Sobre caminhos e modelos de Revoluçom

20 de Junho de 2008

Dentro do debate aberto sobre a vigência da luita guerrilheira das FARC e sobre a importáncia da América Latina como palco das principais luitas revolucionárias e anti-imperialistas actuais, publicamos mais um contributo teórico: um artigo do secretário-geral do nosso partido, Carlos Morais, cuja leitura recomendamos.

Sobre caminhos e modelos de Revoluçom

Carlos Morais, secretário-geral de Primeira Linha e promotor do Capítulo Galego da Coordenadora Continental Bolivariana

“Unidos seremos invencíveis”

Simón Bolívar

Nos dias de hoje, em boa parte da América Latina e das Caraíbas, desenvolve-se um processo de transformaçom social que polos seus conteúdos e programa anti-imperialista, pola dimensom das forças em acçom, situa esta área do planeta como um dos epicentros mais avançados da luita de classes a escala mundial.

O actual cenário estivo precedido polas severas derrotas impingidas à maioria das esquerdas revolucionárias e movimentos sociais no fim da década de oitenta, a perda eleitoral do sandinismo em 1990, polos devastadores efeitos provocados pola queda da URSS, que em combinaçom com as dificuldades para umha imediata vitória militar provocárom o abandono da luita guerrilheira no Salvador e na Guatemala sem mais contrapartidas que a sua integraçom na vida civil. O conflito peruano com as suas peculiaridades e profundas divergências tampouco foi capaz de resistir a brutal embestida imperialista.

Sem obviamente enumerarmos a sua totalidade, fôrom estes alguns dos principais factores da antessala da longa década de políticas neoliberais implementadas no continente. Governos conservadores, alguns com tintes populistas, agudizárom a pobreza e a miséria das massas trabalhadoras e dos povos indígenas, aprofundárom a dependência e a perda da soberania nacional, convertendo boa parte dos estados em simples prolongaçons das multinacionais sediadas em Wasghinton, Madrid e outras capitais ocidentais.

A sensaçom de derrota subjectiva causou profundos estragos no movimento operário e popular, provocando o desarmamento ideológico, a fragmentaçom do enorme capital organizativo e sociopolítico acumulado, gerando desconcerto, perplexidade e confusom, impossibilitando umha resistência geral aos efeitos provocados pola implementaçom das receitas económicas da Escola de Chicago.

Eufórico, do Rio Bravo à Patagónia, o neoliberalismo semelhava ser um fenómeno vitorioso, invencível, difícil de derrotar.

No imenso mapa da nossaAmérica bolivariana só duas trincheiras impossibilitavam a vitória absoluta que procuravam os falcons do Washington para extirpar a semente da Revoluçom. Cuba, entre enormes dificuldades e heróicos sacrifícios, mediante um doloroso tratamento de choque que posteriormente provocaria efeitossecundários de magnitude, foi capaz de superar o colapso económico da Ilha derivado da errónea dependência que mantinha da Uniom Soviética. Logrou sair da grave crise com criatividade, empregando basicamente os seus meios e recursos, nom cedendo aos conselhos, pressons e chantagens provenientes da social-democracia e da ex-esquerda cooptada, comodamente adaptada e instalada naquela nova realidade que erroneamente Fukuyama e o pós-modernismo prognosticavam como eterna.

Mas, além da pátria de Martí, foi a insurgência colombiana a única expressom com dimensom de massas da esquerda latino-americana e caribenha que nom sucumbiu, que nom se deixou seduzir polos envenenados engodos da capitulaçom, disfarçando de logros e avanços populares o que nom fôrom mais que concessons e derrotas estratégicas. As FARC-EP e o ELN nom só nom se deixárom arrastar polas modas imperantes, como, contrariamente à adversa atmosfera imperante, experimentárom um desenvolvimento e avanço nas suas posiçons até o extremo de os especialistas do imperialismo nom descartarem no médio prazo, umha vitória político-militar da guerrilha comandada por Manuel Marulanda, tal como reflectem os planos anexionistas da América Latina do “Documento Santa Fe IV”, feito público no ano 2000.

