Os coentros da rebeldia também som condimentos imprescindíveis da Revoluçom

1º de Maio de 2008

O secretário geral do nosso partido, Carlos Morais, viaja neste 1º de Maio a Lisboa para participar, respondendo ao convite da Política Operária, nos actos do Dia do Internacionalismo Proletário na capital lisboeta, nomeadamente um evento em lembrança do recentemente falecido Francisco Martins Rodrigues, amigo da Galiza e do nosso partido.

A seguir oferecemos o artigo escrito dedicado por Carlos Morais à memória do grande revolucionário português.

Os coentros da rebeldia também som condimentos imprescindíveis da Revoluçom

Carlos Morais, secretário geral de Primeira Linha

Sem perder a calma, com essa serenidade, discreçom, ternura e precisom que o caracterizavam, transmitiu há dous meses a camaradas e amizades a gravidade do seu estado de saúde. Nesses fulgurantes instantes de ansiedade e profunda tristeza, sem tempo a superarmos a natural comoçom que provoca umha notícia assim, constatamos novamente o que de forma permanente tinha demonstrado ao longo da sua dilatada vida. Francisco Martins Rodrigues era um ser excepcional, umha dessas pessoas que nom é habitual encontrarmos nos caminhos da vida, das que deixam umha pegada indelével. Sem desfalecer, com serenidade, discreçom, ternura e precisom, qualidades difíceis de achar neste mundo devorado polo stress, a aparência, a desconsideraçom e o barulho, embora consciente de nom poder mudar o curso dos acontecimentos, até o último fôlego combateu pola vida, seguindo com atençom as notícias, a nova PO, os debates. Assim foi, com dignidade e coragem, o Chico enfrentou a última viagem.

Ao dia seguinte do seu falecimento em Lisboa, na madrugada do 22 de Abril, os meios de comunicaçom da burguesia –alguns deles dirigidos por medíocres canalhas carentes de pudor que se consideram “antigos camaradas”– vírom-se obrigados a noticiar que já nom estava connosco, mas obviamente figérom-no com ferocidade, sem respeitar a sua memória e integridade. O Chico já nom podia responder. Era necessário acertar contas contra a rebeldia que os desconcertava e irritava. Sabíamos que a imprensa burguesa, simples empresas de alienaçom de massas, carece de moral e de valores, que o seu único código de conduta é contribuir para deformar a realidade, para gerar mundos virtuais e multiplicar a acumulaçom de ganho dos seus donos.

Embora nom fosse aconselhável ocultar a sua morte, como até o momento fijo a direcçom do PCP, devorada polo ressentimento, a infámia do negócio do espectáculo da desinformaçom optou por verter injuriantes falsidades e mentiras sobre umha das biografias mais limpas, genuínas e coerentes do melhor Portugal revolucionário do século XX.

Sem pretendermos polemizar com renegados complexados, unicamente queremos manifestar o grave erro de apreciaçom e análise que cometem os Fernandes e Cia. O Chico Martins, contrariamente à definiçom que inundou jornais e outros meios, nom era um velho comunista. Que enganados estám! Francisco Martins Rodrigues combateu sem trégua o capitalismo desde que praticamente tivo possibilidades de o fazer. Assim foi durante longas e adversas décadas, sempre sem desfalecer, com tenacidade e inteligência. Fijo-o basicamente na segunda metade do século XX, mas os ideais que o movêrom a passar meia vida na clandestinidade a combater o fascismo, a resistir as torturas da PIDE, a nom perder o rumo nem o entusiasmo durante cinco detençons que somam doze longos anos nas masmorras da ditadura salazarista, fam parte do século que iniciamos.

A constância a indicar-nos o caminho para atingir o mundo novo que contribuiu para desenhar, permitiu que nunca deixasse de ser um eterno jovem, carregado de futuro, um de esses horizontes aos quais recorrermos em momentos de dúvida e confusom. Os contributos teórico-práticos do CamaradaCampos –nome de guerra empregado na clandestinidade– convertêrom-no na indispensável argila que se deve empregar para a emancipaçom das geraçons futuras de trabalhadoras e trabalhadores do Portugal do século XXI.

Francisco Martins Rodrigues nom é um anacronismo do Portugal de Abril: é umha figura essencial nessa alvorada que dará passagem à cada vez mais necessária Revoluçom Socialista.

