A democracia espanhola gosta do silêncio

17 de Novembro de 2007

Publicamos o artigo de opiniom escrito por Igor Lugris, escritor e militante independentista, a partir dos últimos acontecimentos acontecidos em Espanha, Països Cataláns, Marrocos e Chile em relaçom à monarquia bourbónica.

A democracia espanhola gosta do silêncio

A “democracia espanhola”, ficou bem reflectida nas palavras do Bourbon na Cimeira “Ibero-americana” de Chefes de Estado e de Governo decorrida no Chile, e nos acontecimentos a que deu lugar.

A verdade é que já o cenário se vinha preparando nos últimos dias, nas últimas semanas: perante o evidente descrédito da monarquia e dos membros da Casa Real espanhola entre amplas e diversas camadas da populaçom do Estado espanhol, sobretodo visibilizadas depois do 'affaire' com a publicaçom satírica El Jueves, e agravada polo facto das queimas de fotografias do Bourbon em diferentes pontos do Estado, especialmente nos Países Cataláns, a maquinaria do sistema pujo-se a funcionar para fazer ressurgir a imagem do rei espanhol. Algumha mente bem-pensante do progressista socialismo eZpanhol e eZpanholista tivo a grande ideia de levar aos Reis a Ceuta e Melilha, às últimas colónias no continente africano, para fazer um alarde de espanholismo, e poder ondear tranqüilamente centenas, milhares de bandeiras.

Os comentários esses dias na imprensa (quando se fala da monarquia, toda a imprensa é “oficial”), eram para rir e chorar. Presumiam todos tanto da espanholidade daquelas duas cidades que um nom podia mais que lembrar-se do famoso ditado: “Di-me do que pressumes, e direi-te de que careces”. Quando tam necessário é repetir umha e mil vezes que Ceuta e Melilha som espanholas, é que mais de umha dúvida oferece essa questom.

Mas o rei espanhol, como os toureiros das praças, saiu em ombros, e as televisons queriam-nos fazer acreditar que aquelas imagens de milhares de “espontáneos” súbditos, e súbditas, “a improvisar” bandeiras espanholas por toda a cidade, e a aclamar das formas mais ridículas possíveis o monarca, eram o fiel reflexo do sentimento que existia unanimemente na Península. A mais de um passárom-lhe novamente pola cabeça as imagens das concentraçons que o Caudilho (que, já agora, foi o único espanhol que elegeu livremente o actual rei), convocava na madrilena praça de Oriente. Só que agora, o progre era dizer que aquilo, o de Ceuta e Melilha, nom estava preparado, que era fruto da espontaneidade popular e do amor ao rei por parte dos seus espanholíssimos súbditos africanos. De socato, o maior problema existente no Estado espanhol era defender a espanholidade dessas duas cidades, e nom o preço da vivenda, o baixo nível aquisitivo dos salários, a subida do custo da vida, os graves acidentes laborais que se repetem dia após dia, ou, por nom citarmos mais exemplos, o terrorismo machista que tranqüilamente impom a sua “normalidade”.

E nessas andávamos, a saborear ainda essa grande epopeia da Casa Real, essa grande gesta heróica e histórica, quando no caminho se interponhem uns “indocumentados”, “atrasados” e “ignorantes” chefes de estado e de governo que se atrevem a dizer as verdades que todos sabem, que todos sabemos, mas que ninguém, num acto dessas características, se atreve a dizer.

E qual é a reacçom do máximo representante do Estado espanhol perante tamanha afrenta? Pois a mesma que vem usando nos últimos anos a “democracia espanhola”: que nom gosto de um periódico? fecho-o; que nom gosto de umha rádio? fecho-a; que nom gosto de umha organizaçom política? ilegalizo-a. Que nom gosto das palavras de um legítimo presidente de Governo de outro estado? mando-o calar. E se nom calar? Pois entom, abandono a reuniom, para nom o escuitar.

A “democracia espanhola” nom atende á realidade: simplesmente, quando nom gosta dela, silencia-a, nega-a, oculta-a. Manda-a calar.

E, com certeza, ao dia seguinte, e posteriores, todos os meios de comunicaçom a repetir incessantemente, sem darem a oportunidade à mais mínima dúvida, que o Bourbon estivera estupendo na sua actuaçom. Nom havia suficientes palavras nos dicionários, todo era desmesurado: galhardia, dignidade, honra, grandeza, esforço, valor, nobreza, valentia, coragem, determinaçom, fortaleza, talento, brio, capacidade, audácia, carácter, autoridade... Devérom terminar com os dicionários de sinónimos esgotados...

Todos a repetir, sem nengum rubor, as louvanças mais exageradas ao monarca, sem se atrever ninguém, em nengumha rádio, periódico ou televisom, a fazer a mais mínima crítica, por pequena que fosse, à atitude do rei espanhol, ao tempo que se ridicularizava e mesmo se insultava Hugo Chávez e Daniel Ortega, Chefes de Estado eleitos democraticamente polos seus povos, e nom eleitos por mandato divino ou por mandato de um anterior ditador fascista.

Se ao dia seguinte, algum meio de comunicaçom venezuelano ou nicaragüense, falasse do Bourbon em termos de 'ignorante', 'maleducado', 'símio', 'nazi' ou similar, a imprensa espanhola estaria a pôr o grito no céu, mas em Espanha bem que se pudérom ler artigos e escuitar opinions a empregar esses e outros qualificativos ainda piores, e sem se darem ao esforço de expor as opinions e as visons da parte contrária. E como todo é umha farsa absoluta, convertem em grande sucesso de tons e politons a famosa frase. (Isso é como quando os británicos, para presumirem do grande amor que o seu povo tem à sua monarquia, ensinam como até tenhem penicos como as imagens da rainha ou do seu filho no fundo...)

Mais umha vez, a democracia espanhola gosta do silêncio: do silêncio de quem se afasta do discurso oficial, de quem ainda resiste à estupidez e à asneira que o pensamento único espanholista pretende impor.

 

Voltar à página principal