Superada a ignominiosa década dos Collor de Mello, dos Menem, dos Fujimori, dos Salinas de Gortari, dos Carlos Andrés Pérez, e à medida que os efeitos do capitalismo selvagem nos povos geravam protestos, mobilizaçons, resistências, revoltas, novos sujeitos sociais, novas geraçons de combatentes organizavam-se, abrolhavam entre as luitas que começavam a unificar novamente o continente. As espadas em alto de Tupac Amaru, Tupac Katari, Bolívar, Mariátegui, o Che, Caamaño, Roque Dalton, Santucho, Jacobo Arenas e tant@s outr@s, com o exemplo sempre presente de Cuba, reapareciam na sua genuína dimensom, despreendidos da adulteraçom, das interpretaçons banais, triviais, vulgares, da ilegítima apropriaçom a que tinham sido submetidos polas sipaias elites crioulas, polas oligarquias, pola embaixada, polo reformismo. Retomavam o caminho da emancipaçom fundindo-se com o melhor das tradiçons socialistas do comunismo revolucionário, abraçando-se sem complexos a Marx, Engels, Lenine, Trostki, Gramsci; incorporando as demandas de emancipaçom e liberdade dos povos e das naçons indígenas, das massas pretas e mestiças, do crisol de cores americanas.

O levantamento zapatista de 1º de Janeiro de 1994 tam só foi o primeiro e tímido sinal da enxurrada libertária que posteriormente ia deslocar a oligarquia na Venezuela, quando o movimento popular sob a direcçom de Hugo Chávez ganha as eleiçons, no que foi o segundo capítulo, após o fracasso do levantamento cívico-militar de 1992, da descomposiçom do corrupto bipartidarismo da IV República. Despois véu a vitória de Lula no Brasil, a revolta argentina, as vitórias eleitorais do centro-esquerda em diversos países, contribuindo assim para deslocar as forças tradicionais, abrindo um novo ciclo, a conjuntura actual em que Cuba já nom resiste sozinha. Venezuela, Bolívia, Equador conformam o vértice da onda que desloca a hegemonia imperialista, impossibilitando que os EUA se apropriem dos recursos energéticos e minerais imprescindíveis para aliviar o declínio da sua hegemonia mundial.

Preocupado, aterrorizado pola Primavera libertadora que entre contradiçons e aplicando diversos modelos e velocidades reiniciárom os povos americanos, o imperialismo ianque reage concentrando o grosso da sua artilharia ideológica e militar em continuar a bater com mais força nas duas trincheiras da esperança e do novo abrente: Cuba e Colômbia; acrescentado no ponto prioritário de mira a Venezuela bolivariana. A Administraçom Bush aprofundou o criminal bloqueio da Revoluçom Cubana; lançou a maior campanha de intoxicaçom e criminalizaçom mediática identificando as FARC-EP com o narcotráfico para assim justificar a sua intervençom directa no terreio mediante o “Plano Colômbia”; e curando-se em saúde optou polo que tam bem sabe fazer, polo que antes realizara com sucesso na Guatemala de Arbenz, na República Dominicana de Bosch e Caamaño, no Chile de Allende, na Granada de Bishop, no Panamá de Noriega, e em tantos outros sítios: a queda do processo venezuelano mediante o fracassado golpe de estado de 11 de Abril de 2002.

Os modelos revolucionários

A Revoluçom, tal como a maioria das cousas, nom tem umha única via para o seu sucesso. Quando falamos de Revoluçom, queremos reafirmar sem ambigüidades que nos referimos à Revoluçom socialista, nom a simples retoques e susbtituiçom de elites, o que o Che tam bem exprimiu como Revoluçom socialista ou caricatura de revoluçom na “Mensagem aos povos do mundo”, feita pública na reuniom da Tricontinental de 1967.

