñez, Francisco Caiñas López e Baldomero Villabona García), surpreendidos por um esquadrom também de falangistas à saída da vila e assassinados ao passarem o alto da Glória, na ponte de Sam Mateu, a 15 de Fevereiro de 1938, cinco dias depois de terem fugido do campo de concentraçom de Camposancos, no concelho da Guarda, em que se amoreárom como prisioneiros muitos soldados do exéricot republicano procedentes da queda da Fronte Norte, especialmente de Santander e as Astúrias, a partir de fins de Julho de 1937.

A morte desses quatro asturianos deixou pegadas nom precisamente imperceptíveis para os governantes fascistas de Ponte Areas. Os falangistas responsáveis pola morte dos quatro fugidos espancárom-nos brutalmente antes de os fusilarem, tirando-lhes as roupas e algum dinheiro que levavam. Finalmente, figérom-nos enterrar numha vala comum do cemitério da vila. A voz profunda e solidária da assustada e aterrorizada comunidade ponteareá, que soubo do terrível crime, convergiu em que umhas maos anónimas se responsabilizassem de pôr-lhes flores todos os anos no túmulo “dos asturianos”, coincidindo com os arranjos aunais do campossanto ou aproveitando o silêncio tenso da noite para gabear os rijos muros do sagrado. As autoridades e os responsáveis polas suas mortes figérom por investigar quem se encarregava de testemunhar desse jeito, nada nímio na altura, o protesto e a resistência silenciosa de toda a colectividade ponteareá contra esses crimes. Jamais conseguírom adivinhar quem éra o protagonista dessa Homenagem Popular. Possivelmente, proque boa parte da aflita comunidade ponteareá se via tam representada nessas maos anónimas que protegeu solidariamente com o seu silêncio esse acto de rebeldia anual.

Quase setenta anos depois, nessa manhá de 29 de Outubro de 2006, os vizinhos e vizinhas de Ponte Areas nom acudiam ao cemitério ocultos e ocultas polas tebras da noite, nem silenciados ou silenciadas polo ruído da morte do fascismo, senom que compareciam, numha manhá de outro e memória, acompanhados e acompanhadas pola harmónica música tradicional do grupo Avelaina e a singular combinaçom de cores dos cinqüenta e oito cravos e das bandeirolas da esquerda ponteareá comprometida com a recuperaçom dum passado desprezado e esquecido.

Nesse 29 de Outubro de 2006, os vizinhos e vizinhas nom tivérom de gabear o muro do campossanto para renderem umha homenagem aos assassinados polo fascismo, como fazia aquele já nom tam anónimo ponteareám –a memória oral permitiu conhecer a personalidade desse valoroso e atrevido cidadao— que pulava a parede do cemitério para depositar umhas FLORES POLA MEMÓRIA na vala comum dos quatro “asturianos”.

Nessa manhá de 29 de Outubro de 2006, já nom eram só duas maos, como daquela acontecia. Passárom quase setenta anos de omissom e esquecimento até se poderem juntar mais maos para depositar FLORES POLA MEMÓRIA dos cinqüenta e oito assassinados polo fascismo. Umha flor, umha memória. Umha flor por cada assassinado.

Nesse dia de 29 de Outubro de 2006, manhá de ouro e memória, de música e cores, aquelas dúzias de vizinhos e de vizinhas de Ponte Areas gabeárom o muro do esquecimento e pugérom cinqüenta e oito FLORES na vala comum da memória colectiva. Por fim, desde esse domingo de Outubro de 2006, todos os represalidados ponteareáns tenhem a sua FLOR POLA MEMÓRIA. E, doravante, todos os anos, o derradeiro domingo do mês de Outubro, os ponteareáns e as ponteareás comprometidos e comprometidas com a memória e inimigos e inimigas do esquecimento, acudirám aos muros do cemitério no alto da Glória guiados e guiadas polo arrecendo das suas FLORES POLA MEMÓRIA, que depositarám ao pé da perde e por baixo da placa de metacrilato que lembra todos os represaliados pola barbárie fascista.

Antes de escuitar o Hino Galego, interpretado ao jeito tradicional polos risonhos e apaixonados músicos de Avelaina, quatro membros da Comissom pola Memória Histórica do 36 de Ponte Areas entregárom-lhes as primeiras ROSAS POLA MEMÓRIA a quatro assinaladas representantes da dorida memória locla da vila do Tea, filhas de represaliados ou filhas de umha época de morte e barbárie. Para Concepción Goçales Trigo, Maria Josefa Fernandes-Veiga Araujo, Francisca Galego Martins e Berta Mosqueira Pesqueira, fôrom as quatro primeiras ROSAS POLA MEMÓRIA que a referida Comissom quer entregar todos os anos, nesse derradeiro domingo do mês de Outubro, a aqueles membros da comunidade ponteareá que, polo seu labor no ámbito da recuperaçom da memória histórica, mais sobressaírem.

A partir deste emblemático Ano da Memória de 2006, esse destemido ponteareám que desde 1938 rubia pola parede do campossanto para homenagear nom só os asturianos assassinados acarom da ponte de Sam Mateu, mas a todos os assassinados polo fascismo em Ponte Areas, já tem sucessores: os vizinhos e vizinhas comprometidos e comprometidas com a Memória Histórica de Ponte Areas, os representantes legítimos de pôr em andamento um Plano Geral de Ordenaçom do Nosso Passado.

 

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