Carta aberta a Miguel Cáncio, tránsfugas, amnésicos e cobardes

28 de Fevereiro de 2008

É um fenómeno conhecido e interessante o das conversons de antigos revolucionários ou militantes anti-sistema convertidos em opinadores ao serviço do mesmo sistema que combatiam. O acontecido na Faculdade de Económicas de Compostela aquando da visista de Maria San Gil serviu para vermos alguns desses vira-casacos em acçom.

Carlos Morais, secretário-geral do nosso partido, dirige neste artigo uma carta a um desses esquerdistas arrependidos transvestidos em sabichons a soldo: Miguel Cáncio.

Carta aberta a Miguel Cáncio, tránsfugas, amnésicos e cobardes

Carlos Morais

“Borrell chega a Económicas da mao do seu Secretário de Estado Perez Tourinho, ex-membro da executiva do PCG, que vem de ser denunciado no Parlamento polo arranjinho de 5 quilinhos do seu gabinete. Tourinho, ex-professor de Económicas, foi o partícipe no escandaloso caso da cátedra de Economia Aplicada.O PSOE utilizou a LRU para converter a altos cargos, sem deixar de selo, em catedráticos, os chamados “catedráticos por cargons” (E. Lluch, etc). Viva a autonomia, socialista obreira, universitária!!. O ex-comunista, ex-boyerista e agora guerrista (amanhá já veremos), o prepotente Abel Caballero, também se fijo catedrático-LRU, isso que o “ético de Peces Barba, agora reitor PSOE, comprometera-se a que eles por ética nom empregariam a “autovia catedralícia”.

Nom sei se te lembras bem deste parágrafo que inícia um panfleto redigido por ti há perto de quinze anos. Quiçá a sua adaptaçom à grafia histórica do galego dificulte a tua memória. Mas es o suficientemente hábil para superar a tua acomplexada condiçom de galego da Veiga. Estou seguro que o auto-ódio que sempre manifestaches nom impedirá a correcta compreensom da cita. Mas vou ajudar.

O 23 de Novembro do ano olímpico de 1992 o daquelas flamante ministro espanhol de Obras Públicas, Josep Borrell, dava umha conferência nom sei sobre quê, na Faculdade de Economia de Compostela. Um grupo de estudantes vinculados aos CAF dos que agora nom lembro a todos, mas sim o Igor Lugris, Roberto Vilameá, Gonzalo Rodríguez, recebemos o ministro no interior da faculdade com umha faixa e gritos contra a corrupçom. Eram tempos duros, a perestroika primeiro e a descomposiçom da URSS depois provocaram umha desfeita na esquerda mundial, e o nosso país nom ficou à margem. Nom estava na moda protestar e menos empregando esses meios. Ainda assim, um reduzido grupo de jovens nom quigemos desaproveitar a ocasiom para denunciar a política neoliberal e centralista do PSOE. Entre gritos Borrell entrou na faculdade. Ao dia seguinte, salvo um, os meios de comunicaçom ocultárom o protesto. A boa relaçom que mantínhamos facilitara a tua inestimável colaboraçom no protesto. Vás lembrando?

Até aqui nada destacável. Porém achei necessário navegar na memória e realizar um exercício contra a amnésia colectiva perante o infame artigo que publicaste no jornal da extrema-direita compostelana para atacar o estudantado da esquerda independentista que três lustros depois recebiu entre gritos e protestos a visita de Maria San Gil na mesma faculdade de Económicas. Havia tempo que nom lia tanto disparate sintetizado em tam poucas linhas. Tanto ódio. “Chama muito a atençom que os jovens nacionalistas violentos, totalitários, fanáticos, fundamentalistas, extremistas, procastristas e fascistas de esquerda pudessem intervir violentamente dentro da USC, violando direitos fundamentais das pessoas, da democracia e da autonomia universitária” afirmas no jornalinho do Perguntoiro.

Mas Miguel, e permite que te volte a tutear, nom eramos nós assim em 1992? Nom figemos daquela algo semelhante embora com menor eficácia? Nom estavamos movidos polos mesmos objectivos que @s estudantes que manifestárom coragem e audácia à hora de evitar que a San Gil realizasse um passeio triunfal por um recinto ligado a boa parte das melhores batalhas do movimento estudantil galego? As verdades ofendem. O passado nom perdoa. Está sempre aí. É um inseparável e em muitas ocasions incómodo companheiro de viagem.

