Quando segurança e repressom som sinónimos

12 de Março de 2007

Oferecemos-vos a traduçom galega do artigo de opiniom publicado ontem polo jornal basco Gara, em que a autora, a hstoriadora Alicia Stürtze, analisa a utilizaçom do medo à insegurança como mecanismo alienante para o fomento da repressom generalizada no capitalismo dos nossos dias. Texto de leitura muito recomendável para (re)conhecer como funciona o sistema pseudo-democrático actual.


Quando segurança e repressom som sinónimos

Alicia Stürtze

Os títulos dos telejornais e jornais lembram cada vez mais os do "El Caso", aquela tam doestada (e tam popular) publicaçom periódica do franquismo, dedicada a "informar" sobre todo o género de abjectos e lúgubres crimes, que descrevia com todo o pormenor e acentuada excitaçom. Tal como agora, que nom há um dia que nom nos dem pormenores de algum sangrento e pitoresco acontecimento, com o mesmo peso informativo (e o mesmo estilo apocalíptico) que as brigas políticas, a corrupçom ou as previsons meteorológicas; e sempre (os tempos som importantes!) mesminho antes ou depois de algumha notícia sobre "terrorismo", kale borroka, imigraçom, drogas, criminalidade cidadá e/ou crime organizado, para assim nos penetrarem mentalmente todo no mesmo invólucro. (Ninguém deveria julgar casual a introduçom, na linguagem jornalística espanhola, da palavra "zulo", ou do kapa basco para referir a luita dos okupas).

A realidade objectiva demonstra a prática impossibilidade de termos umha experiência directa com esse assassino em série com que nos aterrorizam, mas os media empenham-se em nos fazerem sentir subjectivamente que esses criminosos sem escrúpulos e/ou psicologicamente doentes estám aí, ao virar da esquina, no poço das escadas, à nossa espreita, quando saímos do cinema, prontos a nos violarem ou a nos estriparem... e que, segundo nos fam concluir, respondem a umha patologia mental muito parecida com a de personagens "sanguinários" como Fidel Castro ou Hugo Chávez... ou entom, de umha perspectiva muito mais "local", Iñaki de Juana, a quem um psiquiatra em formaçom como o director do "El Mundo", Pedro J. Ramírez, nom duvida em equiparar no seu último editorial com Hannibal Lecter...

O objectivo desta manipulaçom mediática parece claro. Trata-se de que a maioria intoriorize que a insegurança que vitalmente sentimos nom tem nada a ver com a insegurança a que nos conduz a violência estrutural do capitalismo, ficando ligada a umha criminalidade em auge, quer quantitativa, quer qualitativa, que, junto ao seu alter ego do "terrorismo" e a imigraçom, constitui, a dizer dos inquéritos do CIS, um dos problemas mais graves com que a sociedade "democrática" se confronta. Umha insegurança assim caracterizada apenas pode ser combatida com umha intensificaçom da repressom: quantos mais polícias, melhor; quantas mais cámaras públicas e privadas, melhor; quanta maior colaboraçom cidadá, melhor; quanto mais pesadas forem as puniçons, melhor... indefesos perante o "crime", a estratégia é reforçar o sistema repressivo-institucional, incrementar a segurança privada e endurecer a lei.

O binómio insegurança/segurança tem componentes objectivas e subjectivas. Nom há dúvida que nom é igual, nem é percebido igual (ou nom deveria ser) por parte de ricos e de trabalhadores, ou de luitadores, ou pobres ou excluídos. Como tampouco há dúvida que a presença da polícia produz sensaçons diferentes segundo a quem, por razons óbvias. No entanto, o que sim é objectivamente certo é que a insegurança que nesta fase neoliberal do capitalismo padecemos os trabalhadores está relacionada com as drásticas reduçons da protecçom social, a precariedade laboral, a impossibilidade de se aceder a umha vivenda ou de construir um projecto de vida, a concorrência selvagem, a incapacidade de enfrentar dignamente a velhice, a sensaçom de nom controlar a própria vida, a falta de comunicaçom e de solidariedade, o abandono dos espaços públicos, o medo "à rua", o enfraquecimento do sentimento de pertença, de comunicade...

Mas com esse planificado martelar em torno do "crime", conseguem é que canalizemos os nossos medos, insatisfaçons e frustraçons pola estreita via da criminalizaçom dos excluídos e os resistentes, e que desvirtuemos a origem da nossa insegurança que, quer queiramos reconhecê-lo, quer nom, tem umha clara componente nacional e de classe.

Camufladas assim as nossas inseguranças sociais reais, aceitamos o desenvolvimento de um Estado penal e policial com plenos poderes sobre as nossas vidas e impunidade para invadir a nossa privacidade a uns níveis impensáveis há poucos anos. A bem da segurança, apoiamos os projectos de cidade (idênticos todos eles) dos nossos presidentes de Cámaras Municipais-construtores, com os seus bairros-ghettos (policialmente "controlados" uns, "protegidos" outros com "segurança" privada), e os seus espaços públicos convertidos em prisons de cimento, em que vadiar, comunicar-se e/ou concentrar-se é objecto permanente de perseguiçom; excepto, é claro, quando se tratar de gente ordeira como os (neo)franquistas que, como voltárom a demonstrar em Madrid, tenhem carta branca para se exibirem em toda a sua ameaçadora dimensom, quando e onde quigerem.

Umha sociedade com vocaçom punitiva, que se vigia a si própria e é incapaz de identificar que a sua insegurança e a da sua envolvente nom é gerada basicamente por nengum vizinho "suspeito": nem o imigrante que mendiga na rua, nem os que saem a manifestar-se, nem tampouco polos pequenos ladrons... é umha sociedade medrosa, imatura, desequilibrada, egoísta, intoxicada, individualista, paralisada, excludente e perigosa para aqueles que combatem por um mundo mais justo, porquanto confunde luita com insegurança/caos, e segurança e ordem com repressom, puniçom e cárcere. É, pois, umha sociedade com todas as características que mais convenhem à sobrevivência deste capitalismo e este imperialismo selvagens que nos toca a padecer.

Há que reconhecer que os meios de comunicaçom social tenhem feito bem o seu trabalho. A nós é que corresponde procurarmos vias para o desmancharmos.


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