O sacrifício dos homens nom se mede polas revistas de moda

13 de Junho de 2008

Passárom de moda as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia? A revolucionária cubana Celia Hart responde neste artigo ao presidente venezuelano, que considerou 'fora da ordem' a estratégia política-militar das FARC colombianas, num momento especialmente difícil para essa força revolucionária marxista.

O sacrifício dos homens nom se mede polas revistas de moda

Celia Hart

E cá nom vou chamar-lhe presidente nem umha vez. Porque a minha reflexom é com o camarada Chávez, que considero um esteio para a vitória da Nossa América. Este camarada polo qual tenho sido feliz ou infeliz até os limites derradeiros da palavra em cada caso.

Falo com a fé que me assiste ao seguir de par e passo este novo latejar revolucionário, por ter escrito à contramao de uns e outros qualqer episódio na Venezuela moderna, por ter estado incondicionalmente do seu lado em todas as suas batalhas, embora infelizmente apenas com a arma fria do meu teclado e a minha voz.

Acabei de ler, por desventura, a notícia de Telesur, onde som expostas as posiçons de Chávez em relaçom a que a luita armada é um recurso passado de moda. Palavras que dixo no último Aló Presidente.

Tivem que me convencer de que era certo e nom umha manipulaçom do inimigo. Era-me impossível acreditar que aquele bravo soldado que irrompeu com as armas no 4 de Fevereiro de 1992, agora proclamava o “fim das guerrilhas”.

Os revolucionários, dizia o Che, somos movidos por grandes sentimentos de amor. A violência é o derradeiro dos recursos para a liberdade. Ninguém prefere viver e morrer numha selva e menos ainda estar longe da vida e da família.

A violência é um dos poucos recursos que nos deixa o inimigo, e devemos ser conseqüentes para o assumir, mesmo se estivermos enganados.

“Tecnicamente” pode ser que o Moncada nom fosse um caminho para a revoluçom cubana, isso se encarregárom de dizer os estalinistas do velho partido do PSP; o ataque ao Palácio Presidencial polos jovens do Directório Revolucionário de Cuba pudo estar mal calculado; a greve de Abril, etc.

Mas nunca Fidel nem nengum revolucionário que se respeitasse ousárom criticar estes actos de amor… em público como se se tratasse de um dia de pesca. Sim, porque som actos de amor e de entrega… E isso nom pode ser criticado à toa numha alocuçom.

A entrega SEMPRE está na ordem, e muito mais nestes insípidos tempos onde todo pretendemos resolvê-lo com umha assinatura, um papel ou umha assembleia.

O companheiro Chávez escolheu o pior momento da história para criticar as FARC-EP. Em três meses escassos, as forças guerrilheiras perdêrom dous dos seus líderes fundamentais: Raul Reyes assassinado sem piedade, violando toda convençom dentro do território equatoriano, motivo polo qual o presidente Rafael Correa nom pudo restabelecer relaçons diplomáticas com esse país… e ainda depois, o vexado é acusado de ser cúmplice de terrorismo… Manual Marulanda morre nas selvas da Colômbia após luitar polos ideais de Bolívar durante mais de sessenta anos. Seja ou nom atractiva a guerrilha para estes frívolos tempos, ninguém, absolutamente ninguém tem o direito de questionar o direito à rebeldia.

Lembro-me, lá em 1992, que muitos questionavam o golpe militar de aquele magro oficial venezuelano e criticavam que Fidel o recebesse… os golpes de Estado nom estavam na moda… Mais ainda: som mais questionáveis do que as guerrilhas; no entanto, muitos de nós percebemos umha mudança; um túnel na luz na audácia de aquele jovem que com o simples recurso a Bolívar, se erguia com os activos do próprio exército republicano.

E agora di Chávez: a guerra de guerrilhas passou à história.

Para a guerra de guerrilhas passar à história, se formos marxistas de facto e nom de papel, as condiçons que originam essa forma de resistência devem ter passado também à história. E eu nom creio que tal tenha acontecido. As origens da exploraçom som mais evidentes, mais explícitas e mais marcadas do que nunca.

Oxalá –para nosso bem– a resistência do Afeganistám, do Iraque e da Palestina dem encontrado o caminho das guerrilhas organizadas e coerentes.

Nom, Chávez: nem as guerrilhas, nem as greves, nem a propaganda revolucionária… nengum modelo de resistência passa de moda! Todos os métodos som válidos. O único reprovável é essa tentativa pueril, raquítica… e doentia já, de dialogar com aqueles que nos arrebatam os poucos recursos que deixárom os colonizadores: a terra, o ar e o resto da nossa dignidade.

Afirmou o meu companheiro Chávez neste domingo:

“Está na hora de as FARC libertarem todos os que tenhem na montanha”. Seria um gesto “em troca de nada”.

Nom está na hora de nada, a nom ser de luitar, e enquanto o assassino governo da Colômbia nom libertar as centenas de prisioneiros que tenhem nos seus cárceres e se submeter aos julgamentos polos atropelamentos fascistas de milhares e milhares de luitadores, a única alternativa que temos é luitar.

