Carvalho Calero no século XX galego

Maurício Castro, Abrente nº 48

Nos últimos meses, entidades sociais e figuras muito diversas do nosso país tenhem aderido à campanha que a Fundaçom Artábria, da comarca de Trasancos, lançou para reclamar um verdadeiro reconhecimento social e institucional a quem foi um dos grandes intelectuais galegos do século passado.

É sabido, porque assim foi reconhecido por algum dos seus integrantes, que a Real Academia Galega, instituiçom tomada por sectários anti-reintegracionistas incapazes de integrar a pluralidade do País que aposta em si mesmo, leva dezoito anos, desde o mesmo momento da morte do erudito ferrolano, a tentar enterrar de vez as suas ideias sobre o que o nosso idioma deve ser e sobre que política lingüística precisa a Galiza para garantir um futuro digno ao nosso milenário idioma nacional.

O herético Ricardo Carvalho Calero, cuja vida atravessou a prática totalidade do século XX galego, representa nom apenas o mais alto cume da formaçom intelectual em matérias como a investigaçom literária e lingüística, junto à criaçom literária de grande nível de qualidade em todos os géneros. Representa também, e sobretodo, o serviço ao Pais como máxima aspiraçom em tam diversos contextos sociais como ele viveu: a República, a ditadura franquista e a Restauraçom bourbónica que se estende até hoje.

Mas, se a unanimidade é absoluta na importáncia dos seus trabalhos de investigaçom e difusom literária, com a monumental História da Literatura Galega Contemporánea ainda plenamente vigente como referência para qualquer pessoa que quiger aproximar-se do fenónomeno literário galego nos últimos séculos, tal unanimidade nom se dá na hora de reconhecer o seu papel como estudioso da nossa língua, nomeadamente no que di respeito à dimensom social e à orientaçom que deve ter a construçom de um padrom moderno.

Aí, a partir do seu claro posicionamento logo em 1975, surgiu a anatemizaçom contra o velho professor, primeiro catedrático de língua e literatura galegas desde 1972, e redactor das normas académicas de 1970-71. Foi no artigo intitulado “Ortografia galega”, publicado em La Voz de Galicia, que afirmou que “estamos no momento em que cumpre já umha revisom da nossa normativa à luz desses factos” (…) “Inserido o nosso idioma no complexo ibero-románico ocidental, qualquer grafia que resulte dialectalmente rechamante produzirá umha impressom de indisciplina cultural, que deve evitar-se se pode sê-lo (…) restabelecendo a continuidade que pode ter sido alterada polo momento dialectal que a língua viveu durante séculos”.

É importante sublinhar que Carvalho assumiu posiçons reintegracionistas avançadas quando começou a estudar-se a possibilidade de introduzir o galego no ensino, pois, como afirmou num artigo de 1985: “Quando nom existia oficialmente Galiza, quando nom existia oficialmente o galego, quando nom existia oficialmente o ensino do galego com umha consciência de substantividade da língua deteriorada por longos séculos de alienaçom, o uso da escrita castelhana, em que todos éramos alfabetizados, podia ser único expediente realista para fomentar a escrita do galego. Onde ensinar outra ortografia? Com que professores se contava para isso? Aumentar as difiduldades do uso do galego naquelas circunstáncias tam adversas, nom seria mi contraproducente? Mas desde que o galego é idioma (co)oficial e há ensino oficial do galego, imos perpetuar indefinidamente a ruptura com a ortografia histórica que, adaptada às circunstáncias do presente, se emprega no mundo lingüístico que tem o galego como torgo?”

Nos anos 70, diante da iminência da morte do ditador e na perspectiva da cooficializaçom do galego, era o momento de passar das ideias reintegracionistas, que sempre impregnaram o pensamento galeguista e nacionalista galego já desde os ilustrados do século XVIII, aos factos da orientaçom do novo padrom, imprescindível para introduzir o galego nas novas instituiçons autonómicas e no ensino.

