A propósito de Chávez e as FARC: a insurgência armada é história, presente e futuro

11 de Junho de 2008

Recentemente pudemos ver nos meios de comunicaçom um apelo do presidente venezuelano ao fim da via armada praticada polas FARC na Colômbia, por alegadamente ter "passado à história". Reproduzimos a seguir um artigo do revolucionário dominicano Narciso Isa Conde sobre a questom.

A propósito de Chávez e as FARC: a insurgência armada é história, presente e futuro

Narciso Isa Conde (CCB República Dominicana)

Com todo o respeito, com todo o carinho solidário que professei e professo pola revoluçom bolivariana da Venezuela, com a grande admiraçom que tenho ao comandante Hugo Chávez Frias, decidim expressar publicamente o meu desacordo político e conceptual com o seu recente pronunciamento sobre o tema das FARC, a luita armada, a guerra de guerrilhas, a troca de prisioneiros e a paz na Colômbia.

Nesse tema teria preferido referir-me –como figem em meses anteriores– ao Chávez que falou da troca humanitária, do intercámbio de prisioneiros entre ambas partes, da necessidade de reconhecer as FARC-EP como “força beligerante”, da impossibilidade de derrotar a insurgência armada pola via militar, das perspectivas de umha saída política ao conflito armado sobre a base de diálogos sérios, do carácter do regime de Uribe como instrumento de guerra dos EUA...

As declaraçons de Chávez

Mas no pronunciamento que comentamos –e que já percorre todos os meios de comunicaçom do planeta– o comandante Chávez propujo ao novo Comandante em Chefe das FARC-EP/, Alfonso Cano, o seguinte:

- Que liberte todos os reféns “em troca de nada”.

- Que a guerra de guerrilhas na América Latina e nas Caraíbas “nom está na ordem”… “passou à história”.

- Que devem desistir desse caminho porque as FARC som o “pretexto” para agredir os países vizinhos, para acusar de terroristas ou de proteçom ao terrorismo, e para desatar a guerra na regiom.

- Que devem negociar de imediato a paz, aceitando o concurso da OEA e de governos por ele mencionado.

Importáncia relativa da Troca

Confesso que para mim o mais objectável dessa posiçom de Chávez nom é o relativo à liberdade, por conta própria e sem condiçon, dos(as) prisioneiros(as) em maos das FARC, apesar do válido e justo que seria nom pensar este tema em termos unilaterais mas de real intercámbio em condiçons de segurança para ambas as partes.

É, além do mais, bem discutível aquilo de que estar preso nas montanhas, em acampamentos guerrilheiros, é pior do que estar em cárceres colombianos em maos de gendarmes que torturam, espancam, fam passar fame…

Mas isso nom é o fundamental, como também nom é a sugestom da unilateralidade na decisom, dado que um passo desse tipo poderia ser um gesto humanitário necessário e politicamente conveniente num momento determinado. As próprias FARC já actuárom dessa maneira em ocasions anteriores, ainda que certamente qualquer um se farta de ser flexível, enquanto o outro nunca cede e ainda golpeia cruelmente as tentativas de intercámbio; enquanto os camaradas de luita e opositores passam penúrias em cárceres cruéis e imundos, e até som extraditados como vulgares delinqüentes.

Quanto às formas de luita

Para mim o fundamental é todo o que o comandante Chávez expressou a seguir com respeito à impertinência e os preconceitos sobre a luita armada que livram as FARC-EP e da guerra de guerrilhas no continente.

Porque realmente as formas de luita nem se inventam nem se decretam, surgem como necessidade, fam-se pertinentes, som criadas polos povos, impulsionadas e organizadas polos(as) revolucionários, desenvolvem-se dentro de determinadas condiçons.

Daí que seja impossível declarar a sua caducidade ou impertinência a partir de qualquer tribuna, mais ainda se for exterior à sua dinámica.

Na verdade, se umha determinada forma de luita –guerrilheira ou nom, armada ou nom, insurgente ou nom– for um dado da realidade, umha luita do presente, nom é válido dizer que a mesma “passou à história”.

Mas, além disso, nengum método de luita –confirmada a sua eficácia– passa a ser algo simplesmente histórico, enquanto perduram as causas que o motivárom; Ao invés, geralmente tem reincidência periódica com velhas e novas modalidades. Isto e assim ainda que deixe de estar presente num dado período e ainda que inclusive tenha sido derrotado o movimento que a pujo em prática e a despregou.

Isto fai mais sentido quando de resistências, rebeldias e/ou ofensivas irregulares se trata, sobretodo em funçom das luitas populares.