Um legado teórico-prático que devemos valorizar

Para avaliarmos com rigor e profundidade o legado teórico do Francisco Martins Rodrigues, é necessário recorrer à sua admirável biografia de combatente revolucionário comunista. Fijo parte dessa geraçom de homens e mulheres que já desde a década de quarenta investiu o melhor da sua juventude na luita contra o fascismo, umha das mais brutais formas de dominaçom que adopta o capitalismo. Obviamente, iniciou-se militando no PCP, a única força antifascista organizada que na altura combatia o Estado Novo com eficácia, entrega e capacidade. Foi no seu seio que aprendeu a pensar por ele próprio, onde descobriu a teoria marxista, o seu insuperável método dialéctico de análise, a integridade da sua escala de valores, a superioridade moral que move um/ha revolucionári@. Aqui foi onde onde se converteu no indomável rebelde que sempre foi, só vencido pola morte.

Mas, contrariamente ao acrítico seguidismo aos ditados de Moscovo que promovia a direcçom cunhalista, e movido sempre polo abc do comunismo, por essa “armasecretade ódio e desprezo polos poderosos, pola necessidade de os combater sempre”, que lhe transmitiu o Chico Miguel –tal como magistralmente desvendou na sua última intervençom pública na festa do vigésimo segundo aniversário da revista Política Operária a 19 de Janeiro– tivo a coragem suficiente para questionar a estratégia política do levantamento nacional, da “unidade dos portugueses honrados”, essa mimética adaptaçom à realidade lusitana da doutrina soviética da coexistência pacífica convertida em dogma após o XX Congresso do PCUS de 1956.

A madurez militante e intelectual permitia começar a dar as primeiras batalhas contra a capitulaçom revisionista que tinha penetrado até o cerne do partido, apoderando-se da sua natureza de organizaçom revolucionária. O Chico iniciava o desafio ao oportunismo reformista que Álvaro Cunhal tam bem disfarçava de marxismo original e criativo, sentando as bases para a recuperaçom do projecto revolucionário sem as deturpaçons impostas pola ortodoxia.

Ainda assim, após ter participado na mítica fuga de Peniche a 3 de Janeiro de 1960, junto a outros dez destacados dirigentes do PCP, de manter heroicamente a estrutura clandestina comunista na margem sul do Tejo, passa a integrar a Comissom Executiva, máximo organismo de direcçom no interior do país, conformada por só três pessoas. O Chico assume mais responsabilidades, riscos e compromissos pola sua íntegra consciência comunista, mas contrariamente à lógica interna de um partido dogmático como o PCP nom renuncia a analisar a realidade sem depender das orientaçons emanadas de Moscovo. Seguindo as ensinanças leninistas, considera erróneo abandonar a insurreiçom popular armada, converter o proletáriado em simples massa de manobra da pequena burguesia republicana aplicando a linha centrista emanada da doutrina dimitroviana, manter umha posiçom ambígua a respeito da guerra colonial.

Embora nom tenham eco as suas posiçons, nem tenha possibilidades de as transmitir ao conjunto de camaradas, o Chico nom desiste, nom serende. Insiste em abrir debates, questionar umha linha geral que considera errónea. Mas o modelo e a concepçom organizativa do PCP –amparando-se nas difíceis condiçons de repressom– nom permitia exercitar a democracia socialista no seu seio.

E tal como fijo ao longo da sua coerente trajectória militante, nom cede às pressons, tampouco às sedutoras ofertas, nem se deixa deslumbrar pola estadia de vários meses na URSS, que realiza em 1963. Cunhal nom admite os questionamentos e o Francisco Martins Rodrigues sabe que já nom é possível continuar no PCP mantendo umha coerente linha marxista revolucionária. Nom vacila!

Com a coragem e a audácia que aprendeu de Marx e Lenine, opta por abandonar, promovendo a primeira organizaçom marxista que rompe com o reformismo do PCP. Assim nasce a FAP e o CMLP. Era necessário começar de novo. Aplicar às específicas condiçons de Portugal umha coerente estratégia revolucionária.

Após visitar Pequim e Tirana para conhecer directamente as posiçons contrárias a Kruchev, podendo ter ficado comodamente em Moscovo ou Paris como funcionário, o Chico opta polo mais difícil mas também polo mais honesto e coerente: enfrentar a repressom salazarista, entrar de novo em Portugal para reconstruir o comunismo revolucionário. Após uns meses na clandestinidade, em 1965 é capturado, torturado e condenado com já 38 anos a 19 anos de prisom. Transgessor dos dogmas, das verdades inquestionáveis, indomável e incorruptível é, perante as resistências de Spínola a assinar a amnistia, o último preso político a abandonar Peniche 27 de Abril de 1974.