A Revoluçom socialista devemos entendê-la como um processo complexo, contraditório, permanente e sempre reversível, de transformaçom e superaçom radical da sociedade de classes na procura da aboliçom das mesmas, mas também do conjunto de opressons derivadas, simbiotizadas, agregadas: nacional, de género, sexual, cultural, intergeneracional (o poder adulto), na incansável procura de construir um mundo novo, erradicando toda forma de dominaçom, para levantar, com a participaçom constante da imensa maioria, umha sociedade presidida pola felicidade e em harmonia com o conjunto da biodiversidade, com a mae terra.

Longe dos inviáveis e bem intencionados desejos do socialismo utópico decimonónico, a Revoluçom socialista afortunadamente sabe, porque asssim o constata mais de século e meio de tentativas, ensaios, experiências, que essa acçom teórico-prática deve manter um saudável afastamento das artificiais construçons das simples engenharias elaboradas em cómodos gabinetes; que para o seu sucesso necessita erguer-se sobre as bases do velho mundo. Só sobre as suas cinzas é factível levantar, com a participaçom de todo o povo, umha nova sociedade, fraguada em novos valores: a democracia socialista.

Porém, neste longo caminho que nom se pode reduzir à simples tomada do poder, há múltiplas vias em funçom das características específicas de cada formaçom social concreta. O que pode ser eficaz e útil num determinado lugar nom serve noutra latitude. Nom se podem aplicar mimeticamente a partir de receitas dos manuais experiências válidas e correctas noutras situaçons históricas, mas que seria um disparate implementá-las de forma doutrinária e rígida nas nossas particulares condiçons.

Devemos estudar e aprender de todas as experiências revolucionárias, sem excepçom. A arte da Revoluçom nom deve desconsiderar nengumha, mas tampouco idealizar e mitificar experiências por muito determinantes que tenham sido no longo fio vermelho da luita de classes.

O marxismo latino-americano, desde o de Mariátegui ao do Che e Fidel, conhecêrom nas suas próprias carnes a desfeita provocada polas leituras e aplicaçons mecanicistas das receitas estalinistas na luita de classes do continente americano.

Nós, os galegos e as galegas, também sabemos um pouco disto. Umha realidade tam afastada geograficamente como a Galiza apresenta nexos em comum com o movimento operário do sul da América latina e nom só. É nom me refiro unicamente à partipaçom directa de compatriotas, de milhares de galegas e galegos emigrados que, fugindo da miséria e marginalizaçom à que o capitalismo espanhol condenava e condena a Pátria de Benigno Álvares, José Gomes Gaioso e Moncho Reboiras, jogárom um papel destacado na configuraçom do sindicalismo de classe e na auto-organizaçom das forças políticas operárias de inspiraçom socialista e comunista, no apoio e instruçom de guerrilhas.

Juventude labrega e operária, e militantes exiliados contribuírom modestamente, mas de forma tangível e clara, para a emancipaçom e libertaçom das sociedades em que fôrom generosamente acolhidos. Desde o México, passando polo Panamá e a Venezuela, até a Argentina ou o Uruguai, lateja coraçom e sangue de homens e mulheres desta Naçom oprimida pola Espanha dos Bourbons contra a qual se levantou Bolívar, e que dous séculos depois da primeira independência continua a aplicar em ambas realidades semelhantes políticas de evidentes traços neocoloniais tam bem sintetizados no ‘porque no te callas’.

Mas as estreitas ligaçons e cumplicidades na luita comum nom só se reduzem à nossa ainda bastante desconhecida participaçom e contribuiçom para a luita americana.

