Bush precisa de um ataque ao Irám para consolidar a sua hegemonia no Médio Oriente

22 de Dezembro de 2007

Sob o título de 'Falcons no Golfo', Heiner Karuscheit assina este artigo de análise da situaçom no Médio Oriente e o provável ataque ao Irám por parte do imperialismo norte-americano. Leitura recomendada.

Falcons no Golfo: Bush precisa de um ataque ao Irám para consolidar a sua hegemonia no Médio Oriente

Heiner Karuscheit

Bush insiste em que pretende “resolver o problema nuclear do Irám” antes do fim do seu mandato. É um alerta para a iminência de umha guerra.

Os objectivos políticos de Cheney-Bush com a invasom do Iraque fracassárom. Em vez de ter estabelecido no Iraque um governo estável pró-EUA, como ponto de apoio no Golfo, enfrentam agora o perigo de desagregaçom. A exploraçom sem perturbaçons do petróleo iraquiano, a baixo preço no mercado mundial, torna-se umha miragem, devido aos constantes atentados nos oleodutos. O general Ricardo Sánchez considera a situaçom no país um “pesadelo” sem fim à vista.

Polo Médio Oriente correm paralelas as linhas de força internacionais, por aqui vai passar por muitos anos a repartiçom global do poder. Para fundamentar a hegemonia norte-americana na regiom, o governo Cheney-Bush apostou na chamada política de transformaçom. A partir do Iraque, havia que desestabilizar os corruptos governos árabes, da Arábia Saudita ao Egipto, que seriam substituídos por governos modernos, poderes civis aliados a longo prazo dos EUA.

Esta estratégia falhou totalmente, em conjunto com a guerra do Iraque. O triunfo eleitoral do Hamas na Palestina e os Irmaos Muçulmanos no Egipto demonstrou o que a “democratizaçom” significa na prática : o avanço dos movimentos de massas islámicos, unidos, apesar das diferenças nacionais, na causa comum da oposiçom aos EUA.

Sobretodo, nom se conseguiu vergar o Irám. Foi o contrário. A sua hegemonia no Golfo aumentou depois da ocupaçom do Iraque. E o Irám nom só conta com umha populaçom mais numerosa e está melhor equipado militarmente do que estava o Iraque, como pode recorrer às milícias armadas do Hezbolah no Líbano e de Badr no Iraque. Além disso, a política pró-israelita de Washington ofereceu ao Irám a carta anti-Israel, ultrapassando a tradicional oposiçom persa-árabe e chamando para o seu lado a massa da populaçom árabe.

Enfraquecida polo desastre no Iraque, a administraçom norte-americana sofreu outra derrota na regiom do Mar Cáspio. A sua instalaçom no Turquemenistám e Azerbeijám, como base para a guerra no Afeganistám e ponto de partida para o controlo do petróleo e do gás – o que colocaria na sua dependência a Europa e a China– está praticamente reduzida a nada polo acordo de 16 de Outubro, na cimeira de Teerám, que reuniu a Rússia, Irám, Turquemenistám, Cazaquistám e Azerbeijám. Numha clara viragem contra os planos de Washington, estes governos declarárom que “em nengumha circunstáncia” permitirám que um terceiro Estado “utilize o nosso território para um ataque contra um país membro” e defendêrom o programa nuclear do Irám.

Por último, o crescente distanciamento da Turquia, imprescindível como posto avançado da NATO, mas que devido à questom curda se afasta dos seus grandes aliados.

Só na Europa melhorou a situaçom de Washington devido à mudança de rumo de França. Com as ameaças de guerra a Teerám por parte de Sarkozy, as suas censuras à Rússia por causa da questom energética e o acordo para o estacionamento de mísseis dos EUA na Europa Central, Sarkozy passou França de aliado da Rússia a aliado dos EUA.

Porquê esta viragem ? O eixo russo-alemám-francês de 2003 era dirigido contra as ambiçons “unipolares” de Washington na guerra do Iraque. Mas enquanto França desempenhava um papel secundário nesta aliança, a Alemanha ganhou novos espaços devido à sua aliança com a Rússia. Isto acabou por se tornar inaceitável para Paris e levou-no a mudar de aliado.

O DILEMA AMERICANO

Washington só pode compensar a sua derrota no Iraque com umha batalha triunfal no Irám. Só assim poderia conseguir a sua meta inicial de impor a longo prazo a sua hegemonia no Médio Oriente.

É certo que, teoricamente, Bush poderia abandonar a política de confrontaçom, dar a Teerám umha garantia de nom-agressom, normalizar as relaçons, levantar as sançons económicas e esperar que o regime clerical se dissolvesse, até porque nom goza de um apoio absoluto entre a populaçom. Já se provou que a política de pressom estabiliza em vez de desestabilizar o regime.

