Benigno Álvares: pioneiro do comunismo galego

20 de Fevereiro de 2008

Com esse título, o Centro Social Henriqueta Outeiro, de Compostela, está a divulgar um folheto dedicado ao destacado dirigente comunista de Maceda, morto na luita clandestina contra o franquismo.

Benigno Álvares vai ser a figura central da homenagem que no sábado dia 23 organiza o referido centro social nos jantares de confraternizaçom que organiza cada mês.

O jantar deste sábado é dedicado à nossa cozinha nacional e esta é a ementa:

- Sopa de cozido
- Cozido galego
- Tarta de Santiago e orelhas

Para assistir ao V Jantar Revolucionário organizado pola Assembleia Aberta do CS Henriqueta Outeiro, há que adquirir um cartom ao balcom do local ou ligando para o endereço electrónico (cshenriquetaouteirogz@gmail.com), ao preço de 9 euros.

A seguir, reproduzimos o texto elaborado por membros da Assembleia Aberta do CS Henriqueta Outeiro:

Benigno Álvares
Pioneiro do comunismo galego

Benigno Álvares González nasceu em Maceda, na comarca de Arnóia, ao pé da serra de Sam Mamede, a 11 de Março de 1900, no seio de umha família burguesa, sendo o mais velho de nove irmaos. Demétrio, o pai, tinha umha clínica veterinária e foi Presidente da Cámara de Maceda.

Realizou estudos de primária e secundária em Ourense antes de se deslocar para Compostela e licenciar-se em veterinária com só vinte anos.

A morte repentina do seu pai forçou que se tivesse que encarregar prematuramente da clínica veterinária, onde ganhou fama de “belíssima pessoa” ofertando serviços gratuitos a labregos.

O veterinário de Maceda

Benigno Álvares, conhecido popularmente como o veterinário de Maceda, incorpora-se ao Partido Comunista a finais da década de 1920. A sua detençom em 1930, por causa da sua militáncia revolucionária, provoca um importante movimento de protesto que contribui para alargar a sua fama e prestígio entre amplos sectores populares.

O seu carisma foi determinante na articulaçom do PCE nas comarcas em torno de Ourense, ao longo dos anos prévios ao golpe militar fascista de 1936. Com Luís Souto, António Fernandes Carniceiro, Jesusa Prado, entre muit@s outr@s, logra umha considerável introduçom do marxismo no mundo do trabalho e entre as sociedades agrárias. Em 1934, é eleito por unanimidade Secretário-Geral do Comité Provincial do PCE.

O intenso activismo de organizador colectivo nom impossibilita contínuas colaboraçons na rica imprensa da época. Além de Mundo Obrero, escreve no jornal La Zarpa, fundado por Basílio Álvares e nas revistas Escuela de Trabajo e ATEO dirigidas por Luís Souto.

Percursor da convergência entre luita nacional e emancipaçom social

A figura de Benigno Álvares apresenta certas similitudes com a do grande revolucionário irlandês James Connolly. O líder da insurreiçom independentista da Primavera de 1916 –fusilado polos británicos 12 de Maio desse ano– manifestou em diversas ocasions que camaradas socialistas nom entendiam que fosse um patriota irlandês, e muit@s companheir@s do movimento nacional irlandês nom compreendiam o seu compromisso com o marxismo.

Benigno Álvares foi pioneiro da imprescindível simbiose entre libertaçom nacional e emancipaçom social. Eis a razom pola qual, mais de setenta anos depois da sua morte, continue a ser um desconhecido na historiografia nacional e também entre as geraçons de combatentes revolucionári@s da Galiza. É umha figura incómoda para o reformismo espanholista que deturpa o seu firme compromisso com a liberdade da Galiza, mas também para parte do movimento nacionalista galego, polos seus insubornáveis princípios comunistas.

No IV Congresso do PCE realizado em Sevilha em Março de 1932, ao qual assiste como delegado, provoca um enorme terramoto ao intervir em galego pois “Nom podo falar em castelhano porque na minha terra, no meu país, os labregos, os marinheiros, os trabalhadores todos só sabem do galego para falar. Eu, ainda que passei pola Universidade nom podo falar em castelhano porque, senom, acabam connosco para sempre, esmagam-nos... Eu podia expressar-me em castelhano, mas o certo é que me expresso melhor em galego”. (Declaraçons de Luís Souto em 1977 na revista Teima). Um delegado do Partido Comunista Português exerceu de tradutor entre o mais que provável estupor de boa parte da direcçom do partido.

Nom era nova esta posiçom de Benigno no seio do PCE, cumprindo um papel central na infrutuosa tentativa de convencer a direcçom do PCE. Meses antes já manifestara no organismo galego de direcçom a necessidade de constituir um genuino partido comunista galego padecendo por este motivo ameaças de expulsom.

A imposiçom de candidatos foráneos para encabeçar as listas do PCE na Galiza nom foi silenciada por um Benigno que descrevia a Adriano Romero Cachinero como “o querido companheiro de Jaén que vinha colonizar o nosso marxismo de pureza e lealdade”.

O seu compromisso com a língua, a cultura e os direitos nacionais da Galiza figérom de Benigno Álvares um personagem singular entre a esquerda de matriz espanhola operante na Galiza, e um pioniero de umha realidade hoje na Galiza: a existência de um partido comunista patriótico e internacionalista.

Mas a sua determinaçom e coerência com a Galiza nom se circunscreve a episódios isolados. Na sessom das Cortes de 11 de Maio de 1936, como compromisário para designar o Presidente da República espanhola, explicou, perante a surpresa do hemiciclo, o seu voto em galego.