Temos sido vítimas do antidialéctico e conservador dogmatismo estalinista, padecido similares dificuldades, sofrendo parecidas castraçons e negaçons ideológicas, pola refractária e serôdia aplicaçom criativa do marxismo. Compartilhamos semelhantes conseqüências políticas que atrasárom em décadas o avanço popular por termos padecido a desfeita ideológica da influência de um personagem nefasto para o avanço da Revoluçom no cone sul latino-americano e também noutras zonas de América Latina e das Caraíbas. Entre 1932-37, o argentino Victorio Codovilla exerceu no Estado espanhol de delegado da Komintern com poderes plenipotenciários sob a direcçom directa de Dimitrov. Na prática, era o máximo dirigente do PCE e, portanto, responsável polas graves orientaçons e linha política aplicada, sintetizada numha concepçom etapista da Revoluçom, na promoçom da aliança de classes frentepopulista, e na oposiçom ao confronto político-militar, à insurreiçom popular que defende o marxismo tal como magistralmente recolhe Lenine no “Estado e a Revoluçom”. A doutrina imposta por Codovilla impossibilitou a auto-organizaçom operária e popular com base nas concretas luitas de classes das diversas naçons oprimidas por Espanha.

Na Galiza anterior ao golpe de estado fascista que liquidou a democracia burguesa republicana, mediante um holocausto que provocou mais de dez mil mortes nos anos posteriores a 1936, nom foi viável construir um partido revolucionário galego por, entre outros motivos, a oposiçom jacobina da Internacional Comunista, que aplicou teses erróneas baseadas no absoluto desconhecimento da realidade sobre a qual se adoptavam decisons transcendentais. O socialismo num só país desprezava as demandas nacionais, negava a especificidade galega, de igual maneira que era incapaz de entender a realidade latino-americana.

Codovilla, como paradigma da ausência de pensamento próprio, como tutelagem castradora da criatividade e originalidade, nom só atrasou em décadas que os sectores explorados e oprimidos da Galiza se dotassem de ferramentas autóctones de resistência e luita, como contribuiu na América Latina ao deslocamento do proletariado como sujeito de transformaçom, impossibilitando a incorporaçom das naçons indígenas no combate ao Capital, favorecendo o sucesso das falsas saídas populistas como o peronismo.

A casta burocrática que governou a URSS desde inícios da década dos anos trinta do século passado deturpou a funçom original da Internacional Comunista como ente supranacional de coordenaçom, fomento e apoio da Revoluçom a escala global, fazendo da Komintern um enorme instrumento burocrático de controlo e fiscalizaçom, modulando os partidos e organizaçons integrados em simples apêndices, peons sem autonomia, dos interesses de Moscovo para a sua influência internacional e paulatina restauraçom do capitalismo.

Posterioremente à sua dissoluçom em Maio de 1943, seguindo os desejos das potências ocidentais aliadas com a URSS no combate ao nazismo, a imensa maioria dos partidos comunistas continuárom a supeditar as suas específicas linhas políticas aos interesses “superiores” da geoestratégia de Moscovo, abraçando a “coexistência pacífica com o imperialismo” e a “transiçom pacífica ao socialismo” emanada do XX Congresso de 1956 e portanto obstaculizando, quando nom colaborando implicita e explicitamente com o imperialismo nas luitas que abrolhavam no planeta. O M-26 de Júlio e o Exército Rebelde cubano sabem perfeitamente o que opinavam os estalinistas do PSP sobre o assalto ao Moncada e sobre a posterior guerra de guerrilhas após o desembarco do Granma; os independentistas argelinos tivérom que padecer a firme oposiçom do PC francês à sua luita de libertaçom nacional; no Diário da Bolívia, o Che recolhe com precisom a infame traiçom de Mário Monge, secretário-geral do PCB, à guerrilha do ELN; o partido comunista argentino praticamente nom padeceu rabunhadelas durante a ditadura que eliminou mais de trinta mil companheiras e companheiros, liquidando fisicamente as organizaçons revolucionárias.

Som múltiplos os exemplos da nefastas conseqüências provocadas entre povos explorados e oprimidos depender de instáncias alheias, procurar salvaçom em coordenadas foráneas. A história da luita anti-imperialista do século XX está cheia de episódios que assim o constatam. A Galiza nom foi alheia a estes lamentáveis capítulos da história da luita revolucionária: a desmobilizaçom da guerrilha que eficazmente combatia o franquismo na década de quarenta foi umha decisom adoptada no exterior por decisom de Moscovo via Madrid.