Porém, sejam quais forem as forças políticas no poder em Teerám, nengum governo poderá vir a ser vassalo de Washington : ainda nom se apagou da memória dos iranianos o derrube do governo de Mossadegh pola CIA e a “revoluçom islámica” de 1979. Washington nom tiraria proveito de umha política de cooperaçom; polo contrário, seria o Irám que fortaleceria mais ainda a sua posiçom no Golfo.

Daqui o grande dilema dos EUA : se nom abater militarmente o Irám pode dar por perdida a sua hegemonia no Golfo. Como é óbvio, nengum governo em Washington está decidido a aceitar umha derrota. Os partidários do ataque nom prevalecem só entre os republicanos; os candidatos do Partido Democrata, Hillary Clinton, Barack Hobama e John Edwards já manifestárom a sua aprovaçom a um ataque militar.

Se o “ensaio geral” no Líbano tivesse tido êxito, o ataque a Teerám provavelmente já teria sido levado a cabo. Mas foi o contrário que sucedeu. A influência síria-iraniana mantivo-se, Israel sofreu sérios reveses e nem sequer conseguiu libertar os soldados presos, que era o pretexto da guerra.

REALINHAMENTO POLÍTICO DE WASHINGTON

A nova estratégia para conseguir a mesma meta foi posta em prática com o aumento de tropas no Iraque no início de 2007 e com umha reorientaçom política silenciosa de Washington quanto às forças internas do Iraque e aos países árabes.

No Iraque alargárom-se as alianças com forças xiitas e com sunitas (unidades de polo menos 50.000 homens), a que fôrom dados armas e dinheiro para actuarem ao lado do ocupante.

Na Arábia Saudita, Egipto, Jordánia e nos emirados pujo-se termo à política de Condolezza Rice, de transformaçom e “democratizaçom”, e passou-se a esforços para estabilizar esses Estados. Antes considerados antidemocráticos e anacrónicos, hoje recebem armas no valor de 70 mil milhons de dólares e estám a ser agrupados numha coligaçom anti-iraniana. Na maioria desses países fôrom estacionados sistemas Patriot destinados a neutralizar o temido contra-ataque inimigo depois de um ataque a Teerám.

Paralelamente, Washington procura regularizar o conflito israelo-palestiniano. Congelado durante anos por se considerar que o problema essencial da regiom nom era a ausência de um Estado palestiniano mas a ausência de democracia, Washington propagandeava Israel como modelo democrático e dava livre curso aos seus programas de colonizaçom. Agora, com a conferência de Annapolis, procura resolver-se o obstáculo principal à inclusom dos Estados árabes numha frente de guerra contra o Irám, e para isso, Israel é pressionado para aceitar o fim da política de colonizaçom.

Para dar aos seus aliados sunitas maior influência no Iraque, a Casa Branca tem-se esforçado por derrubar o presidente xiita Nuri Al-Maliki e suspendeu o fornecimento de armas ao seu exército e polícia, o que levou este a comprar armas à China no valor de 100 milhons de dólares.

No princípio de Outubro os grupos xiitas mais influentes (Abdulaziz Hakim e Muqtada Al-Sadr), reagindo à viragem nas alianças norte-americanas, acordárom um “pacto de honra” para o fim das hostilidades mútuas. Isto permite entender o actual retrocesso da violência neste país: os ataques aos soldados norte-americanos diminuírom porque umha parte dos rebeldes sunitas passárom para o lado dos ocupantes; os atentados contra iraquianos diminuírom devido à trégua entre as milícias xiitas. O futuro dirá se esta acalmia se mantém no caso de estalar um ataque a Teerám.

O general Sánchez calcula que o exército americano precisará de polo menos dez anos para se refazer do desaire no Iraque. Isto leva Washington à conclusom de que a guerra deve ser feita do ar, apoiada por alguns comandos terrestres. A meta realista para os EUA é destruir as capacidades militares do Irám, os centros industriais e as infra-estruturas, de modo que por um largo período o Irám deixe de ser umha ameaça. Assim se estabeleceria um novo equilíbrio entre os países árabes, armados, e um Irám enfraquecido. E sobretodo umha nova relaçom com a Rússia. Quando adverte para o perigo de umha terceira guerra mundial, Washington tem em vista a Rússia. É possível por isso que procure, num futuro nom muito longínquo, comprar a reserva de Moscovo fazendo compromissos a outros níveis.

 

Horizons et Débats, Zurich, 3 Dezembro 2007

 

 

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