Está na hora, isso sim, de as FARC chorarem o suficiente polas suas perdas e retomarem ELAS sozinhas os destinos de umha organizaçom que, com as suas infinidades de defeitos e carências, tem sabido manter-se beligerante, violando as sagradas regras do fim da história.

O primeiro que deveríamos fazer, quer sejamos presidentes, quer mendigos… se formos revolucionários, é oferecer-lhes solidariedade e apoio. Ao menos isso é o que me diria o Che Guevara, agora que andamos perto do seu 80 aniversário…

O Che que querem cristalizar em estátuas.. o Che que esetaria na Colômbia, ou na Palestina, a mostrar-nos os caminhos da redençom do homem.

“Pareceria criar condiçons favoráveis para um processo de paz na Colômbia”, polo qual a libertaçom de todos os refêns “poderia ser o primeiro passo” para o lograr.

Processo de paz na Colômbia? Com Uribe a tentar inclusive ser reeleito? Com a IV Frota a uns passo da Venezuela bolivariana? Com as valas comuns cheias de esquartejados ecom famílias desfeitas?

O governo da Colômbia nom só nom quer ter paz, a nom ser com os revolucionários de joelhos… e de costas (já agora); como que nom quer a paz para os seus vizinhos Equador e Venezuela. Tem-no demonstrado de forma tam cristalina, que pode ser transmitido em cartons infantis e os pequenos saberiam identificar o “mau da fita”.

Se existe um instante em que nom podem dormir os revolucionários da Grande Colômbia é este, seja qual for o próximo presidente dos Estados Unidos! A triste história desse país desangrado desde o assassinato de Gaitán nom vai ser resolvida por um par de acordos e com uns guerrilheiros a descer cabisbaixos das montanhas.

O primeiro passo é que tomem corpo as forças beligerantes, que cresçam em auto-estima, que revalorizem os seus métodos de acçom e que nom claudiquem… hoje considero um pesadelo que Chávez as convide a abandonarem a sua luita só porque a guerrilha nom usa mini-saia.

“Com um grupo de países, estou certo que a Argentina, o presidente do Brasil (Luís Inácio Lula) liga-me cada pouco, o presidente da Nicarágua, (Daniel Ortega), o presidente do Equador (Rafael Correa), de França (Nicolás Sarkozy), o presidente do Govierno espanhol (José Luis Rodríguez Zapatero), estou certo que ajudaria até o de Portugal Sócrates, o mesmo rei de Espanha, se calhar o mesmo Vaticano, comissons da OEA, a umha paz que seja respeitada”, garantiu.

“Pido ajuda aqui ao mundo, porque eu me sinto gram-colombiano. Já basta de tanta guerra, chegou a altura de sentar para falar de paz, apelamos o mundo para procurar esse caminho”.

Poderia mencionar um por um estes, os supostos aliados de Chávez para extirpar as guerrilhas do continente; mas só me referirei aos mais sintomáticos…

A Lula, se fala com ele a diário, pedia-lhe, para começar, que retire as suas tropas do infeliz Haiti, e que os seus soldados deixem de massacrar o povo mais infeliz da América;

A Sarcozy, cominava-o para que deixe as suas práticas pseudo-fascistas com os imigrantes, que os jovens desse país podem dar-lhe novamente um bom susto;

E com o Rei… o Rei de Espanha, meu Deus!... talvez lhe ocorra mandar calar novamente Chávez, ainda com os seus bons ofícios.

Hugo Chávez confunde-se de aliados; em política, na guerra, na amizade e no amor… isto é muito perigoso.

Os revolucionários do mundo vemos na figura de Chávez um referente e um apoio. Nom nos interessa a sua embestidura presidencial, interessa-nos a sua voz revolucionária. A importáncia de Hugo Chávez consiste em ter posto em andamento polo mundo (inclusive com todos os defeitos e ambigüidades) as palavras revoluçom e socialismo.

Nom é a sua aliança com os presidentes, quaisquer que forem, como se armará a Grande Colômbia… Santander está ao acejo a caminhar pola Meia Lua de Santa Cruz na Bolívia pode pular para Zulia e para outros estados ricos da Venezuela. Os aliados de Chávez som os que nom tenhem ambiçons materiais nas nossas terras e os que nom nos interessam as fronteiras nacionais, sempre que seja respeitada a fronteira da dignidade.

“Nesta altura está fora da ordem um movimento guerrilheiro armado. Isso há que dizê-lo às FARC, isso era o que queria dizer a Marulanda”, “Lamentou novamente nom ter podido reunir-se com o líder guerrilheiro a quem, assinalou, queria expressar o seu pedido de libertar todos os retidos”.

Só isso? Manuel Marulanda merecia algum diálogo melhor do bom bolivariano. Merecia um diálogo para empreender os caminhos gloriosos do Libertador.

Cuidado! Nom foi o imperialismo que frustrou a independência da América, foi o traidor de Santander e as oligarquias locais.

Há umha confusom quase infantil ao culpabilizar o imperialismo norte-americano de todo, como se o sistema capitalista latino-americano nom respondesse à mesma lógica.

