A crise global que se aproxima e o declínio da aviaçom

17 de Março de 2007

Portugal vive nestas semanas um aceso debate sobre a alegada necessidade da construçom de um novo aeroporto nas redondezas da capital, Lisboa. Um debate que os meios e partidos oficiais limitam à procura da localizaçom concreta com menos "impacto ambiental". O site comunista português resistir.info ultrapassa essa estreita discussom mediática, colocando umha emenda à totalidade e questionando a viabilidade futura do transporte aéreo e, portanto, a rendibilidade de serem construídos empreendimentos tam custosos.

O texto a seguir foi escrito em 2005 e aborda a proximidade do fim do petróleo e o seu efeito na indústria aeronáutica. A sua tese principal é a proximidade da queda radical da produçom de petróleo, conclusom científica que até hoje é obviada pola classe dominante que mantém a toda a máquina os motores do capitalismo mundial.

A crise global que se aproxima e o declínio da aviaçom

Alex Kuhlman. Pós-graduado em Ciências Económicas pela Universidade de Amesterdám

PICO PETROLÍFERO (PEAK OIL)

O mundo nom está a ficar desprovido de petróleo, mas a sua capacidade para produzir petróleo de alta qualidade barato e economicamente extraível de acordo com a procura está a diminuir. Com grandes esforços e despesas, o nível actual de produçom petrolífera poderá possivelmente ser mantido por mais uns poucos anos, mas para além disto a produçom de petróleo deve começar um declínio irreversível. Mais de 95 por cento de todo o petróleo recuperável já foi descoberto e aproximadamente 90% de todas as reservas conhecidas estám actualmente em produçom. Nom tem havido descobertas significativas de novo petróleo desde 2002. O petróleo agora está a ser consumido quatro vezes mais rápido do que está a ser descoberto, e a situaçom está a tornar-se crítica. Isto é um problema irremediável e constitui o desafio mais central enfrentado pola civilizaçom moderna.

ALTERNATIVAS

Nom há fontes de energia prontamente disponíveis que podam substituir o petróleo à medida que ele declinar gradualmente ao longo das próximas décadas. Na sua forma actual, as energias alternativas simplesmente nom som capazes de substituir os combustíveis fósseis à escala, taxa e maneira com a qual o mundo actualmente os consome. O público, líderes de negócios e políticos estám todos sob a falsa suposiçom de que o esgotamento do petróleo é um problema objectivo de engenharia, mas é improvável que a engenhosidade da espécie humana ultrapasse os factos básicos da geologia e da física. Os combustíveis fósseis permitem-nos operar sistemas altamente complexos a escalas gigantescas. As renováveis som simplesmente incompatíveis neste contexto e os novos combustíveis e tecnologias exigidos levariam um bocado mais de tempo para desenvolver do que o disponível e exigem umha base de abundantes combustíveis fósseis para funcionar.

A INDÚSTRIA AERONÁUTICA

O curto prazo:

O petróleo proporciona 40 por cento de toda a energia primária, e aproximadamente 90 por cento da energia no nosso transporte. Para a maior parte das companhias aéreas, o combustível é a segunda maior categoria de despesa, logo após o trabalho. Em resultado directo dos aumentos dramáticos nos preços do petróleo, o custo do jet fuel mais do que duplicou desde o princípio de 2004. A lucratividade das companhias aéreas já estava sob extrema pressom devido à competiçom acrescida, à super-capacidade e a rendimentos mais baixos. Além disso, ataques terroristas tenhem tido efeitos negativos temporários sobre a procura em geral e sobre rotas específicas, enquanto o custo da segurança também aumentou. Mais umha vez, a indústria da aviaçom está a sofrer. Em noticiários recentes, o presidente da Thai Airways e ministro das Finanças da Tailándia exprimiu preocupaçons acerca do futuro dos transportadores em meio a ascensom dos preços do petróleo. Em Agosto aquela companhia aérea anunciou ter perdido 4,78 mil milhons de bath (117 milhons de dólares) no terceiro trimestre depois de ser atingida polo disparo nos custos do jet fuel. Apenas umas poucas companhias de aviaçom tenhem a perspicácia, a coragem e os fundos necessários (ou capacidade de crédito) para protegerem (hedge) os preços dos combustíveis.

A Southwest conseguiu proteger seu preço a 26 dólares para 85% do seu combustível com lucros a aumentarem 41% no segundo trimestre de 2005 em resultado disto. Em 2004, a Delta Airlines manteve posiçons [de hedge] mas foi forçada a vendê-los numa afliçom financeira (cash crunch) de curto prazo. Aqueles hedges teriam protegido cerca de um terço das suas necessidades de combustível. O preço da sua acçom entrou em colapso, passando de mais de 8 dólares um ano atrás para menos de 0,70 dólares hoje. A Continental nom tem hedges este ano em contratos a termo de petróleo. A United Airlines, que pediu a protecçom de bancarrota em Dezembro de 2002, tem 30% do seu combustível protegido (hedged) a 45 dólares. Recentemente, a American eliminou rotas devido ao alto custo do combustível, ao passo que a perspectiva para a Northwet está longe de ser optimista com as suas acçons tem caído de mais de 22 dólares para menos de 4 dólares nos últimos 12 meses, sob o Capítulo 11 da protecçom de bancarrota. A Ryanair protegeu em torno de 45 dólares, enquanto a Easyjet conseguiu cobrir-se a 60 dólares. No curto prazo, o hedging tornou-se umha parte crucial do negócio para a maior parte das companhias de aviaçom que tenhem exito.