A melhor garantia do sucesso do combate revolucionário assenta nas forças próprias dotando-se de umha linha e orientaçom política específica derivada do conhecimento rigoroso da formaçom sobre a que se age, da sua história, correlaçom de forças, tradiçons, culturas, factores subjectivos, etc. O centro de gravidade de qualquer mudança revolucionária tem que estar situado basicamente onde se pretende realizar a transformaçom.

Tampouco existem receitas universais. Nem antes nem agora. Após a queda da URSS, boa parte dos partidos comunistas e também importantes organizaçons revolucionárias optárom pola derrota, precipitadamente deixarom-se arrastar pola propaganda do imperialismo identificando a implosom do socialismo soviético com o fracasso do socialismo.

Na década posterior, seguindo formulaçons elaboradas basicamente por intelectuais das metrópoles europeias, aparecêrom doutrinas que, com carácter universal, pretendêrom novamente impor umha nova receita da transformaçom. John Holloway teorizou sobre a necessária renúncia à toma do poder com base na concreta experiência do neozapatismo chiapaneco; Toni Negri e Michael Hardt prognosticárom um novo imperialismo ideológico sem marines nem intervençons armadas que seria derrotado polas denominadas multidons; Heinz Dieterich, quando era chavista, teorizou sobre a nova via da aliança entre o movimento popular e os militares patrióticos.

Na realidade, nada de novo. Nom som teorias inovadoras, mas adaptaçons do velho reformismo bernsteniano, das ensaiadas vias de Kruschev, Allende, Berlinguer, Marchais ou Carrillo, com umha mais ou menos afortunada linguagem, com os matizes que quigermos acrescentar. Mas todas, sem excepçom, na prática reforçavam e reforçam a propaganda capitalista de que é inviável a sua transformaçom e qualquer construçom de umha alternativa socialista.

Apesar de todas as tentativas de continuar a aplicar esta anestesia paralisante, as duras condiçons sociais impostas polo neoliberalismo, a crise cíclica do capitalismo, facilitou, entre enormes dificuldades e desorientaçons, que nestes quinze anos o movimento revolucionário a escala mundial tenha sentado as bases para a sua recuperaçom e simultánea reconfiguraçom da alternativa da hegemonia socialista, o que na América se começou a designar com o nome do “Socialismo do século XXI”.  

Chavez, o Socialismo e as FARC

Nom fum dos que ficárom impertérritos perante as declaraçons realizadas por Hugo Chávez no programa “Aló Presidente” do domingo 8 de Junho sobre as FARC-EP, a luita guerrilheira e as vias revolucionárias na América Latina, posteriormente secundadas por Rafael Correa, Evo Morales e por algum aprendiz de candidato politicamente correcto como o salvadorenho Maurício Funes.

Nom podia reagir com indiferença ante tam lamentáveis declaraçons e opinions, sobretodo quando partem de um companheiro que estimo, admiro e com o qual mantenho umha elevada sintonia em questons importantes.

Muito antes disto, tinha constatado que um dos grandes defeitos do comandante Hugo Chávez é essa tendência a falar sem suficiente reflexom e conhecimento de causa sobre todo o tipo de temas. Isto provoca que muitas vezes as suas opinions políticas aparentem estar caracterizadas polo erratismo e as influências pessoais dos assesores do momento. Divagar e falar a mais nom som virtudes de um dirigente revolucionário do calibre e da dimensom atingida por Hugo Chávez Frías, sobretodo porque as suas palavras influem, geram opiniom, nom caem em saco furado.