Lembremos que o primeiro presidente da Real Academia Galega, Manuel Murguia, foi um grande entusiasta da unidade lingüística galego-portuguesa, tal como as principais figuras do nacionalismo dos anos 20 e 30: Joám Vicente Biqueira, Antom Vilar Ponte, Afonso Daniel Rodrigues Castelao… o próprio Carvalho, que na sua juventude chegou a presidir a agrupaçom ferrolana do Partido Galeguista, bebia já naquela altura da tradicional orientaçom reintegracionista do pensamento galego.

Trajectória de compromisso e dignidade

A trajectória de Carvalho Calero ao serviço das ideias da soberania nacional e da esquerda, junto ao compromisso com o idioma e a cultura da Galiza, constituem nele um património que mantivo com dignidade apesar das dificuldades e represálias que implicárom para quem viveu o exílio interior durante a longa ditadura fascista e a marginalizaçom imposta polo estreito autonomismo nascido nos primiros anos da década de oitenta.

Na juventude, como estudante, participou na fundaçom da organizaçom estudantil republicana FUE, que protagonizou mobilizaçons contra a ditadura de Primo de Rivera e mais tarde, como político, assinou junto a outros conhecidos militantes comunistas e nacionalistas, em 1931, um abaixo-assinado intitulado “A esquerda galeguista fala ao País”, chamando à abstençom activa numhas eleiçons em que o nacionalismo galego ainda nom conseguira apresentar umha alternativa ao espanholismo rampante.

Colaborador do “Centro Obrero de Cultura” que funcionava em Ferrol naqueles anos, defendeu a orientaçom progressista e republicana do Partido Galeguista, do qual fora cofundador em Dezembro de 1931, junto a Castelao, Outeiro Pedraio e Vicente Risco. Em 1936, publicou um artigo com motivo da derrota das posiçons da ala direita, celebrando a adesom à Frente Popular em 1936 sob o título “Já somos esquerda”.

Apesar da sua juventude, foi um dos redactores do Estatuto de Autonomia para a Galiza, que nom chegou a entrar em vigor polo levantamento militar fascista, que o apanha em Madrid. Ali adere imediatamente como voluntário ao exército republicano, num batalhom de milícias de ensinantes adscrito ao Quinto Regimento, atingindo o grau de oficial.

Com a vitória fascista, chega a prisom, a perda da vaga de funcionário público em Ferrol e o ostracismo dos assinalados pola sua condiçom republicana, galeguista e de esquerda.

Da ditadura à II Restauraçom boubónica

Protagonizou, portanto, Carvalho Calero um percurso vital dificilmente digerível polos defensores do statu quo, que nunca conseguírom integrar a sua natural tendência libertária no selecto clube dos intelectuais orgánicos. Isso, sem dúvida, determinou a condena à marginalidade que padeceu, apesar de ser evidente a sua superioridade intelectual em relaçom aos que, com a chegada do novo regime monárquico de 78, assumírom o protagonismo das políticas lingüísticas e culturais.

Na década de 70, na iminência da morte de Franco, Carvalho viveu um período de expectaçom polas possibilidades que se abriam para umha mudança substancial no estatuto legal e social do galego e, de umha maneira mais ampla, da identidade nacional galega. Foi aí, como dizíamos, que se manifestou abertamente por um galego reintegrado no seu espaço próprio, o que o converte num idioma internacional e intercontinental e nos permite olhar de tu a tu o prepotente poder lingüístico espanhol.

Frente às posiçons dos dialectólogos do Instituto da Língua Galega, defensores de um modelo de língua baseado da separaçom do português e na dependência do espanhol, mal maquilhada com apelos à “fala do povo”, Carvalho Calero defende que, como acontece em todas as línguas estatais, também o galego deve contar com um padrom baseado na história e numha forma nom directamente resultante da média entre as variantes diatópicas.

Umha posiçom inassimilável pola casta política em formaçom naqueles anos iniciais do novo Estado das Autonomias, que apoiárom a via isolacionista.