Já em liberdade, foi determinante na convergênca dos grupos maoistas que dérom lugar à criaçom da UDP em Dezembro de 1974, e à constituiçom do PCR aos poucos meses do contragolpe revolucionário do 25 de Novembro de 1975, que enterrou o PREC inaugurado no 25 de Abril.

Mas o Chico, com essa sólida formaçom marxista, com um profundo conhecimento teórico, com umha dilatada experiência militante fraguada em adversas condiçons, voltou a demonstrar a sua enorme capacidade analítica. Consciente das limitaçons do maoismo, da degeneraçom do modelo chinês, da reproduçom no seio da UDP-PCR das piores deturpaçons do modelo de partido estalinista provocado polo contaminado ADN importado do autodenominado “movimento marxista-leninista”, da linha oportunista que se tinha imposto no seu seio polas parciais readaptaçons –mais retóricas que reais– das bases fundacionais bolcheviques, nega-se a renunciar aos objectivos estratégicos e aos princípios fundamentais do marxismo revolucionário. Novamente, opta por questionar de maneira implacável o presente, sem concessons nem falsas saídas que impossibilitassem compreender e solucionar as causas do estagnamento e do retrocesso.

É necessário continuar na procura do antídoto. A magnífica experiência da derrotada Revoluçom de Abril em que tivo o privilégio de viver e intervir contribuiu para avançar e acelerar na segunda grande ruptura política com o marxismo estalinista, agora na versom da matriz sino-albanesa. Consciente das invisíveis limitaçons políticas geradas pola inexperiência, das dificiências teóricas, da superficial ruptura com o marxismo soviético virtualmente realizada pola entusiasta geraçom militante fascinada polo radicalismo que Mao exercia na juventude durante o confronto ideológico sino-soviético, questiona elementos fulcrais da linha política da UDP e do adulterado modelo albanês. Consciente que o proletariado é quem se tem que emancipar com as suas próprias forças, fugindo de qualquer forma de colaboraçom de classes, da necessidade de construir umha corrente comunista caracterizada por umha clara demarcaçom entre a linha operária e a pequeno-burguesa, da necessidade de empregar todas as formas de luita para tomar o poder, sem ceder ao “respeito supersticioso polo parlamento e pola ordem burguesa”, o Chico estuda em profundidade as teses do VII Congresso da Internacional Comunista que lhe tinham solicitado da direcçom. E as conclusons a que chega som contrárias às que pretendia o Diógenes Arruda para justificar a linha de moderaçom e aplicaçom do modelo frentepopulista. O Chico novamente nom comunga com rodas de moinho. Agora já nom é com as directrices de Moscovo, sim com as de Tirana via PCB.

Como nom podia ser de outro jeito pola sua lucidez, profundo conhecimento das ferramentas proporcionadas polas leis da dialéctica materialista, pola capacidade analítica e capacidade crítica e autocrítica, nom só nom secunda as teses dimitrovianas, impulsiona um revulsivo que culmina no “Anti Dimitrov. 1935-1985 meio século de derrotas da Revolução”, com o posterior abandono da UDP em 1983. Mas, como bom marxista militante, como magnífico polemista armado desse sentido autocrítico da procura permanente do rigor analítico para a sua aplicaçom na intervençom política, era consciente das sombras que possuía esta reflexom sobre as origens da penetraçom do reformismo no movimento comunista internacional. Por este motivo, afirmava que, coincindo no essencial nos dias de hoje com o seu ensaio, mudaria alguns argumentos e apreciaçons sobre a etapa estalinista. Assim era o Chico!! Inconformista, procurando sempre o caminho certo, pois “nom nos deve impressionar a acusaçom de “sectarismo” que os reformistas nos lançam, nem a impaciência dos militantes que nom se resignam a um trabalho apagado e querem resultados palpáveis em pouco tempo”.

O projecto estratégico da Política Operária

Mas, novamente, contrariamente ao que teria feito a maioria, nom desiste, nom abandona, nom se rende. Prossegue, com a bússula que o Lenine e o Chico Miguel lhe tinham mostrado, o caminho de construir a ferramenta defensiva e ofensiva que necessita a classe operária. Assim nasce a Política Operária em 1984. “O partido comunista, corpo estranho na sociedade burguesa que pretende derrocar, sofre umha tremenda pressom da parte desta para ser digerido e destruído: pressom policial e militar quando necessário, mas também política e ideológica, na actividade legal de todos os dias. Pressom que provém nom apenas do aparelho de poder burguês mas também das camadas pequeno-burguesas contíguas ao proletariado e das flutuaçons no seio do próprio proletariado, hoje em grande medida desarticulado e desmoralizado polas derrotas que tem sofrido”.

