Esquerda, política e mercado

14 de Março de 2008

Em plena debacle da esquerda reformista ligada ao PCE no campo eleitoral espanhol, algumhas vozes militantes reflectem sobre a regeneraçom das posiçons anticapitalistas nesse país, fundamentais para a activaçom de um movimento revolucionário no seio do império, que inclua no seu programa emancipatório a solidariedade com os povos basco, catalám e galego na nossa luita pola independência nacional e o socialismo.

O texto assinado polo intelectual Agustín Morán é um exemplo dessas posiçons; é um interessante artigo publicado hoje mesmo polo jornal basco Gara e traduzido por nós ao galego-português.

Esquerda, política e mercado

Agustín Morán membro do centro de assessorias e estudos sociais (CAES, Madrid)

Nas sociedades de mercado, a actividade política é realizada à margem da vida dos e das cidadás. Tal actividade consiste, principalmente, em criar as condiçons que tornem possível a liberdade de empresa e em gerir as suas permanentes crises económicas, ecológicas e bélicas. Embora o caos mercantil nom poderia sustentar-se nem um dia que fosse sem as muletas do Estado, os políticos de mercado esforçam-se para nos convencerem do perigosa que qualquer intervençom política na economia é.

O regime político que permite que a liberdade de empresa tenha mais força do que as liberdades e os direitos cidadaos usa o nome de ‘democracia’. Os políticos, sindicalistas e intelectuais defensores –ou leais opositores– desta ordem, autodenominam-se ‘os democratas’. No regime parlamentar de mercado, a oposiçom fica reduzida a expressons de desacordo verbal entre corporaçons de políticos profissionais que nom tencionam mudar o rumo da sociedade, mas pegar no leme. O pluralismo político limita-se às zangas mediáticas entre o modelo liberal-keynesiano defendido pola esquerda quando está na oposiçom e o modelo neoliberal defendido e aplicado pola direita e pola esquerda quando estám no governo. A oposiçom real é a que nom se produz entre quem considera o capitalismo um facto natural e quem o considera um facto político produto da desigualdade, o domínio e a exploraçom. A existência da esquerda está ligada à oposiçom de massas à ordem totalitária e violenta do mercado. Tal como nom há liberdade sem luita pola libertaçom, nom há esquerda sem confronto com o capitalismo. O vácuo de oposiçom é simétrico ao vácuo de umha esquerda real, entendida como umha teoria e umha prática política substancialmente diferentes da teoria e da prática da direita.

As políticas redistributivas e de igualdade de género devem ser apoiadas. Mas sem esquercer o seu carácter paliativo e a sua dimensom demagógica. Para além da sua positividade parcial, som, sobretodo, um instrumento para a sustentabilidade do mercado, um mecanismo para desactivar qualquer movimento social que avance em solitário e maquilhagem para a esquerda capitalista. As políticas sociais, ecológicas e feministas dos ‘políticos de mercado’ som um pinto de bálsamo face à potência ideológica –construtiva e destrutiva– do enriquecimento e a concorrência.

Romper com o PP é conseguir que a habitaçom, a alimentaçom, a educaçom e a sanidade fiquem fora do mercado, que seja respeitada a autodeterminaçom popular e os direitos e liberdades fundamentais, que os cuidados tenham o nível de actividade primordial para todas e todos e que o governo se mantenha à margem de agressons e crimes de guerra contra todos os povos, o que supom cancelar as bases militares estrangeiras no nosso território e pôr fim à pertença do Estado espanhol à NATO. Mas isto significa romper também com quase toda a política do PSOE. Votar no PSOE significava e significa votar a favor das suas políticas enfrentadas ao PP (5%), mas também significa votar a favor das suas políticas coincidentes com as políticas do PP (95%). Votar no ‘póli bom’ contra o ‘póli mau’ é cumprir fielmente o roteiro escrito para nós. Este roteiro permite que a violência competitiva –mais totalitária quanto mais global– seja livremente despregada. Apesar das suas conseqüências, o auge da economia de mercado explica-se pola sua capacidade para converter a democracia em ‘política de mercado’. Quer dizer, numha ditadura parlamentar do capital.

Qualquer movimento social que nom se deixe subornar nem intimidar, é alvo de criminalizaçom e repressom fazendo caso omisso de liberdades políticas e garantias jurídicas. A dificuldade para luitar pola paz, a democracia e a segurança a partir do interior do regime parlamentar, explica muitas expressons violentas qualificadas como terrorismo. Esta dificuldade consiste na negaçom ‘oficial’ da verdadeira natureza dos conflitos. Mas essa negaçom nom disolve os danos nem fai desaparecer as vítimas dos tais conflitos. O que é esmagado e reprimido acaba por reaparecer de forma destruidora e autodestrutiva.

