Trabalhar mais, muitos mais e por muito menos

20 de Fevereiro de 2007

Reproduzimos o artigo publicado no passado dia 11 de Fevereiro polo diário basco Gara, em que a historiadora Alizia Stürtze analisa os mecanismos de funcionamento do capitalismo na sua expressom neoliberal, em relaçom às relaçons laborais e ao combate à consciência da classe trabalhadora.

Trabalhar mais, muitos mais e por muito menos
Alizia Stürtze
Gara

Os dados que recolhe o livro Lisbonne revisité em torno da evoluçom do emprego na Uniom Europeia nos últimos quinze anos nom oferecem dúvida: a destruiçom de milhons de empregos fixos e indefinidos coincide com a criaçom de 13 milhons de novos empregos “flexíveis”, quer dizer, a prazo ou com contratos temporários, aos quais cumpre acrescentar outras formas subreptícias de trabalho-lixo como as exercidas polos estagiários, contratados em práticas ou em formaçom, etc. Acontece que, em pró da “concorrência”, o grande patronato europeu precisa de aumentar a oferta de mao-de-obra, pôr umha massa maior de trabalhadores no mercado, conseguir para 2010 umha taxa de emprego de 70%, aumentando, para tal, o emprego das mulheres e a populaçom imigrante, activando os desempregados, atrasando a idade da reforma e da pensom, fazendo trabalhar deficientes, ciganos e assim por diante (em nome da luita contra a exclusom)…, reduzindo, em definitivo, a “inactividade” e criando um excedente de trabalhadores prontos desesperadamente para serem contratados por um salário e que, no fim de contas, exerçam pressom à baixa dos ordenados e direitos laborais. Nada a ver com essa mensagem “positiva” da multiculturalidade, a diversidade e/ou a integraçom e a igualdade de oportunidades…

É o reino do trabalho flexível, do trabalho precário, do trabalho-lixo, da instabilidade e a sobreexploraçom, das horas extra mal pagas, da escandalosa desigualdade contratual que com tam pouco pudor exibem as instituiçons públicas, as universidades, as caixas de aforro e o sistema sanitário… é a imposiçom de um sistema que serviliza, fragiliza, fragmenta e dessocializa a comunidade assalariada, cuja capacidade de mobilizaçom e negociaçom colectiva destrói, a favor sempre do grande patronato. É, além do mais, um sistema que, como di a Coordenadora de Trabalhadores Precarizados, recentemente criada na Argentina, “formata a alma”: torna quase impossível a criaçom de laços de confiança e as batalhas colectivas, rompe as solidariedades, prioriza a sobrevivência individual e anula as expectativas positivas da populaçom.

Com efeito. A precarizaçom nom apenas consegue que os trabalhadores produzamos mais por menos. Tem graves efeitos na nossa subjectividade. Surpreendentemente, a flexibilizaçom laboral atinge nom apenas o seu objectivo declarado de reduzir os custos de produçom, como suposta forma de aumentar a concorrência, como nos torna ainda obedientes e disciplinados; consegue que nos submetamos sem protesto às novas regras do jogo neoliberal, que reneguemos da nossa identidade como trabalhadores e aceitemos deixar de ser actores sociais para nos convertermos em vulneráveis e indefesos indivíduos. Curiosamente, a reestruturaçom neoliberal permite ao sistema capitalista recuperar altos níveis de estabilidade política e de paz social sem recorrer, como durante o “Estado Providência”, a políticas de carácter redistributivo. Os escandalosos lucros da banca e as multinacionais já nom nos alteram o pulso.

Na medida em que a precarizaçom gera medo, instabilidade, isolamento, fragmentaçom e afliçom, bem como desapariçom das redes de protecçom social e aumento da concorrência entre indivíduos, torna-se um excelente mecanismo de (auto)disciplinamento que nos leva a aceitarmos a doutrina da segurança cidadá e a ideia de nos sabermos permanente vigiados: autocontrolamo-nos e inclusive estamos dispostos a criticarmos o “desobediente” que, para pormos um exemplo tonto, atravessa a caminhar um semáforo vermelho ou fuma num lugar “proibido”.

A precarizaçom das condiçons de vida coexiste, além do mais, com as expectativas de um alto poder de consumo ou que, por lógica, traz consigo umha drástica reduçom da disposiçom ao conflito dos trabalhadores, sobretodo dos mais bem remunerados: na medida em que o trabalho (e a luita colectiva) deixou de ser identidade política, o dinheiro (o que este puder comprar) define-nos como seres sociais (consumistas compulsivos), e é aqui que fica ao léu a grande desigualdade entre fixos, eventuais e toda essa fiada de modelos contratuais que fai incompreensível o convívio entre super subsidiados sindicatos nom verticais (nem os que dim ser de esquerda).

Deste modo, quando as grandes organizaçons patronais europeias voltam a pressionar os governos dos diferentes estados da Uniom (o espanhol especificamente e o seu aplicadíssimo aluno, o Governo basco) para activarem até 2010 aquilo que foi decidido na Cimeira de Lisboa em 2000, tencionam é nom apenas continuar a maximizar os seus lucros em nome da concorrência, mas, além disso, afirmar a estabilidade política, quer dizer, reduzir ainda mais a conflituosidade e conseguir que os efeitos disciplinadores da precarizaçom os fagam voltar de vez aos níveis de “eficiência” que tinham perdido pola necessidade de redistribuirem as riquezas que a existência do referente da URSS e as luitas operárias lhes tinham imposto. O capitalismo mostra assim que nom é unicamente um modo de produçom; é, sobretodo, um sistema de dominaçom integral, social, jurídico-política, institucional, militar, ideológica, cultural…

O capital tem, portanto, mui claro o que é que quer. A nós corresponde achar novas formas de resistência e produzir um novo imaginário com capacidade de transformaçom social. Em caso contrário, o porvenir que nos espera como classe trabalhadora e como povo em luita nom parece, realmente, nada esperançoso.

O será que por acaso já nom nos consideramos subjectivamente nem classe trabalhadora nem povo em luita?

 

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