Após um dos comícios em prol do Estatuto de Autonomia, compartilhado com o seu amigo Alexandre Bóveda, recriminou ao dirigente do Partido Galeguista ser excessivamente brando na reivindicaçom nacional, defendendo a necessidade de reivindicar o exercício do direito de autodeterminaçom.

Dirigente de massas

Como um dos impulsionadores da Frente Popular em Ourense, é designado junto com Alexandre Bóveda candidato nas eleiçons de 16 de Fevereiro de 1936, obtendo um enorme apoio eleitoral. Porém, nom se reconhece a sua acta de deputado após a fraude acordada em Madrid entre as cúpulas dos principais partidos republicanos e a direita para garantir a representaçom de José Calvo Sotelo. Castelao, no Sempre em Galiza, assim o descreve “... ali (no Congresso dos Deputados) fui testemunha da fraude mais escandalosa que inventou a picaresca caciquista de Espanha, repartindo-se o censo de Ourense entre Calvo Sotelo e os republicanos. A impugnaçom das actas de Ourense, dirigida e organizada por Bóveda, tinha por objecto exclusivo dignificar a vida política daquela província, e todos os grupos da Frente Popular de Galiza estávamos preparados para intervir nas novas eleiçons de Ourense e fazer respeitar a vontade do povo. Eu protestei perante o grupo parlamentar de Izquierda Republicana e dixem que ia falar claro e alto na Sala de Sessons. Entom o Presidente advertiu-me, com a maior seriedade, que de nom se aprovarem naquela mesma noite as actas de Ourense, nom só se punha em perigo a vida do Governo, como também a existência da República. Que farsa indigna! Que artimanha indecorosa!”.

A inícios de Abril, atinge um dos seus mais importantes sucessos políticos: a constituiçom de umha Federaçom sindical camponesa que integrava um importante número de sociedades e organizaçons agrárias de toda a “província”.

Nas eleiçons para compromisári@s que designariam o Presidente da República espanhola, realizada a 30 de Abril, obtivo 85.532 votos, frente aos pouco mais de vinte mil que lhe dérom nas amanhadas eleiçons de Fevereiro.

Foi um dos principais artífices da manifestaçom de carácter miliciano do 1º de Maio de 1936, que congregou milhares de pessoas em Ourense como resposta ao terrorismo fascista.

Segundo diversas fontes o PC, chegou a ter a quase 3.000 militantes na “província”, basicamente entre labreg@s e trabalhadores dos caminhos de ferro.

Organizador da resistência antifascista

Ao estalar a rebeliom militar contra a República, Benigno Álvares encabeça a resistência operária e popular, organizando com a sua companheira Henriqueta Igrejas as forças que possibilitam que Maceda nom caia até o dia 21 de Julho. Após a derrota, inicialmente refugiam-se num improvisado esconderijo no faiado da sua casa de Maceda, para mais tarde se ocultar na Serra de Sam Mamede. Posteriormente, estivo escondido no castelo de Monterroso até que, em Janeiro de 1937, organiza a luita guerrilheira na zona de Monte de Ramo. Perante a incapacidade de capturá-lo, devido aos fortes apoios e protecçom social que tinha, a oligarquia ourensana pujo preço à sua cabeça. A marquesa da Atalaia Bermeja oferecia 1.000 pts e um automóvel a quem entregasse vivo ou morto o dirigente comunista.

As notícias do genocídio familiar que provocou a morte de parte dos seus irmaos e da mae, e a agudizaçom da grave doença respiratória fruto das adversidades e dureza da luita clandestina provocárom que tentasse chegar a Maceda para ser tratado por um médico amigo. Sem o conseguir, faleceu de morte ‘natural’ a 11 de Março de 1937, no lugar conhecido como o Penedo, a cem metros da aldeia de Vijueses. Nom foi descoberto até três dias depois, por um falangista local que tentou cobrar a recompensa disparando-lhe um tiro na cabeça.

Posteriomente o seu corpo –antes de ser enterrado numha vala comum no cemitério de Sam Francisco de Ourense– foi amarrado a um camiom que levava duas faixas com as legendas: “Aquí va el veterinario de Maceda” e “Ha muerto el comunismo em Ourense”.

O fascismo, tal como recolhe a contracapa de “El Pueblo Galllego” de 16 de Março de 1937, nom ocultou a sua satisfaçom pola lamentável perda do grande revolucionário galego, publicando a sua foto com umha nota em que se afirma “o tristemente célebre cabecilha comunista, morto pola força, ao resistir quando ia ser detido”.

O corte histórico provocado polas conseqüências do brutal golpe fascista, a prematura morte de Benigno e o exílio de outr@s camaradas que compartilhavam com ele o princípio leninista da necessidade da auto-organizaçom operária em forças autóctones, impossibilitou o avanço de um processo histórico que com total segurança teria dado lugar à constituiçom na Galiza de fins dessa década, ou inícios da seguinte, de um partido comunista revolucionário de ámbito exclusivamente nacional.

Hoje, setenta e um ano depois da sua morte, a esquerda revolucionária independentista lembra e reivindica a sua figura e luita como um indiscutível referente da Revoluçom Galega.

Galiza, Fevereiro de 2008

 

:: Mais informaçons sobre Benigno Álvares

Benigno Álvares na Wikipédia (+...)

Benigno Álvares: internacionalista ou protonacionalista? (Santiago Prol, Abrente nº 26) (+...)

 

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