A guerra de guerrilhas é tam antiga como o combate contra a escravatura e atravessou e atravessa a história e o presente continental e mundial. Também outras variantes da luita armada hoje estigmatizadas polos novos conquistadores e recolonizadores.

Os estalidos sociais e as insurreiçons urbanas também, incluindo os levantamentos militares como o que Chávez e os dirigentes do Movimento Revolucionário Bolivariano 200 encabeçarom há já três lustros.

Tal pode dizer-se na Venezuela anterior a 1992 que nos exemplos dos militares Caamaño e Fernández Domínguez na República Dominicana, dos oficiais venezuelanos de Carupano e Porto Cabelo, de Torrijos no Panamá, de Velasco Alvarado no Peru e Torres na Bolívia (todos ocorridos na década do 60 e princípio dos 70), tinham “passado de moda”, nom estavam à ordem ou simplesmente “passaram à história”.

Mas nom foi assim.

Recordo, quando fazendo umha generalizaçom inadequada –esse gigante revolucionário que responde ao nome de Fidel Castro– afirmou no IV Foro de São Paulo em 1994 em Havana– que o caminho da luita armada estava clausurado na América Latina e as Caraíbas. E pouco tempo depois estourou o levantamento indígena armado em Chiapas-México, encabeçado polo Exercito Zapatista de Libertaçom Nacional (EZLN), enquanto a insurgência armada colombiana continuou vigente.

Recordo também quando o Chanceler Roberto Robaina e o próprio Fidel, em respectivas visitas oficiais à Colômbia, se pronunciarom do mesmo modo e no entanto a insurgência armada nesse país seguiu o seu curso ascendente e o seu próprio caminho.

Nom há receitas, nem processos idênticos, regulares. Pode haver umha tendência mais ou menos proeminente numha parte dos países do continente, mas sempre dentro de umha significativa diversidade.

Presente da insurgência colombiana

Na Colômbia, há algo mais do que umha “guerra de guerrilhas”. Há umha forte e enraizada insurgência armada predominantemente rural, integrada sobretodo polas FARC e o ELN.

A partir das FARC foi constituído um verdadeiro Exército Popular, com várias dezenas de milhares de guerrilheiros(as) e milicianos(as).

FARC é história, é presente e fica-lhe muito futuro, apesar do difícil momento em que se encontram hoje.

Acho justa a avaliaçom e certeiro o vaticínio que recentemente fijo o analista Francisco Ferreiros quando afirma:

“As FARC nom som umha narcoguerrilha terrorista encurralada e impulsionada pola ambiçom de umha cúpula delirante e obsoleta, como propom a intoxicante propaganda oficial.”

”As FARC som um movimento político e militar, representante de um sector específico da sociedade colombiana, como o campesinato deslocado das suas terras, excluído e massacrado por dezenas de anos de paramilitarismo; dotado de um programa político que perseguiu com exemplar tenacidade, e que nos seus 44 anos de luita construiu o mais parecido a um exército popular e alternativo que registe a história moderna.”

”As FARC som um exército popular que nos seus 44 anos de história aprendeu umha táctica de luita que domina em forma magistral, baseada na mobilidade e no conhecimento do território, herdada diretamente da genialidade de Marulanda.”

“É verdade que a sua morte, ainda que paralela à ofensiva frontal ordenada por Uribe, coincide com umha série de reveses encaixados polas FARC no último tempo, entre eles, os assassinatos dos membros do Secretariado Raúl Reyes e Iván Ríos”...

“Por mais do que a confluência destes factores, no contexto de umha ofensiva militar que já se prolonga por seis anos, apoiada por recursos económicos quase ilimitados e um imponente potenciamiento da capacidade operativa das forças armadas do Estado, configure umha das etapas mais críticas da história das FARC, nom é a primeira nem determina em modo algum a sua derrota. Em termos comparativos, bem mais comprometedores para a sua sobrevivência fôrom os golpes recebidos polas FARC nos alvores da sua história, quando estava a construir a sua experiência de combate.”

“De todas as suas crises as FARC soubérom tirar liçons, e esta nom será umha excepçom”.(1 Junho 2008)

Pertinência da acumulaçom militar desde o campo revolucionário

Desmobilizar o acumulado militarmente pola insurgência colombiana, além de um acto suicida, equivaleria a facilitar o plano estratégico militar dos EEUU na regiom, e muito especialmente eliminaria-lhe um importante obstáculo à vertente sul-americana da sua guerra global destinada a apoderar-se militarmente de grande parte da Amazonia.