O Médio prazo:

Dentro de uns poucos anos, ou mesmo antes, a extracçom de petróleo dos furos será fisicamente incapaz de atender à procura global. Os preços dispararám, propelidos polo pánico do mercado, prejudicando mais umha vez a indústria aeronáutica. Além disso, os preços elevados do petróleo diminuirám o rendimento disponível do consumidor e deprimirám a procura. O número de companhias aéreas carentes de dinheiro aumentará. As companhias mais fracas sem contratos hedging, que de algumha forma conseguírom sobreviver no curto prazo, estám condenadas ao colapso. Além disso, custos de combustíveis mais altos diluirám a vantagem competitiva que tenhem os transportadores de baixo custo. A razom para isto é que como a fatia do custo do combustível em relaçom ao custo total aumenta, a fatia relativa de todas as outras despesas operacionais diminui, enfraquecendo as vantagens do baixo custo em que estas companhias tradicionalmente baseárom o seu modelo de negócio. Um outro efeito possível pode ser um aumento relativo nas viagens regionais em detrimento das de longa distáncia. As companhias de maior êxito provavelmente serám as transportadoras de bandeira do Médio Oriente pois esta regiom beneficiará dos altos preços do petróleo, permitindo que estas companhias se fortaleçam. Os emirados encomendárom 45 dos novos Airbus 380 gigantes, os quais som elementos chave no futuro crescimento da companhia, enquanto peritos acreditam que muitas companhias aéreas árabes farám mais encomendas de Airbus e Boeing nos próximos poucos anos.

Longo prazo:

Num cenário de pior caso, o futuro da aviaçom a longo prazo é desastroso. À medida que os preços do petróleo continuam a ascender, a economia mundial será confrontada com um grande choque que tolherá o crescimento económico e aumentará a inflaçom. O economista chefe do Morgan Stanley previu recentemente que temos umha probabilidade de 90 por cento de enfrentar um "Armagedom económico". Durante o período de transiçom para umha era pós-petróleo, poderá haver interrupçons maciças nos transportes à medida que o declínio global da produçom de petróleo se aprofunda. Haverá inquietaçom social e umha forte reduçom da actividade dos negócios e dos governos, bem como um desemprego muito sério. No final das contas, umha grande proporçom da procura por viagens aéreas será quase completamente destruída, com o risco de a aventura da aviaçom ser eliminada do negócio, com excepçom talvez de um punhado de companhias. As viagens aéreas serám novamente reservadas para os ricos e negócios dos governo e o mundo vam tornar-se outra vez um lugar mais amplo.

As soluçons devem ser fundamentadas na ciência

Se quigermos ter polo menos um vislumbre deste sombrio cenário futuro é vital compreender plenamente o problema. É o que alguns chamam "um problema fora do contexto" — tam distante do nosso ámbito de experiência normal que estamos colectivamente um trabalho árduo para processar isto. O declínio do petróleo é umha certeza e é garantido polas leis naturais que governam o nosso mundo físico, e nada na ciência, na tecnologia ou na engenharia pode impedir. O mundo precisa preparar-se para umha era pós-petróleo e fazer enormes compromissos e sacrifícios para evitar umha crise profunda. Com o pouco tempo que nos resta, precisamos de umha intervençom dos governos de todo o mundo, bem orquestrada e em grande escala, para conservar a base de combustíveis fósseis remanescente que é necessária para desenvolver e implementar fontes de energia capazes de fazer funcionar países como os Estados Unidos —ou mesmo umha fracçom substancial dele— do modo como estamos a fazê-lo funcionar agora. Com umha base energética minguante, pode simplesmente faltar-nos as ferramentas e o tempo para substituir um fluido tam barato, abundante e versátil.

A visom tradicional de economistas de que o sempre criterioso mercado resolverá todos os problemas é umha falácia. O objectivo supremo em todos os países de elevar os rendimentos, os padrons de vida e o PIB tanto quanto possível, constantemente e sem qualquer noçom de limite, é inalcançável. De acordo com as tendências actuais, um país como a China estará a precisar de 88 milhons de barris por dia em 2031, quando a produçom total mundial de hoje é de apenas 84 milhons de barris/dia. Mesmo os níveis actuais de produçom e de consumo som brutalmente insustentáveis com umha base energética em processo de encolhimento. A teoria de que o estímulo económico estimulará descobertas, e de que o mercado manterá o equilíbrio, ignora as sérias limitaçons técnicas de várias tecnologias de substituiçom. Além disso, assume que o lado da oferta pode responder rapidamente no curto prazo, ignorando os longos tempos de execuçom exigidos para quaisquer novos projectos petrolíferos e projectos de energias alternativas começarem a produzir (mais de 10 anos) enquanto abstrai o enorme custo que significa modificar a infraestrutura global de um milhom de milhom (trilliom) de dólares que foi estabelecida sobre preços dos do petróleo sistematicamente baixos (a da aviaçom inclusive).

Finalmente, a teoria económica fundamental falha em relaçom às leis da física e da termodinámica. Por exemplo: ao olhar para equaçons de energia, verifica-se que para extrair petróleo das altamente glorificadas areias betuminosas gasta-se duas unidades de energia para produzir três unidades e o seu valor energético líquido é portanto marginal. Nos dias primitivos da descoberta do petróleo, este rácio costumava ser 1:20. Haverá sempre grandes reservas de petróleo que ficarám na terra pois simplesmente seria preciso mais energia para extraí-las do que o que elas renderiam, pouco importando o preço do mercado.

Devemos mover-nos rapidamente rumo a regulaçons globais que restringirám o crescimento económico e o consumo de combustíveis fósseis a fim de permitir que a transiçom para umha era pós petróleo seja o menos penosa possível. Actualmente é impossível conseguir que as pessoas ou os governos sequer examinem esta questom. Contodo, para prevenir um futuro que é tam drasticamente deslocado em relaçom ao presente, devemos realinhar as nossas ideias com este objectivo e adoptar acçons radicais a umha escala global.

 

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