Sermos naçom, para quê?

27 de Dezembro de 2006

Reproduzimos o artigo publicado hoje mesmo no portal informativo galego Vieiros, da autoria de Maurício Castro, dedicado ao debate sobre o significado do carácter nacional da Galiza, a partir das recentes declaraçons públicas do presidente e vice-presidente da Junta sobre o mesmo tema.

Sermos naçom, para quê?

Maurício Castro

Primeiro foi o líder do BNG, Anxo Quintana, numha recente entrevista na TVG, que insistiu em desvincular o reconhecimento do carácter nacional da Galiza do exercício dos direitos que tal reconhecimento deve implicar. Perguntado sobre umha resoluçom do Parlamento canadiano em que se afirmava a naçom quebequesa, perguntou de maneira retórica: "Rompeu o Canadá?" (...) "Nom se passou nada, pois nom?" (...) "Isso mesmo é o que vai acontecer no Estado espanhol quando a Galiza seja umha naçom" (sic).

Esqueceu Anxo Quintana explicar o que dá verdadeiro sentido ao reconhecimento nacional do Quebeque: ter já organizado dous referendos de autodeterminaçom, com um terceiro em perspectiva, e nom umha simples declaraçom vazia ou umha fórmula retórica qualquer no preámbulo de um estatuto de autonomia outorgado. De facto, se o Canadá "nom rompeu", como Quintana dixo, foi porque os votos independentistas ainda nom dérom superado em percentagem os unionistas, e nom porque a declaraçom canadiana seja tam vácua como a que PSOE e BNG querem incorporar ao novo Estatuto.

Em sintonia com o discurso do vice-presidente, o presidente autonómico Emilio Peres Tourinho declarou poucos dias depois, numha entrevista publicada em vários meios escritos, que "ser naçom nom leva associado um Estado, e de certeza a maioria dos galegos nom temos tal aspiraçom".

É bem curioso que estes supostos democratas insistam em interpretar a vontade do povo galego ao mesmo tempo que negam radicalmente a possibilidade de que seja directamente consultado através de um referendo, como tantas vezes tem acontecido noutros lugares, como o próprio Quebeque ou, mais recentemente e mais perto de nós, Montenegro. A pergunta que devem assumir ambos, se realmente querem exercer de democratas, é: "qual o problema se o Canadá ou Espanha rompessem?".

Em lugar disso, a inócua interpretaçom que os líderes do BNG e o PSOE teimam em fazer do que significa sermos umha naçom bate frontalmente com aquilo que afirmam as principais instituiçons e princípios da chamada "comunidade internacional": o exercício do direito à livre determinaçom, ultimamente também chamada "direito a decidir". Sendo isso compreensível no caso do PSOE, declaradamente espanholista, parece dificilmente justificável no caso de umha força que ainda di ser nacionalista galega.

Talvez estejamos, no caso do BNG, perante a única formaçom nacionalista, de um povo sem Estado, que define como seu objectivo estratégico nom a constituiçom desse povo (no caso do BNG, a Galiza) em Estado soberano, mas a integraçom "harmónica" do mesmo no aparelho estatal que historicamente tem tentado e tenta ainda a nossa definitiva assimilaçom.

Curiosa e estreita concepçom dos direitos nacionais essa que, se fosse a única possível no nosso campo nacionalista, poderia conduzir a que os galegos e as galegas perguntássemos: mas, entom, sermos naçom, para quê?

 

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