Estar contra o terrorismo exige identificar as suas causas. Todo o contrário do que foi feito na Comissom Parlamentar que investigou em 2005 os atentados do 11-M-04 em Madrid. Em lugar de analisar a relaçom entre tais atentados e especular sobre o que teria falhado nos serviços de segurança para que os terroristas pudessem colocar as bombas.

Com semelhante premisa, nom admira que a tal Comissom fosse incapaz de chegar a conclusom nengumha. Nem tampouco que, umha vez descentrada a investigaçom, o PP utilizasse este foro com o maior cinismo para proferir as acusaçons mais inverosímeis, burlando-se do parlamento, da democracia, da populaçom espanhola e dos 197 mortos e 1.500 feridos produzidos como umha –primeira– resposta à sua participaçom nos crimes de guerra contra o povo iraquiano, além de outras cooperaçons com o terrorismo de Estado de Israel e os EUA contra o povo palestiniano e outros povos.

A acçom militar em retaliaçom pola lançamento de mísseis caseiros de Gaza contra territórios ocupados polos israelitas, persegue vergar a populaçom civil para que renegue do governo de Hamás, legitimamente eleito. Ao mesmo tempo, a esquerda laica palestiniana fai negócios com Israel e os EUA para destruir o seu rival islámico eleito democraticamente. Quem assessina cada dia crianças palestinianas com os seus blindados e mísseis, consideram terrorista um jovem suicida que fai explodir a sua mortífera carga num autocarro. Com que autoridad e moral é que pode chamar-se ‘terrorista’ a uns e ‘exército’ a outros? Com que argumento pode ser qualificado de esquerda o presidente Manmud Abbas e os seus seguidores?

O debate metafísico sobre que assassinatos som acçons terroristas e quais nom, fai parte da propaganda de guerra. O único importante para dar cabo do terrorismo é a resoluçom dialogada dos conflitos com base na justiça e a democracia. Todo o mais é ruído e tormentas num copo de água entre globalizadores e alterglobalizadores. Às 24 horas de reconhecer o direito de autodeterminaçom como princípio básico de umha constituiçom democrática, terminava a violência da ETA (as outras violências, nom). No entanto, o bipartidarismo que administra a monarquia neofranquista nom pode rever a Constituiçom aprovada sob a ameaça do golpe militar sem pôr em questom a sua própria legitimidade. Por outro lado, ao dia seguinte de retirar Espanha da NATO, de romper relaçons com o Estado terrorista de Israel e trazer os soldados espanhóis do Líbano e Afeganistám, desaparecia o perigo de atentado islamista em território espanhol. Mas a serventida do regime ao imperialismo dos EUA impede ao regime monárquico dar esse passo.

A esquerda capitalista, os movimentos sociais que esta colonizou e o circo eleitoral, fam parte do problema, nom da soluçom. É necessário avançar, sobretodo a partir de fora deste cenário. O que mais lhes dói é que nom executemos voluntariamente o miserável papel que nos atribuírom. Isso exige deixar de apoiar os partidos e sindicatos que, com palavras de esquerda, realizam políticas de direita, mas também esquercer-se dos subsídios e apoios procedentes desse mundo. Deixar de aleijar culpas e comprometer-se com a organizaçom política das vítimas do mercado e do Estado a partir completamente de baixo. O que quiger peixes, terá que molhar-se. Assim será evitado o isolamento de quem luita a sério e serám marcados os limites entre os campos entre a esquerda e da direita, hoje confundidos num bipartidarismo que, através das suas redes clientalares, penetra como umha metástase nos movimentos sociais e na consciência de todos. Por isso ninguém acredita em nada. Muitos milhons de pessoas assalariadas votam no PP porque é mais racional votar no original do que votar nas cópias. Neste contexto, qualquer avanço da esquerda no terreno eleitoral é à custa da liquidaçom dos seus valores ideológicos e da sua memória histórica. Com a nossa fraqueza aumenta a força e a ousadia do inimigo.

Há pouco mais de um ano, ouvim dizer a Teresa Toda, vítima –entre muitos outro– da Audiência Nacional no macroprocesso 18/98: “o sufrimento fai-nos melhores pessoas”. A fortaleza perante a repressom, a lealdade e a firmeza perante os cantos de sereia que premeiam o fura-greves, torna-nos melhores pessoas. Para os políticos de mercado, pragmáticos e oportunistas, este comportamento é próprio de lunáticos. Mas para a regeneraçom política e ética da esquerda, som virtudes incontornáveis que hoje, no Estado espanhol, nom tenhem nada a ver com o mercado eleitoral.

 

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