Narciso Isa Conde: O Marulanda que conhecim

5 de Junho de 2008

Oferecemos a traduçom galega do artigo do revolucionário dominicano Narciso Isa Conde,

O Marulanda que conhecim

Narciso Isa Conde

O Governo do Presidente Andrés Pastrana e o Secretariado das FARC-EP tinham decidido iniciar diálogos de paz na Colômbia.

O Município escolhido como área de desocupaçom foi San Vicente do Caguán e fum convidado polas FARC-EP entre as testemunhas internacionais.

Entom nom houvo maiores problemas para conseguir o visto colombiano, nem para realizar umha viagem que tivo como ponto de entrada Bogotá (num voo internacional de AVIANCA) e continuou primeiro para a cidade de Neiba e depois para San Vicente (num voo interno de umha campanha propriedade das Forças Armadas Regulares de Colômbia cujo nome nom conseguiu recordar).

Em Bogotá figem contacto, com muita discreçom, com umha pessoa que fijo de ligaçom fariana e que estava no Aeroporto à minha espera e que me levou ao hotel com as indicaçons para o voo interno.

Em Neiba tratou-se de umha escala técnica muito pontual, tam pontual que um oficial do exército subiu ao aviom, perguntou exclusivamente polo meu nome, pegou no meu passaporte, reveu-no devidamente e devolveu-mo.

Apenas isso. Nom mais do que isso. Qualquer cousa para me dizer, sem falar, que estava no “alvo” dos órgaos de inteligência do Estado como “pessoa non grata”. Isso apesar dos diálogos autorizados e da “procura” da paz.

No Caguán: apresentaçom e primeiro abraço

No diminuto aeroporto de San Vicente, pequena povoaçom parecida com Vicente Noble, devia apanhar um táxi até um ponto onde estava posicionado um retém das FARC. Aí devia fazer chegar umha mensagem ao comandante Jairo e ele se encarregaria de me levar ao acampamento onde estavam outros delegados(as) do exterior.

Jairo mandou alguém para me buscar. Estava à minha espera, junto a outros comandantes, numha pequena quinta, de onde mais tarde partiríamos para o acampamento. Ali conhecim Iván Ríos, recentemente assassinado, e almorçamos da manhá juntos umha rica sopa camponesa.

Mais tarde, partimos numha carrinha por caminho cheios de poeira. Longa e calorenta trajectória ao compasso de ballenatos, até chegarmos a um ponto, umha casota, visitada nesse momento polo comandante Raúl Reyes.

Havia pouco que nos tínhamos conhecido, em Sam Salvador (VI Encontro Foro de São Paulo). Abraçamo-nos e combinamos para nos vermos (e decerto visitei-no para o outro dia no seu acampamento e conversamos várias horas). O acampamento de Raúl estava situado ao lado do qual me tocou, onde nos esperava o lendário comandante Tiro Fijo, o camarada Manuel, como carinhosamente lhe diziam todos(as) os(as) combatentes.

Ao chegarmos, Marulanda cumprimentou-me com frases afectuosas e grande singeleza. Vestia calças cinzentas e camisa branca. Cartucheira e pistola ao cinto, com a toalhinha pendurada ao ombro.

Levei-lhe de presente umha canana e umha “mamajuana” com rum velho.

Comunicou-me que nuns dous ou três dias nos reuniríamos em outro lugar com outros(as) camaradas latino-caribenhos e colombianos.

Grande alegria sentim quando dali a pouco deparei com o nosso grande amigo Patricio Echagaray, secretário geral do Partido Comunista da Argentina, e com outros(as) camaradas do continente, entre eles um querido poeta centro-americano.

Marulanda visitava periodicamente as nossas “caletas” (catres rústicos feitos de tábuas e palha) e sempre nos perguntava se nos sentíamos bem, ao tempo de nos aconselhar sobre os afazeres na vida de acampamento, as caminhadas, o banho, os encontros, a hora de dormir e de nos levantarmos, o almorço, a merenda, a comida, o jantar, a TV, as conferências.

Entom tinha uns 70 anos, mas aparentava menos idade.

As suas condiçons de vida eram iguais às de todos os combatentes, salvo que dispunha de um pequeno ‘escritório’ com teito de plástico preto. E, além das armas e equipas regulamentares, tinha umha moderna lap-top, com que trabalhava continuamente numha mesinha que fazia a funçom de secretária.

Mais além: segundo abraço e intensas conversas bilaterais e colectivas

Dous ou três dias depois –nom recordo exactamente- despediu-se com a promessa de nos vermos logo. Nom sabíamos nem onde, nem quando exactamente.

Certamente nos vimos. Uns quinhentos quilómetros selva plana adentro.