Há muitos anos que nom falamos. De facto, a última vez que coincidimos mais alá dos segundos fugazes de encontrar-se na rua, foi numha manhá de mudança de século, novamente na faculdade de Economia, mas daquela já estávamos em barricadas opostas. Eu na de sempre. Tu já compartilhavas a dos teus inimigos. Daquelas a versom light. Nom a ultra que posteriormente abraçaste. Por convite teu, o Presidente da Cámara Municipal da capital da Galiza ia falar numha aula sobre nom sei o quê. Um reduzido número de alunas e alunos aguardava ouvi-lo. Mas um numeroso grupo de militantes, novamente da esquerda independentista, impossibilitou que Bugalho falasse. Tu foste incapaz de manter a calma e novamente lançaste gratuitamente falácias, desqualificaçons e insultos, primeiro in situ, depois também em El Correo Gallego, contra os que defendiam a liberdade de expressom que Bugalho perseguia e persegue na rua, ao combater sem trégua a dissidência, aplicando ordenanças restritivas e inçando de vídeo-cámaras a zona monumental de Compostela.

Naquela ocasiom, estivem tentado de escrever algo semelhante ao que agora estou a fazer. Idêntica indignaçom e repugnância que me percorreu daquela voltei a sentir quando lim o teu artigo.

Francamente, nom me surpreende o teu libelo, nom é a primeira vez que alinhas com a extrema-direita mediática. De facto tu és um dos paradigmas autóctones desse fenómeno universal que converteu esquerdistas dos sessenta e setenta em ultras dos noventa. Ao igual que Pio Moa ou Jiménez Losantos ou muitos outros antigos “camaradas”, o pós-modernismo transformou marxistas-leninistas, estalinistas, maoistas ou simplesmente carrillistas em firmes defensores da economia de mercado e da versom mais autoritária das disciplinadas democracias ocidentais. No teu caso, conflui o fanatismo do converso com o histrionismo do teu singular carácter.

Como bom mercenário dessa “intelectualidade orgánica” bem remunerada, abominas o passado, já nom te agrada recorrer ao fio vermelho condutor da história que permite compreendermos o presente e tirar liçons para abordar com sucesso a conquista do futuro. És um tránsfuga ideológico e como tal careces de pudor e escrúpulos. Estás induzido por umha miserável patologia predadora contra todo aquilo que afirmavas ser, contra todas aqueles combates e luitas a que dizias aderir.

Como bem sabes, na história do movimento estudantil galego abundam actos de protesto semelhantes aos que provocárom a detençom de cinco estudantes ao longo deste mês de Fevereiro. Unicamente vou referir dous bastantes badalados. A 25 de Março de 1977, ERGA boicotou a conferência de José María Gil Robles na Faculdade de Económicas. A 20 de Janeiro de 1980, um plural grupo de estudantes impossibilitou no paraninfo da Faculdade de História a realizaçom do solene acto de investidura de doutor honoris causa de Álvaro Cunqueiro, Camilo José Cela e Joseph M. Piel. Nessas duas ocasions, tal como no protesto contra San Gil, as boicotagens –pois nom devemos fugir da definiçom precisa empregando os eufemismos de que tanto gosta o politicamente correcto– nom se podem desligar do singular perfil das pessoas que as padecêrom ou dos conflitos conjunturais em que se inseriam.

Gil Robles estava vinculado com o fascismo de 1936. Cela com o colaboracionismo franquista. A conflituosidade que vivia a USC nesse histórico ano lectivo nom se pode desligar dos sucessos. San Gil nom só representa a cara mais dura e beligerante do espanholismo, da negaçom dos direitos nacionais dos povos e da repressom selvagem contra a esquerda abertzale. O espúreo acto organizado por Maria Teresa Cancelo tem lugar uns dias antes da campanha eleitoral no que nom foi mais que umha grosseira instrumentalizaçom do PP.

Umha das mais nefastas atitudes que caracterizam o poder adulto som os “sábios conselhos” sobre batalhas passadas. Normalmente prestigiosos ex–luitadores, respeitáveis na sua altura, com galons suficientes em poucas ocasions, simples espectadores na imensa maioria dos casos, mas que desertárom para as fileiras do que combatiam, ousam desqualificar as luitas presentes em base a que agora já nom som legítimas. Nada novo. O estudantado rebelde de 1968 tivo que ouvir os bons conselhos de que participárom na luita política e social no período republicano; a juventude universitária mobilizada contra o franquismo padeceu o sentido comum de muitos que afirmavam ter estado nas barricadas de Paris; na década de oitenta era insofrível ouvir os comentários das legions de desencantados da Transiçom; nas margens deste século umha boa parte da reduzida geraçom militante dos anos duros do felipismo –agora bem situada e com responsabilidades institucionais– empregava idêntica terminologia na hora de condenar a acçom teórico-prática da emergente recomposiçom do estudantado da esquerda independentsita plasmada na fundaçom de AGIR, em Setembro de 2000. Agora um coro de vozes de todas essas geraçons unida contra o “fogo”, o estigma independentista.

