Do Maio do 68 ao 'é-che o que há'

11 de Maio de 2008

Como é costumeiro, o sistema 'comemora' ao seu jeito mais umha efeméride da história recente das revoltas e contestaçons sociais. Desta vez é o Maio do 68 que salta às capas das revistas e aos ecráns televisivos, para deformar o seu significado ou utilizá-lo como exemplo da inviabilidade de qualquer projecto nom já revolucionário, mas minimamente transformador. O jornalista Antonio Álvarez-Solís desmitifica, neste artigo publicado hoje mesmo no diário basco Gara, o significado do Maio francês e analisa a sua utilizaçom polo poder fascizado na Europa dos nossos dias.

De Maio do 68 ao ‘é-che o que há’

Antonio Alvarez-Solís Periodista

Primeiro sentemos a conclusom a que chegamos após o estudo minucioso desse obscuro tránsito que conduziu desde um passado democraticamente artificioso ao fascista e rotundo perfil que tem o presente: os acontecimentos do Maio francês do 68 nom constituírom umha revoluçom que mudasse os alicerces da história, mas umha revolta sem profundidade que estavá grávida de fracasso. Fôrom mais as vozes que as nozes. Como afirma Eric Hobsbawm, os estudantes, grandes protagonistas do famoso Maio, nom eram revolucionários, “rara vez –afirma o historiador– se interessavam por cousas tais como derrocar governos e tomar o poder”, que é o primeiro que deve fazer umha revoluçom. Eram, simplesmente, filhos de umha confortável burguesia que lhes impediu chegar, contaminando-os, a umha verdadeira praxe revolucionária. Na época eram escassos os estudantes de família pobre e, portanto, objectivamente revolucionários que podiam sentar nas salas de aula da Sorbona. Por seu turno, os trabalhadores que dérom relevo à multitudinária greve geral que paralisou França cedêrom na sua ofensiva simplesmente com a oferta de De Gaulle de aumentar 14% os seus ordenados. Sobre este chao tam frágil, acrescenta Edgar Morin que a grande revolta nas ruas foi “mais do que um simples protesto, mas menos do que umha revoluçom”.

Continuemos com esta focagem, que sustenta perfeitamente a situaçom de extrema serventia a que chegamos, sobretodo as massas ocidentais, sob a pressom do neocapitalismo. Que solicitárom como pedidos finais e profundos os estudantes?: a libertaçom de todos os jovens universitários detidos e maltratados polos móveis, a reabertura da Sorbona e a retirada da política no Bairro latino. Como se vê, nada autenticamente revolucionário e, antes, transaccional. Que demandárom, por sua vez, com aparente energia grevística, os trabalhadores levados a umha miserável condiçom colaboracionista polo aparelho da CGT, o grande sindicato controlado polo Partido Comunista, que impedia sempre o fôlego revolucionário nas massas? Pois isto: retorno imediato às quarenta horas semanais sem perda de salário, reforma aos sessenta anos, liberdades sindicais e cobrança das horas de greve, que passavam, no entanto, a ser horas recuperáveis. Até aí foi que cheogu a famosa revoluçom que, segundo os cegados polo grafitty e as retóricas vazias, estava a mudar o mundo. Mais ainda, após a jugulaçom de aquela vaporosa exibiçom de ruídos e luzes artificiais, a sociedade recuperou em poucos anos a alavanca para o enfraquecimento do emprego, voltou a absorver os partidos de esequerda, como o Partido Comunista, e pontencializou a social-democracia, que já levava mais de meio século a conspirar com as classes reaccionárias para fingir umha fachada progressista.