A Política Operária dirigida polo Chico é umha revista teórica de grande qualidade, a partir da qual analisou e prognosticou as contínuas mudanças da sociedade portuguesa das duas últimas décadas, mas também os fenómenos e a conjuntura internacional, sempre sob um único objectivo: armar ideologicamente a classe obreira e assim contribuir para promover a Revoluçom socialista indispensável para atingir a sua emancipaçom. Nom é, nem nunca tivo essa concepçom inofensiva caractrística do marxismo académico. Desde as suas origens, tem a vocaçom de ser o germe do partido comunista revolucionário. Ainda nom foi possível atingir este objectivo porque todas as cousas som pequenas quando começam.

Contrariamente ao que figérom os grandes partidos “comunistas” oficiais de meio mundo, mas também prestigiosas organizaçons revolucionárias com apoio social, a queda da URSS e do socialismo realmente inexistente nom surpreendeu o Chico nem a PO. A acertada caracterizaçom do modelo imperante, esse “estado operário burocraticamente degenerado”, permitia prever e compreender com suficiente anterioridade que irremediavelmente estava condenado a abalar e desaparecer. Era mera questom de tempo. Tampouco o actual modelo misto de capitalismo de estado e economia de mercado sem mais regras que as que impom a lógica neoliberal, em que derivou a China, podia ser alternativa algumha. O integral questionamento do delirante regime albanês tinha contribuido já três lustros antes para a ruptura com o PCR.

O Chico acompanha e denuncia sem concessons a procura de terceiras vias –“o trabalho comunista entre as massas requer muito esforço e brilha pouco”– a ofensiva global do imperialismo contra as massas oprimidas e empobrecidas, contra os povos, o discurso do pensamento único, a imposiçom pola força do neoliberalismo e da globalizaçom. E como brilhante marxista que era, sem renunciar aos princípios e aplicando o pensamento dialéctico, comprendeu as profundas mudanças operadas na luita de classes, os novos fenómenos que nem Marx nem Lenine prevêrom ou aos quais nom dérom atençom suficiente. Isto permitiu que, procedendo de umha área político-ideológica impermeável a qualquer discurso incómodo ou de difícil acomodo com o economicismo, mas que paulatinamente foi superando, tenha permitido realizar com enorme coragem um percurso tam genuíno e original.

A partir de claras coordenadas anticapitalistas e anti-imperialistas, foi capaz de incorporar à arquitectura teórico-pratica da PO o conjunto de rebeldias geradas polo capitalismo ao património teórico-prático de que, sem lugar a dúvidas, é alicerce insubstituível do comunismo revolucionário português. A PO, nestes quinze anos, demonstrou a enorme capacidade para compreender que o antagonismo da contradiçom Capital-Trabalho é o cerne da luita contra a dominaçom, a exploraçom e a opresssom, mas sem se deixar tingir polas cores das diversas rebeldias específicas geradas polo modo de produçom capitalista, ou simbiotizadas por este, nom é possível avançar na reconstruçom e desenvolvimento do comunismo do século XXI. A específica opressom da mulher, o internacionalismo militante, a plena liberdade e direito à independência dos povos, a defesa do meio-ambiente e combate à destruiçom da natureza, a superaçom do poder adulto exercido sobre a geraçons jovens, a libertaçom sexual, a denúncia de toda forma de autoritarismo e defesa do permanente exercício da autodeterminaçom, quer queiramos, quer nom, atravessam transversalmente a luita de classes. Nom se reduzem nem se simplificam ao discurso e à reflexom da contradiçom principal emanada dos manuais soviéticos que posteriormente reproducírom diversas correntes da esquerda revolucionária. Igual que desde criança sabia que sem o aroma dos coentros nom é possível elaborar a magnífica gastronomia do seu Alentejo, o Chico soubo compreender com mestria que sem o lilás da luita feminista contra o machismo e o patriarcado, sem o arco iris da libertaçom sexual, sem as cores das bandeiras negadas das naçons e povos oprimidos, sem a simbologia da rebeldia juvenil, do antiautoritarismo, sem o verde ecologista, a bandeira vermelha de libertaçom integral está orfa e incompleta. Porque na Revoluçom Socialista confluem as luitas parciais e só ela pode dar soluçom plena e satisfatória às reivindicaçons parciais negadas, desconsideradas polas experiências revolucionárias do século XXI e XX.