Nom é novidosa esta desprezível atitude. Como tampouco é umha surpresa ler e ouvir as sisudas análises cheias de apriorismos e ignoráncia dos Roberto Branco Valdês, Carlos Luís Rodríguez, Luís Pousa, Carlos Caneiro ou Salvador Garcia-Bodanho, soltando tanto veneno e intoleráncia do seu acoutado e elitista, e fundamentalmente tam bem remunerado direito à liberdade de expressom que lhes concedem os donos e senhores deste país. Boa parte deles vivem disso, de intoxicar, de escrever furiosos alegatos contra qualquer forma de dissidência, louvando um regime alicerçado nas mais variadas formas de coerçom. Tu, que tanto desprezavas este pessoal, agora és um mais deles! Patético, mas certo.

Estamos vacinados contra este fenómeno, umha autêntica pandemia,de tránsfugas, amnésicos e cobardes que caracteriza a cada vez mais medíocre arena pública galega. Mas nom por isso somos insensíveis. Por isso tampouco nos deve chamar a atençom que a candidata do BNG por Ponte Vedra coincida com Felipe González na definiçom de agressom aos sucessos de Económicas. Há muitos anos que Olaia se deixou seduzir polas prebendas do poder, tal como tu.

O que sim é umha novidade é a sobredimensom dada polos meios ao que nom passou de ser um legítimo e necessário acto de repulsa juvenil à invasom do espaço académico por umha ultra, alheia ao País, de sonriso endiabrado –empregando a acertada definiçom de Xurxo Martínez Crespo– e verbo crispante.

Que meia centena de estudantes receba San Gil entre gritos e palavras de ordem contra o espanholismo e em prol da legalizaçom das ideias nom deveria ter enchido tantas toneladas de papel e ser notícia principal em canais televisivos e emissoras rádio. De facto, esta prática, além de ser habitual na universidade por parte do estudantado inconformista e luitador –AGIR neste mesmo ano lectivo manifestou de forma semelhante a sua repulsa a Conde Pumpido e Ameixeiras sem a mais mínima mençom da imprensa– é umha forma de intervençom sociopolítica que San Gil também praticou. Fotos dela, acompanhada de destacados referentes do mais extremista espanholismo bascongado, a apupar nom há muito tempo Imaz circulam novamente em webs e blogues. Mas já sabemos que segundo quem for, a consideraçom é diferente. Nuns casos som agressons intoleráveis e noutro simples exercícios democráticos contra a crispaçom nacionalista.

O que aconteceu a partir da meia manhá da terça-feira 12 de Fevereiro de 2008 em Económicas algum dia deverá ser exemplo de estudo na faculdade de jornalismo de umha Galiza libertada. A manipulaçom e intoxicaçom mediática converte agressores em agredidos, fascistas em democratas, pessoas armadas em pacíficos cidadaos violentados polos gritos de protesto e os apontamentos estudantis. O mundo ao contrário!

Ainda bem que diferentes suportes audiovisuais som a prova palpável desta montagem mediático-policial que converteu a AGIR na expressom galega do “eixo do mal”, na nova sigla da palpável infiltraçom e influência abertzale no “independentismo radical” da pacífica Gallaecia. A por eles pois!. Apliquemos o espírito de Ermua a pequena escala contra o estudantado revolucionário galego. Logo já veremos como continuar aprofundando por esse caminho.

De momento, a crónica dos factos que analisamos permite falarmos de três actos inconclusos.

Inicialmente as agências de imprensa e o gabinete de desinformaçom do PP considera umha autêntica veta de ouro converter a boicotagem numha notícia que emsombrece o resto das notícias nacionais e internacionais. Pom-se me andamento a decisom de sobredimensionar os factos, de encher artificialmente com ar contaminado um globo. O PP considera que é umha magnífica arma contra o PSOE. O PSOE interessado em competir com o PP à hora de ganhar o espaço de centro-direita alimenta a montagem. O BNG para nom ficar atrás, e umha vez mais para demonstrar que é umha força de ordem, constitucional, respeituosa com a legalidade que permite a Amáncio Ortega e a Manuel Jove mês a mês ganhar mais a custa de empobrecer à maioria, também se soma à farsa. Isso sim imprimindo o toque nacional pois em palavras de Anxo Quintana a violência é umha carcaterística afastada da “forma de ser galega”.