É isso que nom está nem “na ordem” nem à altura das ameaças imperiais do presente.

As FARC, como força política e militar, deve ser preservada e desenvolvida; e o desejável agora nom é que incorram no grave erro de umha negociaçom conducente ao desarmamento e à aceitaçom da actual ordem institucional, mas na superaçom das suas actuais dificuldades para a retomada do seu ritmo de crescimento e expansom para contribuir para a criaçom de umha nova Colômbia, a Colômbia bolivariana.

Isto nom só polo valor específico que tem o seu peso político e militar para a mudança para umha nova institucionalidade num país onde existe um Estado narco-para-terrorista (com pretensons de sub-imperialismo regional), com umha oligarquia feroz e umha intervençom militar estado-unidense em escala ascendente, mas além disso –e sobretodo– polo que pode contribuir pola sua grande capacidade de resistência e a sua valiosa experiência na guerra irregular para contrarrestar, dissuadir e/ou contratar e atolar o plano de ocupaçom militar dos EUA da Amazonia e os propósitos gringos e oligárquicos de desestabilizaçom e derrota dos processos transformadores da Venezuela, Equador e Bolívia.

No Norte da América do Sul –vértice da onda revolucionária regional– o plano de conquista neo-imperial dos EUA conta com três grandes obstáculos: 1) as FARC, as outras forças insurgentes e todos os movimentos políticos e sociais alternativos colombianos 2) o governo de Chávez e o processo para a revoluçom na Venezuela e 3) o governo de Rafael Correa e todo o que representa esse processo.

Sou dos que pensam que a existência das FARC dificultou sensivelmente o plano de intervençom gringa contra a Venezuela e o Equador. E isso, a meu entender, explica o empenhamento de Uribe e os falcons de Washington em afectar sensivelmente e em tratar de derrotar miltarmente essa grande força insurgente.

O debilitamento de qualquer desses três factores (alvo de ataques do imperialismo) afectaria indubitavelmente aos demais. A sua unidade, além dos estigmas e preconceitos distanciadores, é de vital importáncia para essa zona do continente e para toda a regiom.

Pretexto?

As FARC, pois, nom som um simples pretexto para a agressom imperialista, capaz de dissolver o perigo com o seu desaparecimento como força político-militar.

Nada disso.

As FARC som um factor de resistência à ocupaçom da Colômbia e da Amazonia polas forças militares ao serviço dos falçons de Washington.

FARC é um importante componente da potencial capacidade para despregar a partir dos povos e Estados soberanos a guerra assimétrica que poderia impedir o propósito essencial do capital multinacional estado-unidense de tomar conta do petróleo, o gás, o carvom, os minerais estratégicos, a água e a biodiversidade conservada numha das regions mais ricas nesses recursos vitais. Agora mesmo estám a enfrentar umha guerra imperialista de baixo e médio perfil com tendência a subir de nível na Colômbia e além.

Os governos da Venezuela, do Equador e da Bolívia, dada a sua autodeterminaçom e o seu empenhamento em controlarem os recursos que lhes pertencem, estám na mira dessa agressom político-militar, como estám as FARC e todo o que na Colômbia representar umha mudança política-social nessa mesma direcçom.

Nom é questom de pretexto. É questom de propósitos e interesses poderosos.

Se os imperialistas e os seus sócios nom pudessem esgrimir as FARC, inventariam outro motivo para esses mesmos fins.

No Iraque nom tinha FARC, mas sim “armas de destruiçom em massa”.

No Afeganistám nom estava Marulanda, mas havia que mandar tropas a “capturar” a sua tenebrosa criatura: Bin Laden.

Na Venezuela nom há guerrilha, mas sim “um grande ditador”, ganhador de 10 eleiçons limpas e perdedor de um referendo constitucional.

Na Bolívia nom há FARC, mas sim um índio cocaleiro e umha oligarquia que tenta esquartejar o país boliviano que controla.

E assim até que a imaginação dos intelectuais do falconismo alcançar, sem obviar o facto de que na Venezuela, antes de que Chávez entrasse a mediar entre as FARC e o governo, já Uribe e a CIA tinham umha avançada para o assassinarem e desenhada junto o Pentágono o plano para “independizar” a Zulia e ficar com essas reservas de petróleo.

Entende-se menos ainda este giro político por…

Mas antes de que o comandante Chávez produzisse estas inexplicáveis e surpreendente declaraçons, tivo lugar na sua presença um conjunto de exercícios e demonstraçons militares destinadas a projectar a disposiçom e capacidade das Forças Armadas Bolivarianas e do povo da Venezuela para enfrentar umha possível invasom gringo-colombiana a partir de umha variante da guerra assimétrica.