Mas nesta ocasiom o desconcerto inicial sobre os termos e conteúdo da solicitude realizada a Alfonso Cano, novo Comandante em Chefe das FARC-EP após o recente falecimento de Manuel Marulanda, de entregar as prisioneiras e prisioneiros de guerra de forma unilateral, de abandono da luita guerrilheira, pois o método “passou à história” e no caso concreto da insurgência colombiana som a “escusa do império para nos ameaçar a nós [Venezuela]. O dia que se faga a paz na Colômbia acaba a escusa ao império (..) Solicito ajuda; já basta de tanta guerra, chegou a hora de sentar-se a falar de paz”, aceitando a mediaçom da OEA e de diversas potências ocidentais, vai além do natural desgosto, provoca enorme preocupaçom entre as forças que nos consideramos aliadas da Revoluçom Bolivariana e que somos activas na solidariedade internacionalista com esta irmá República Bolivariana, mas que também apoiamos a insurgência colombiana, e temos um enorme grau de coincidência e portanto de simpatia com as FARC-EP.

Sem mais objectivo que contribuir modestamente para o debate ideológico entre camaradas, para o combate de ideias de que falaria Fidel, respeitoso e sem procurar ingerências internas, considero necessário, com toda a humildade revolucionária, transmitir a partir da Galiza rebelde e combativa a opiniom de boa parte das mulheres e homens que, como Hugo Chávez, luitamos e sonhamos por um outro mundo.

As declaraçons tenhem lugar numha conjuntura adversa para a Revoluçom colombiana após o assassinato de Raúl Reyes numha operaçom de aniquilamento em território equatoriano que gorou o avanço no necessário acordo humanitário de intercâmbio de prisioneir@s de guerra; no posterior assassinato de outro destacado comandante, Iván Ríos; na morte natural de Manuel Marulanda, o fundador e dirigente histórico das FARC; numha conjuntura de enorme pressom militar do imperialismo sobre a base camponesa da guerrilha que provoca um repregamento táctico, mas também umhas nada desprezíveis e preocupantes deserçons de combatentes.

Todo isto obviamente é conhecido polo presidente e companheiro Hugo Chávez.

Causas da mudança de rumo

Mas, como analisar o golpe de leme aplicado na política externa da revoluçom bolivariana nessa área quando a finais de 2007 Chávez se implicou a fundo na procura de um acordo humanitário impossibilitado por Uribe? Como interpretar as demandas do reconhecimento das FARC-EP como força beligerante, retirada da listagem de forças terroristas, denunciando Uribe como o que realmente é: o capo de um governo narco-para terrorista, um simples peom do imperialismo ianque para evitar o alargamento do processo de mudança continental, quando este gorou a possibilidade de avanços na negociaçom? Como entender o recebimento público do comandante Iván Márquez, membro do Secretaridao das FARC-EP, no Palácio de Miraflores há uns meses? E, após o ataque contra o campamento móvel de Raúl Reyes no Equador, o envio de tropas à fronteira e a ruptura de relaçons diplomáticas com a Colômbia de Uribe?; E, poucos dias depois na Cimeira de Rio realizada 7 de Março em Santo Domingo, normalizar as relaçons com o criminoso de guerra que ocupa Nariño?; e agora, após as lamentáveis declaraçons aplaudidas polos genocidas, anunciar umha normalizaçom das relaçons entre ambos estados mediante umha reuniom ao mais alto nível entre ambos presidentes antes do 15 de Julho?

Na hora de buscar respostas coerentes e satisfatórias às perguntas, nom devemos desconsiderar os movimentos militares realizados pola armada norte-americana nas costas das Caraíbas, nem a violaçom da soberania nacional venezuelana mediante incursons do exército colombiano denunciadas por Caracas, ou a infiltraçom de paramilitares na Venezuela e no Equador tal como tenhem denunciado as FARC, ou a descarada manipulaçom da informaçom sensível capturada polo inimigo nos famosos computadores a “prova de bomba”.