Esta imensa capacidade para se libertar dos espartilhos, dos anacronismos, da anorexia e comodidade ideológica de boa parte da esquerda, essa insaciável curiosidade e firme decisom para explorar novos caminhos sem perder nunca o objectivo estratégico de superar a propriedade privada, foi o que permitiu que o proletariado português posterior à crise revolucionária do 25 de Abril, que tam lucidamente soubo interpretar e explicar, tenha contado no seu seio com um militante tam destacado e difícil de substituir.

Como bom conversador gostava de ouvir e de perguntar. Com umha voz suave e um tom sereno era umha pessoa dialogante, mas nunca desfaleceu na hora de questionar com intransigência toda forma de desigualdade e injustiça. Era conciliador e respeitoso com a diversidade e o pluralismo ideológico d@s que combatemos o capitalismo, permeável e aberto com os excluídos, audaz frente às inércias e o conservadorismo; mas também era dos que nom toleram enganos e tretas na hora de justificar com discursos moles e edulcorados a dominaçom capitalista. “Claro que a participaçom nas eleiçons pode ser necessária, mas numha condiçom: termos a certeza de que vamos utilizar as instituiçons burguesas e nom deixar-nos utilizar por elas”.

Tinha esse dom para lograr que dúzias de jovens aos quais podia superar em mais de seis décadas seguissem com atençom e fascinaçom as suas opinions de veterano combatente que nem capitulava nem renunciava a tomar o céu por assalto.

O Chico era dessas pessoas que continuamente nom deixa de surpreender. A sua ruptura com os dogmas e os fetiches do passado, a permanente adequaçom teórica às mudanças do presente foi o que permitiu evoluir a partir desse refractário marxismo característico das potências imperialistas, permanentemente contaminado polo chauvinismo, a compreender a justeza da luita de libertaçom dos povos oprimidos europeus. Isto foi o que converteu –inclusive superando incompreensons e contradiçons na sua própria corrente– o Francisco Martins Rodrigues no melhor amigo da causa nacional galega em Portugal, no permanente embaixador da independência da Galiza.

A melhor homenagem é proseguir a inacabada obra que iniciou

Hoje é um dia de combate contra o Capital, mas também de imensa alegria e orgulho de pertencer a esta classe, de satisfacçom colectiva e afirmaçom comunista. Mas este 1º de Maio é também de enorme tristeza porque, após 34 anos consecutivos, o Chico nom desfilou nas ruas de Lisboa. O seu corpo lamentavelmente nom está connosco. Mas sim o seu legado, o seu entusiasmo, a sua vitalidade, a suas contribuiçons para o sucesso da Revoluçom portuguesa e internacional.

Errou no discurso com que finalizava a intervençom na última festa da PO ao afirmar que “podemos ainda ser poucos e fracos. Mas as tempestades que aí venhem vam-nos obrigar a ser muitos e muitas. O partido que dizem que já passou de moda-nom o partido-empresa, nom o partido-administraçom, nom o partido-negócio, mas o partido d@s revolucionári@s, esse há de voltar. Porque é preciso acabar com o pesadelo e começarmos a viver como seres humanos”. Errou pola sua modéstia ao desconsiderar na sua análise a importáncia da sua obra, o imenso capital teórico concentrado e acumulado na PO na hora de contribuir para reconstruir o partido comunista revolucionário nesta singular e específica luita de classes chamada Portugal.

A melhor homenagem que se lhe pode tributar é continuar avante como projecto revolucionário a que consagrou inteiramente a sua vida. Está na hora de recuperar, centralizar, ordenar e publicar as suas reflexons, mas também de evitar o menor sintoma de desmoralizaçom e dispersom que provoca a sua grande ausência. A sua memória nom deve ficar encerrada só entre @s que fomos afortunad@s de compartilhar momentos e combates com um militante comunista da sua dimensom e capacidade, entre quem tivemos o imenso orgulho de o conhecer, de compartilhar com ele as alegrias e insatisfaçons da luita por esse novo mundo. É preciso difundir o legado que nos deixou e a melhor maneira é polo único caminho em que sempre apostou: a luita organizada comunista.

Nom queria finalizar estas breves reflexons de homenagem da Galiza rebelde e combativa que tem umha dívida impagável com o Chico sem umha confessom. Nunca tivem, nunca tivemos oportunidade de lho podermos dizer pessoalmente. Agora reconheço que estou arrependido. Mas por pudor, por um respeito mal entedido, embora em mais de umha ocasiom estivesse a ponto de o fazer, nunca fum capaz de transmitir que sempre gostei e admirei muito o mestre, o companheiro, o amigo, o irmao, o camarada Chico Martins Rodrigues.

Galiza, 29 de Abril de 2008

 

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