Galiza em Madrid

9 de Fevereiro de 2008

Publicamos o artigo de Carlos Morais, secretário geral do nosso partido, dedicado a analisar a actualidade política a partir de factos recentes significativos para a afirmaçom nacional da Galiza.

Galiza em Madrid

Esta expressom tem-se convertido num totem para o autonomismo galego, numha locuçom retórica sem conteúdo algum, empregada basicamente na procura de apoios eleitorais, mas carente da mais mínima carga reivindicativa, antes antagónica com a construçom nacional da Galiza.

Porém, pensamos que a Galiza sim deve, sempre que seja necessário, estar em Madrid para defender sem ambigüedades nem jogos malabares que somos umha Naçom com maiúsculas e portanto temos direito a exercer a autodeterminaçom como passo prévio para nos dotarmos de um Estado próprio, plenamente soberano. E, para atingir este objectivo, nom necessitamos o aplauso nem a a aprovaçom da Administraçom espanhola. É um direito e como tal nom pode ser fruto de umha concessom, simplesmente da sua conquista.

Nas últimas semanas pudemos comprovar que existem duas formas completamente diferentes de estar em Madrid por parte da Galiza. Por um lado, estám as diversas visitas realizadas polo vice-presidente da Junta, Anxo Quintana, e por outra, a dos quatro militantes da esquerda independentista imputados por “injúrias graves à Coroa” por um juiz da “Audiência Nacional”.

Quintana em lugar de apoiar com os votos d@s deputad@s do BNG Madalena Álvarez —a hoje invisível ministra de Fomento do PSOE— na moçom de confiança a que foi submetida, logrou de Zapatero umhas miseráveis competências em matéria de museus, arquivos e bibliotecas, além da gestom de alguns edifícios históricos, bloqueadas desde há décadas polos governos espanhóis de serviço. Estas transferências, fruto do que denominou ‘pacto’, fôrom apresentadas, imaginamos que ironicamente, como o “cumprimento de um sonho por parte de milhares de galegos”.

Umhas semanas depois, numha conferência no “Fórum Europa” perante empresários e representantes do grande capital espanhol, deixou bem claro quais som os princípios e objectivos políticos do BNG, dissipando a mais mínima dúvida sobre a sua lealdade e respeito polo regime monárquico em vigor e descartando qualquer veleidade independentista. Previamente, num desses gestos que som mais umha declaraçom e um programa político, foi cumprimentar com um grande sorriso na cara Manuel Fraga, quem ao pé de umha destacada militante do BNG acudia a escuitá-lo.

Entre as diversas mensagens que transmitiu como exemplo de que “os nacionalistas galegos somos gente de fiar” aos sectores oligárquicos presentes no luxuoso salom madrileno, manifestou estar “encantado que os seus filhos aprendam castelhano”. Os meios de comunicaçom recolhêrom claramente esta asseveraçom por parte de Quintana, que um par de dias antes, perante a detençom de dous activistas galegos de Socorro Vermelho Internacional polas forças policiais espanholas, manifestou a sua “alegria”, congratulando-se polos arrestos de pessoas “que violentam a convivência democrática”.

É certo que nom há excessivas novidades em todo isto, pois vem sendo continuidade nom só de declaraçons e opinions manifestadas um dia sim e outro também, mas basicamente porque som expressons da política neoliberal e regionalista que caracteriza o governo bipartido.

Porém, a bijutaria com que Zapatero logrou satisfazer Quintana serve para materializarmos hoje, aqui e agora, todo um fenómeno social fruto de séculos de dependência e um sistema de condutas derivadas da opressom nacional que a esquerda nacionalista há décadas perfeitamente compreendeu e combateu. Decerto que Quintana lembra as actuais e válidas reflexons de Fran Fanon, Robert Lafont ou de Albert Memmi a respeito do auto-ódio e os efeitos da colonizaçom. Mas, contrariamente a elas, na actualidade as suas visitas a Madrid som um magnífico retrato do que um galego consciente nom deveria fazer.

Ir à metropole recolher migalhas dos opressores, ir à metrópole convencer que renunciamos a construir Galiza, conformando-nos com melhorarmos a nossa integraçom nessa falácia da Espanha plural, reproduz simplesmente os atávicos complexos das claudicantes elites deste país ao longo dos últimos cinco séculos na sua relaçom com a Coroa de Castela primeiro, e posteriormente com o Estado espanhol.

Mas existe outra forma de ir a Madrid. Assim foi a atitude dos quatro militantes da esquerda independentista citados a declarar no actual Tribunal de Ordem Pública franquista, rebaptizado agora como “Audiência Nacional”, acusados de terem participado na queima de um boneco de madeira com a figura de Juan Carlos de Bourbon. Acompanhados por dúzias de companheiras e companheiros, fôrom a Madrid com a cabeça bem alta, manifestar o que som, galegos orgulhosos da sua condiçom, e reivindicar liberdade para o seu país. Perante esta atitude rebelde, obviamente, nom fôrom recebidos polas elites económicas e financeiras, e sim pola sua polícia, que os escoltou nas escassas centenas de metros existentes no trajecto entre a rua Génova, à beira dos gabinetes de Rajoi e Acebes, e os jardins das traseiras do novo TOP. Nom recebêrom aplausos, e sim ameaças de castigos, penas de prisom e multas por exercerem um direito tam elementar como o da liberdade de expressom. Nom fôrom a Madrid pedir, e sim exigir e reivindicar. Isso sim tem um preço.

Algum dia, a Galiza estará em Madrid nom para esmolar nem tampouco para reinvindicar ou denunciar a repressom espanhola, e sim para fechar os pormenores pendentes da nova relaçom entre iguais que caberá ao futuro Estago galego e o que fique do actual Estado espanhol. Eis o verdadeiro sonho de milhares de galeg@s.

Quem mais fai para atingir este objectivo?, Quintana ou a esquerda independentista? Eu tenho-o muito claro.

Galiza, 6 de Fevereiro de 2008

 

 

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