O Presidente Chavez cometeria um erro estratégico de incalculáveis conseqüências para o futuro da revoluçom continental bolivariana se optasse por sacrificar as FARC-EP com base nas necessidades internas da agenda eleitoral, ou/e nas necessidades geopolíticas de procurar umha conciliaçom com as potências imperialistas europeias, gerando simultaneamente um clima favorável na procura de umha convivência “pacífica” com o o governo norte-americano emanado de umha possível vitória eleitoral de Barack Obama nas presidenciais do vindouro ano.

Reconciliar-se com as potências imperialistas à custa de sacrificar a insurgência colombiana seria reproduzir velhas práticas ensaiadas pola URSS na Guerra de Espanha, na Grécia de 1946, no Curdistám, com diferentes povos africanos, etc.

Se isto for assim, estaria a cometer dous erros mortais que, se bem poderiam garantir a sua continuidade na presidência sem grandes sobressaltos, teriam como custo a renúncia aos mais puros ideais de Bolívar e à sua enorme influência de liderança no processo de mudança continental.

A importáncia das FARC-EP

Nom se pode desconsiderar a dimensom das FARC-EP como a primeira linha de combate entre o movimento popular e o imperialismo. A insurgência colombiana tem sido até o momento a garantia das enormes dificuldades e elevados custos humanos e materiais que provocará umha intervençom militar directa norte-americana em grande escala na área.

Mas a presença das FARC como exército popular defensor da soberania nacional em amplas zonas possibilita a preservaçom de enormes áreas da Amazonia, evitando assim que a enorme biodiversidade, massa de água, recursos energéticos e mineiras sejam apropriados por Washington ou os seus sócios menores. A infame campanha do grupo Prisa contra Venezuela, as FARC-EP e em menor medida contra o Equador e a Bolívia está vinculada aos interesses das multinacionais espanholas por operar sem restriçons nesta área tam cobiçada.

Até o momento, tenhem sido as FARC o verdadeiro contrapoder militar dissuasório de umha nova invasom norte-americana. As Forças Armadas venezuelanas carecem da experiência, coesom, unidade e moral de combate que sim tenhem provado e demonstrado com tenacidade estes 44 anos de insurgência.Com todos os respeitos, é um grande disparate acusar as FARC de ser a escusa de umha intervençom quando tenhem sido o verdadeiro obstáculo para a implementaçom paulatina do plano de anexaçom da América Latina e das Caraíbas. Umha improvável, e sobretodo indesejável, derrota das FARC-EP facilitaria a recuperaçom da influência ianque no centro e sul do continente.

Em segundo lugar, optar por um giro “centrista” do contraditório processo revolucionário bolivariano seria reconhecer a derrota do modelo em curso na Venezuela, provocado polas enormes fragilidades políticas inerentes, derivadas da manutençom do velho Estado burguês e da carência de suficiente força social para realmente avançar na via socialista, para lá da retórica, declaraçons e dos discursos incendiários.

O comandante Hugo Chávez sabe perfeitamente quem som Uribe e Santos, que tipo de regime é, e quem representam. Sabe que nos últimos cinco anos na Colômbia fôrom assassinadas e assassinados polas forças policiais, militares e paramilitares mais de 15.000 camponeses, sindicalistas, activistas sociais, militantes de esquerda. Que, junto ao Iraque e ao Congo, é o país com maior número de deslocados. Que a oligarquia está a tomar posse impunemente de centenas de milhares de hectares arrebatadas aos camponeses. Sabe que a última vez que as FARC-EP tentou empregar a via política impulsionando na metade da década de oitenta a Uniom Patriótica, mais de 5.000 dirigentes, quadros, militantes e simpatizantes fôrom assassinadas e assassinados aplicando um plano de extermínio perfeitamente planificado denominado “Dança Vermelha”. Sabe que a camarilha uribista e os seus generais corruptos nom desejam um acordo humanitário, nom querem umha soluçom negociada ao longo conflito político-militar, pois a guerra é o grande negócio que lhes permite o enriquecimento e a perpetuaçom de um regime genocida que só benefícia a oligarquia e as suas fracçons de apoio.