Segundo a verdade dos factos, tanto a universidade convencional como os sindicatos, alegados dirigentes serôdios da agitaçom, temêrom mais umha vez que a cidadania procedesse na rua à ruína das instituiçons. Os poderes estabelecidos e os que esperam a sua vez de maneira arribista sempre temem perder o cabo da frigideira. Por umhas causas ou por outras, estado, organizaçons sindicais e aparelhos políticos vidrosos tentam que aborte o vulcám. E umha revoluçom consiste, com carácter de tal, na mudança radical da sociedade. Umha revoluçom tem de ter neste caso um espírito de total eliminaçom dos factores que sustentam, directa ou indirectamente, o modelo de sociedade classista. Se nom proceder nessa direcçom, nunca pode falar-se em revoluçom. Na revoluçom soviética de 1917, tinha-se isto tam claro que as massas constituídas em sovietes procedêrom à eliminaçom política dos mencheviques, que levavam no seu seio um czarismo inconfessado e umha social-democracia letal. Eram a glasnost da primeira falsificaçom da tentativa revolucionária. Os mencheviques aspiravam simplesmente à instalaçom de umha Duma e de um poder judicial que agissem libertados da estrutura monárquica, que na Rússia era altamente cruel e invasivo.

Ora, ficou qualquer cousa viva do Maio do 68? Eu acho que sobrevive dele, com quase plena presença, a doutrina que abriu com decisom umha porta ao território da sexualidade. Permita-me o leitor um certo humor –agora que o humor tam mal senta à predominante sociedade fascista, pouco dada àquilo que se chama vamente autocrática– ao dizer que com o maio francês se converteu em liberdade radical a volta às sete da manhá para a casa sem que o outro membro do par poda objectar nada que ofenda a liberdade praticada. Com o Maio francês chegárom à vida cidadá dous direitos, um que custodia a autonomia da queca e outro, já ultrapassado, que eliminava o sutien. O que também nasceu foi a prática do graffity, com já dixemos, que também está a ser absorvido polo poder indissimulado da galeria de arte, a cuja praia chegárom também os corrompidos poderosos.

Tornemos a dizer umhas cousas que esclareçam os perfis de umha revoluçom autêntica. Os grandes acontecimentos revolucionários só acontecem após umha longa preparaçom ideológica, encabeçada por umha vanguarda que trace com sabedoira os esquemas e ponha em andamento a mecáninca chegada umha dada altura. Os grandes condutores revolucionários sabem que umha revoluçom nom tem marcha atrás e que o seu fracasso hiberna os valores para a mudança radical ao ponto que nom só fracassa o facto revolucionário, produzindo também reinstalaçons duras numha populaçom esgotada polo vao intento revoltoso, que apenas serve para os seus dirigentes subirem com comodidade em nome dos méritos exibidos. Exemplos como os de Glucksmann, Eric “o Vermelho” e a colmeia que construírom iluminam esta desonrosa realidade. Estamos hoje, pois, em situaçom muito inferior àquela que chegou a atingir-se com o Estado Providência, que as classes poderosas administrárom como apaga fogos da vontade que aspirava a um outro mundo. A revoluçom é umha cousa demasiado séria e perigosa para a confiar a pessoas que se alçam sobre quatro pedras para ditarem um sermom chegou de indignidades. Maio do 68 nom conduz em França a umha invençom de sociedade justa, preparando antes o caminho para que no deserto que a impudícia dos falsários criou, e que estes atribuem à violência da rua, assente o velho poder, renascido com crueldade vingativa. A grande massa cidadá que acaba por supor naturais, a partir da economia predadora, as leis prevaricadoras e os juízes que lhes servem até a exaltaçom da brutalidade policial e a bençom dos grandes sacerdotes. Por isso essa massa cidadá aceita indignidades que abriga sob o seu guarda-chuva nada menos que essa sentença nojenta de que se deve adminitir o desterro sob a espécide de que ‘isto é-che o que há’. Um sente umha tristeza profunda quando certifica como naçons inteiras apertam as algemas nas próprias maos. A aceitaçom do crime é umha das mais graves questons antropológicas. O ser humano chega a assumir umha abraiante capacidade de submissom.

Mas o que é que levou a esta exultante comemoraçom do Maio do 68? Acho que há duas razons para explicar esta louca adoraçom de aquele vao castelo de fogos de artifício: umha, a de se ter constituído em refúgio de espancados cidadaos que assim figem heroísmo e sacrifício e, a segunda razom, a insidiosa e folclórica admiraçom que dim professar polo maio os poderosos que, enquanto salientam o facto da espontaneidade, o recuperam como um exemplo triste próprio de pessoas de pouco siso. A vacina é boa, nom é, Sr. Sarkozy?

 

 

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