Uribe é à América o mesmo que Olmert ao Médio Oriente. Com esse governo nom pode haver entendimento, além, com certeza, do necessário para relaçons meramente de Estado.

Assim dito, prefiro, embora a alma se me derreta com a dor, que Chávez nom se tenha podido reunir com Marulanda. Morreu em paz, entom o grande luitador.

Nom é justo, sob nengum conceito ético, que com duas palavras se reduza a “desnecessário” ou “passado de moda” o que custou a vida a centenas de milhares de irmaos latino-americanos.

O presidente venezuelano asseverou que a existência das guerrilhas se converteu numha escusa do império, referindo-se aos Estados Unidos, “para nos ameaçar a todos”.

“O dia que se faga a paz na Colômbia acabou a escusa no império, a principal que tenhem (é) o terrorismo”, dixo Chávez. Agora o que dixérom é que vam montar umha base militar na Colômbia, essa é umha ameaça contra a Venezuela”.

O inimigo nom precisa de pretexto para nos ameaçar, nom necessitou pretexto para invadir Cuba; para o bloqueio, para arrestar injustamente cinco irmaos por cargos absurdos e risíveis; nom necessita pretexto para libertar flores e campainhas ao assassino em série Luís Posada Carriles; e se necessitarem pretextos, inventam-nos com a maior tranquilidade: tal é o caso do computador arrebatado ilegalmente em território equatoriano.

A única escusa do imperialismo é o dinheiro, é o petróleo das bacias do Orinoco, é a água, é o ar, esses som os seus pretextos, e nom a luita histórica dos guerrilheiros colombianos!

Envio final

De antemao pido escusas aos meus leitores, por ter escrito estas linhas com a tinta da paixom e a dor.

Quem me conhece e me tem lido, sabe que tenho acompanhado cada passo da revoluçom bolivariana, desde aquele 15 de Agosto de 2004, defendendo o direito das urnas como um dos métodos possívis para começar umha revoluçom. Defendim-na em todos os cenários possíveis, fum acusado de todo o inimaginável por ter estado do lado deste formoso processo; e continuarei a estar enquanto tiver forças.

Mas o amor é impossível sem honestidade intelectual. E reconheço que em duas linhas escassas o companheiro Chávez me causou mais dor do que a artilharia da IV Frota se chegasse a atacar as minhas sagradas terras americanas.

Esta ligeireza de Chávez sabe-me igual que se o meu filho mais velhos esbofeteasse o meu filho mais novo em público. É umha dor que nom pode ser escondida.

Além do mais, pode haver certa irresponsabilidade, pois neste momento podem estar em perigo as vidas de muitos jovens guerrilheiros que se entreguem em virtude de apoiarem o líder bolivariano. Já aconteceu umha vez há décadas. Embora queiram convencerme de que o presidente da Venezuela bolivariana pactuou com o recém eleito Cano, nom é conveniente. Se a direcçom das FARC concordou nisto… pior ainda.

Quem nom quer a paz som Uribe e o Imperialismo. Eles necessitam a base militar na Colômbia, e vam fazê-la com guerrilhas ou sem elas.

De outra parte, a paz miserável da Colômbia nom é umha opçom. Dixo-o o próprio Fidel Castro na Declaraçom de Havana: “Cesse a filosofia do saque e cessará a filosofia da guerra”.

Veremos, com as ameaças imperialistas, quem serám os aliados do governo bolivariano. Poderíamos pensar que umha incursom armada contra a Venezuela encontrará apoio nas frentes guerrilheiras da Colômbia. Se isto fosse assim, nom quereria conhecer o que acontecerá na alma do nosso querido e respeitado Hugo Chávez.

Cuidado presidente, se o Ministro da Defesa da Colômbia o parabeniza… qualquer cousa muito, mas mesmo muito inadequada terá dito o senhor para a revoluçom.

Estamos às portas do 80 aniversário do Che, que deu a sua vida numha guerrilha americana… Espero que o Che sim esteja na ordem.

Espero bem que nom passe de moda o que o Comandante Guevara dixo no seu Diário da Bolívia:

“Em qualquer lugar que nos surpreenda a morte, bem-vinda seja, sempre esse, o nosso grito de guerra, tenha chegado até um ouvido receptivo”.

Nem que passe de moda tampouco o que o meu Comandante, o único comandante que tenho, esse que me mostrou o caminho da vitória, dixo na introduçom ao Diário do Che na Bolíva… há muitos anos.

“Para nom luitar haverá sempre pretextos abondo em todas as épocas e em todas as circunstáncias, mas será o único caminho de nom obter jamais a liberdade. O Che nom sobreviveu às suas ideias, mas soubo fecundá-las com o seu sangue. Com toda a segurança, os seus críticos pseudo-revolucionários, com a sua cobardia política e a sua eterna falta de acçom, sobreviverám à evidência da sua própria estupidez.”

E Fidel é tal qual um beijo de amor ou umha flor… jamais passa de moda.

Até a Vitória Sempre.

 

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