Mas as esperanças de Carvalho nom se situavam só na dignificaçom do corpus lingüístico galego, aspirando também à recuperaçom social dos usos. Sem partir de umha concepçom essencialista ou idealista do papel da língua na identidade galega, defendia que “qualquer idioma sentido como próprio por umha comunidade, seja qual for a sua extensom e a sua distinçom dentro do mundo em que vive, tem direito à existência, e ao agarimo do poder político”.

Ao contrário do que sucedia na II República, nos anos 70 o galego foi assumido como ferramenta política por toda a oposiçom antifranquista, o que convidava Carvalho ao optimismo. Hoje sabemos, e também ele o comprovou na década seguinte, que os entraves do poder político e o factor ideológico impedírom que as cousas corressem como poderiam ter corrido.

Normalizaçom, reintegracionismo e “consquista dos mecanismos de poder”

Frente às curtas visons do espanholismo e de boa parte do nacionalismo galego, reivindicou a “fortuna histórica do galego” face ao euskara e o catalám, em funçom da projecçom internacional do nosso idioma, e olha com sá inveja o sucesso da via reintegracionista e normalizadora na Flandres, no seu célebre artigo “O voo do flamengo”.

Analisando a história com perspectiva materialista, situou o esmorecimento do nosso idioma no papel das classes dominantes, as únicas que podiam ter garantido a viabilidade de umha comunidade lingüística, ao serem referenciais para o conjunto de qualquer formaçom social. Afirmou que “se no tránsito da Idade Média para a Idade Moderna se castelhanizou lingüisticamente a nobreza, no tránsito da Idade Moderna para a Contemporánea castelhanizou-se a burguesia”.

Apesar do optimismo aparentemente ingénuo dos ano 70, Carvalho viu logo para onde se encaminhava o novo aparelho político-institucional posto em andamento polo regime surgido da Constituiçom de 1978. Já em 1979, expom claramente que o submetimento histórico do galego deriva “do monopólio polo castelhano de todos os mecanismos de poder”, e propom como única alternativa, literalmente “a conquista desses mecanismos poderia permitir ao galego luitar pola sua sobrevivência”.

Encontramo-nos diante de umha crítica implícita de qualquer projecto de teor bilingüista, como o que começava a cozer-se com a iminente estreia do monárquico Estado das Autonomias. Só o recurso a “todos os mecanismos de poder” que garantem o “monopólio” do castelhano podem permitir a sobrevivência do galego. Umha leitura actual e técnica dessa formulaçom é a de que só um modelo de oficialidade de tipo territorial para o galego pode garantir-lhe a viabilidade social. Um modelo como o suíço ou o flamengo, que é reivindicado ainda mais claramente na década seguinte, em artigos como “Bilingüismo e bigámia”: umha situaçom de alegado bilingüismo social desemboca sempre “na monarquia de aquela das duas línguas que possui maior potência social”.

Podemos afirmar, sem exagero, que Carvalho Calero foi um verdadeiro visionário, ao avançar com acerto em que iria dar o caminho encetado nos primeiros 80 pola nova autonomia. Nesses anos, o optimismo anterior converte-se em denúncia da política lingüística autonómica, do papel empobrecedor que começava já a jogar a Televisom da Galiza, do burocratismo inoperante que caracterizava esse híbrido entre centralismo histórico espanhol e autonomismo limitado que negava qualquer poder de decisom ao nosso povo.

Carvalho, defensor explícito do direito de autodeterminaçom para a Galiza, morrerá mantendo umha saudável distáncia dos centros de poder e das novas elites intelectuais, que o condenárom ao mesmo ostracismo que já padecera nos anos da ditadura. A soberania nacional, cultural e lingüística nom estava na ordem de trabalhos dos neo-regionalistas empoleirados à autonomia, como ele os chamava.

Porém, contra o prognóstico oficial realizado no ano 90 pola cúpula lingüística do oficialismo, as ideias de Carvalho nom morrêrom com ele. Som férteis, e continuam a alimentar novas geraçons de galegos e galegas que nom renunciamos a voltar a fazer do nosso idioma nacional o que sempre foi: o nosso principal sinal de identidade, que voltará a florescer numha Galiza plenamente emancipada: independente.

 

Voltar à página principal