O companheiro Hugo Chávez também sabe que a sua proposta às FARC-EP e a categórica sentença emitida sobre a utilizaçom dos métodos de luita, pode dificultar, pola crise de incalculáveis conseqüências que pode provocar, continuar a avançar na recomposiçom e coordenaçom das luitas a escala continental e nom só.

Superado o equador do ano 2008, quando comemoramos o 80 aniversário do nascimento do Che Guevara, nom se pode questinar nem descartar a partir de coordenadas da esquerda anticapitalista e anti-imperialista a legitimidade dos diversos caminhos e vias empregadas para combater por um mundo melhor. O “direito à rebeliom” que BRIGA, a organizaçom juvenil da esquerda independentista galega, populariza é e deve continuar a ser um dos insubstituíveis ingredientes do socialismo do século XXI. Criar dous, três, muitos Vietnam nom é umha anacrónica e obsoleta palavra de ordem guevarista. A sua actualidade e necessidade está determinada polas condiçons materiais de vida em que se acham centenas de milhons de trabalhadores e trabalhadoras, crianças, povos inteiros, neste planeta unipolar contra o qual o imperialismo declarou em 2001 umha guerra global que nom se pode afirmar que esteja a ganhar na actualidade.

A utilizaçom de determinados métodos de luita está sempre condicionada pola impossibilidade real de empregar métodos legais com as mínimas garantias. Enquanto existir umha fresta, por mínima que for, para utilizar a “via pacífica”, devemos empregá-la. Longe de qualquer vinculaçom com o fetichismo parlamentarista, assim o entendêrom Lenine e o Che Guevara, que sempre considerárom que a luita armada nom é mais que a prolongaçom da luita política, e som as massas organizadas que devem dirigir a sua emancipaçom sem se verem substituídas por vanguardas sem ligaçom real com o povo. Mas, sem esquecer nunca as sábias reflexons do admirado dirigente comunista português Francisco Martins Rodrigues, recentemente falecido, “o sistema capitalista nom vai evoluir, nem vai desaparecer por si, nem vai entregar o poder, a única perspectiva que existe é o seu derrubamento pola força”.

Na Colômbia de hoje em dia, nom existem as condiçons mínimas imprescindíveis para que o projecto revolucionário das FARC-EP poda agir na estreita legalidade do autoritarismo uribista. A luita guerrilheira continua a ser pois umha necessidade provocada por umhas condiçons que, no essencial, continuam inalteráveis à etapa de Marquetália.

Embora tenha o coraçom dividido numha polémica que nunca deveu existir e muito menos nas formas como se exprimiu, nom tenho a mais mínima dúvida sobre onde situar-me na hora de fazer umha eleiçom.

Como também sei que a melhor maneira de contribuir para a soluçom do conflito colombiano e para o avanço da revoluçom continental e mundial é apoiando as forças revolucionárias insurgentes e a esquerda política e social que, entre grandes dificuldades, combate no dia a dia por umhas condiçons laborais dignas, pola direito a cultivar a terra, polos povos indígenas, polas liberdades democráticas, polo direito à vida e contra o criminoso regime.

Nesta naçom europeia negada pola Espanha imperialista sim podemos contribuir. Como? Reforçando a construçom do nosso movimento de libertaçom nacional e social de género, mas também intervindo no combate ideológico. Fazendo frente à obscena manipulaçom mediática que identifica as FARC-EP com o narcotráfico, combatendo a injusta estigmatizaçom que padecem, difundindo o programa e motivaçons da sua luita, reforçando os laços de amizade e cooperaçom com a Coordenadora Continental Bolivariana, dando a conhecer a nossa luita entre a esquerda latino-americana e caribenha, solicitando ao movimento popular que pressione para que o governo espanhol retire as FARC da lista de organizaçons terroristas e as reconheça como força beligerante.

Galiza, 17de Junho de 2008

 

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