Até as habilidades dos avions Zukoi soárom como advertência!

Isto indica que a liderança venezuelana tem consciência do que pode vir de parte do imperialismo ianque e do “sub-imperialismo” uribiano-santanderista, e a resposta que merece.

Por isso se entende menos ainda esta nova reacçom do talentoso e valente presidente de Venezuela frente às FARC e com respeito ao real significado da sua existência como experimentada organizaçom político-militar, valioso componente dentro de umha eventual guerra de resistência popular bolivariana.

Porque se a capacidade insurgente popular, o despregamento da guerra de todo o povo, a modalidade apropriada de guerra irregular ou de guerra assimétrica… é a única garantia da dissuasom e da confrontaçom com sucesso do terrível plano militar intervencionista do Pentágono e os seus aliados, entom há que convir em que as FARC constituem um das pilares já conformados e experimentados para abordar semelhante e tremenda situaçom.

Entom porque considerá-la como causa-pretexto da agressom e nom como componente da resistência dissuasiva contra ela?

Atençom: política de Estado vs. política revolucionária? táctica vs. estratégia?

Penso que neste giro há algo do dano que muitas vezes fai dar proeminência à política de Estado como tal, inclusive aos jogos diplomáticos e as manobras tácticas, acima das questons cardeais e estratégicas de umha revoluçom, que como o próprio Chávez colocou, transcende as fronteiras Venezuelanas para contemplar o único palco do seu possível despregamento: a Pátria Grande latino-caribenha.

A alta presença paramilitar colombiana (paracos) na Venezuela e no Equador fai parte de um plano de infiltraçom que aponta na direcçom de acçons contrarrevolucionárias que nom se deterám guardando distáncia frente às FARC e fazendo reclamos a favor do seu desarmamento e desmobilizaçom, cousa que de resto confunde e afecta à esquerda revolucionária da regiom.

Mas, ainda que seja claro que o grande obstáculo a umha paz digna e democrática nom é as FARC mas o regime de Uribe e os imperialistas estado-unidenses, que só concebem o acordo como rendiçom ou desarmamento das organizaçons revolucionárias e como continuidade de Estado oligárquico-dependente e do modelo neoliberal.

Se algo há que extrair da maioria dos acordos de paz no continente, é o prejudicial que resultou para os povos a permanência da institucionalidade tradicional (democrática-liberal-representativa) e a estabilidade do poder permanente tradicional (forças armadas, relaçons de propriedade oligopólicas e monopólicas, poder multinacional, latifúndio, mafiocracia...)

Nisto deve aprender-se da lógica vietnamita: dialogar, negociar, conseguir acordos... sem afectar a relaçom de força atingida e os propósitos de transformar o país em funçom dos interesses populares e nacionais. Avançar para umha paz digna ao compasso dos lucros no campo de batalha e em todos os palcos da luita de classe, patriótica, política, social e cultural. E se as FARC se decidissem a actuar no sentido contrário a esta lógica de novo poder, de poder do povo, estariam ao meu modesto entender actuando contra si mesmas e contra a sua razom histórica. E eu situaria-me entre aqueles(as) que o lamentaria muito.

Hoje, no meio dos sérios problemas e perigos que afectam e acejam essa força revolucionária irmá da Colômbia, sinto-me mais solidário do que nunca com respeito a ela, precisamente por aquilo de que som mais amigo dos meus amigos quando mais dificuldades tenhem e mais precisam da minha amizade e solidariedade desinteressada.

Assim agim também com respeito ao comandante Chávez desde aquele momento em que decidiu por em alto a dignidade militar nos quartéis, quando sofreu injusta prisom e todo ao longo do seu intenso, arriscado e decoroso batalhar por umha nova democracia e um novo socialismo, na sua pátria pequena e na nossa pátria grande. A minha proximaidade de Caamaño em 1965 permitiu-me entendê-lo e valorizá-lo na sua real dimensom. E disso nom me arrependerei jamais.

Nom há, pois, agressom algumha nas minhas palavras e nas minhas críticas frente a umha liderança que valorizo e apreço como o que mais. Há convicçons sinceras, ideias firmes e palavras fraternas frente a realidades complexas e situaçons difíceis, expressadas com todo o ánimo de que do debate franco e do intercámbio com altura espiritual brote a certeza e a verdade. Que assim seja. (9 de Junho 2008-Santo Domingo)

 

Voltar à página principal