A intelectualidade crítica e comprometida nom existe ou bem está reflectindo qual é a sua posiçom ao respeito.

Simultaneamente, tertulianos e comentadores recebem instruçons ou aplicam o protocolo. Há que disparar sem clemência.

A montagem é aproveitada polos seguidores de Rajoi para alimentar o vitimismo com exclusivos réditos eleitorais golpeando o PSOE como responsável pola crispaçom que permite o desenvolvimento de grupúsculos violentos que agem com absoluta impunidade sob a invisível protecçom de umha atmosfera hostil com o PP. Os sucessos acabam no parlamentinho de cartom tentando consensualizar umha resoluçom de condena.

AGIR ocupa manchetes e análises com base numha mistura de informes policiais e ocultos arquivos jornalísticos.

Imediatamente, sem baixar o pano, entramos no segundo acto. A eficácia policial detém o Iago primeiro e o Sérgio depois. Só passaram dous dias e já havia culpados com nome e apelidos. A presunçom de inocência nom existe nestes casos. O direito à intimidade tampouco. Nomes completos e apelidos enchem os jornais, rádios e televisons. Fotos a toda cor dos dous perigosos activistas som publicadas.

A campanha de linchamento tinha atingido o seu climax. A sanha jornalística é do agrado de Maite Cancelo e imagino que tua também.

Há mais estudantes identificados e umha nova detençom. Mas o julgado de Compostela encarregado do caso nom coincide com a polícia na hora de continuar com a detençom de estudantes. Tam só terám que declarar na investigaçom aberta pola denúncia formulada pola Cancelo e pola fiscalia. A Junta de Faculdade de Economia lança um balde de água fria contra a intençom da decana-polícia, empregando um termo que sem lugar a dúvidas che é familiar, de aprovar umha resoluçom em prol da expulsom do estudantado acusado de participar na “agressom”. A disparatada tentativa de ilegalizar AGIR nom tem mais eco que em “El Correo Gallego” e entre o imaginário mais ultra.

Como vês, isto semelha mais umha crónica dos sessenta ou dos setenta. Ricardo Gurriarán poderia falar mais do tema pois acaba de inaugurar umha exposiçom sobre o nosso particular Maio de Março de 1968.

Mas, afortunadamente, Cancelo já nom é Ocón. Maite nom poderá expulsar ninguém do núcleo duro e ainda menos enviar a realizar trabalhos forçados num batalhom de castigo no Saara os alvorotadores mais pacíficos. Maite Cancelo tivo os seus momentos de glória mediática como aluna avantajada de Torquemada e entusiasta seguidora dos mais eficazes manuais repressivos, nom polos seus contributos académicos. Lamentavelmente, Vitor Serge nom está connosco e nom poderá identificar um personagem semelhante entre a fauna extremista da repressom czarista que tam magistralmente estudou. Maite Cancelo emergiu do anonimato de medíocre papagaio das receitas neoliberais de Adan Smith, da Escola de Chicago e do milagroso exemplo económico chileno após encher o estádio de Santiago de Chile de milhares de detidos enquanto Pinochet bombardeava o palácio de La Moneda.

Sim, Miguel, todo o que está a acontecer hoje, aqui e agora, é fruto do desarmamento ideológico da esquerda, da desmobilizaçom popular promovida polos tránsfugas, amnésicos e cobardes que ocupam a gestom política e económica do capital nesta parte do mundo chamada Galiza, mas também a legitimaçom ideológica permanente da desordem que padecemos.

Para evitar que isto avance, é necessário entre outras muitas cousas mais gente com coragem como Iago e Sérgio, pessoal da Assembleia de Estudantes, juventude disposta a nom só recolher acríticos apontamentos e reproduzir as pautas de conduta no lazer que o capitalismo promove entre o futuro desta naçom. O preocupante seria que perante as provocaçons fascistas nom houvesse resposta social, hoje minoritária, mas essencial para manter aceso o facho da rebeldia. A História só avança com atitudes inconformistas, desobedientes e transgressoras frente ao poder.

San Gil só escuitou o que devia escuitar. Nom foi agredida fisicamente. De facto, à tarde passeava tranquilamnete entre o blindado recinto da Cidade da Cultura em que Ángela Bugalho continua a esbanjar os insuficientes orçamentos culturais autonómicos.

Um sociólogo como tu, que conhece fundo a mais radical e comprometida corrente desta disciplina social, sabe perfeitamente que som necessários mais Iagos e mais Sérgios nas nossas faculdades para que tipos como o que tu te converteste só provoquem lástima.

Galiza, 28 de Fevereiro de 2008

 

 

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