O Comandante Joaquín Gómez, quem recentemente substituiu Raúl Reyes no Secretariado, era o chefe do acampamento em que estivemos e nos acompanhou no ponto escolhido para a reuniom: um casarom fresco, com umha marquise hospitalar e grandes quartos, localizado numha fazenda confiscada em território sob influência das FARC.

Antes de arribarmos, vimos o camarada Manuel supervisando a construçom de umha estrada de caliche. Contárom-nos que tinha umha grande intuiçom para as obras civis e que sempre se ocupava de todo o que era construçom.

Com ele, além do seu eficaz corpo de protecçom pessoal e da sua companheira de amor e luita, estavam os comandantes Jorge Briceño, Raúl Reyes, e outros(as) dirigentes das FARC.

Estivo sempre pendente de nossa estadia, perguntando-nos pola alimentaçom, o banho no rio, a dormida… Todos os dias, muito cedo, na hora de nos levantarmos, aproximava-se de nós para nos cumprimentar com carinho e perguntar-nos como passamos a noite, ao tempo de nos lembrar os compromissos do dia.

Evidenciava um grande senso de organizaçom, disciplina e capacidade para ordená-lo todo com suavidade.

Nengum dos(as) guerrilheiros e comandantes sob o seu comando o tratavam com o sentido formal hierárquico da chefatura bem ganhada, mas simplesmente como o “camarada Manuel”, querido, respeitado e admirado.

De falar singelo, franco e comedido, estimulava os seus camaradas e a nós como convidados para intervirmos. As suas intervençons fôrom curtas, mas consistentes, reclamando-lhe sempre aos outros comandantes que desenvolvessem certos temas, atribuindo-lhes –nesses pontos- mais domínio e conhecimento.

Sabia escutar e deixar-se convencer

Penso que isso lhe facilitou, nom só o contínuo crescimento da sua autoridade histórica e do respeito que emanava dos seus dotes de bom organizador e de grande estratega, como também criar e desenvolver umha verdadeira direcçom colectiva e um espírito profundamente democrático e participativo no Secretariado, o Estado Maior Central e os organismos das FARC-EP.

Pensei de imediato na similitude desse processo com a experiência vietnamita, nas ideias do comandante Guyen Giap sobre a democracia no interior das forças militares revolucionárias, sobre a discussom participativa, os acordos colectivos e o mando pessoal. E desde entom concluim que nessa organizaçom político-militar nom ia haver problemas depois do desaparecimento físico do seu líder histórico. A sucessom estava garantida e tinha sido criada com o seu estímulo e participaçom.

As guerras revolucionárias som duras e precisam de protagonistas fortes, firmes, capazes de sérias e as vezes dolorosas decisons. Sempre presentes as pressons para determinadas desviaçons autoritárias, despóticas e militaristas.

Quando via os rostos dessa dirigência das FARC-EP apreciava neles(as) essas qualidades e pensava nesses riscos, os quais devem ser constantemente contrapesados com um profundo senso humano e umha alta sensibilidade social.

Apreciei que o comandante Tiro Fijo, ao tempo de pôr o tiro onde punha o olho, tinha contribuído em muito para contrarrestar as tendências negativas próprias da guerra e do ofício militar, a politizar a luita, a humanizar as relaçons no seio do exército revolucionário e nos seus vínculos com a sociedade rural, a contrarrestar males ancestrais e processos de descomposiçom social externos e a conviver com eles com as menores possibilidades de contaminaçom. A ser duros(as) como o aço e justos(as) em grande dimensom.

Nunca livre, claro está, de erros e deformaçons, mas sempre alerta para os contrarrestar e ultrapassar.

Demo-nos muito bem.

Umha reuniom íntima e impactante

Tivemos umha longa conversa pessoal abaixo de umha frondosa árvore, tam frondosa como La Ceiba ou El Samán.

Pediu-me que lhe contasse sobre o meu país, interessou-se especialmente pola revoluçom de 1965, polo papel de Caamaño e os militares constitucionalistas, pola maneira como enfrentamos a “invasom militar gringa”, o cerco militar, a vida na Zona “Constitucionalista”; polas conseqüências desse facto no devir do processo e a actualidade dominicana de entom. Estimulou-me a conversar sobre o derrubamento do “socialismo real” e sobre a hegemonia neoliberal, sobre seu impacto no continente e o mundo, sobre a situaçom na América Latina e as Caraíbas, e especificamente sobre a situaçom de Cuba e Venezuela.

Contou-me das suas luitas, desde a origem até esse presente, dos avatares de umha lenta e longa acumulaçom até chegar a se converter numha força respeitável, grande, forte.

Insistiu nos riscos que na Colômbia tinha a luita legal e eleitoral, detendo-se na dolorosa experiência da Uniom Patriótica e do Partido Comunista, vítimas de umha repressom traduzida em mais de 4,000 militantes e simpatizantes assassinados(as).

Referiu-se a essa péssima experiência de desmobilizaçom do M-19, a aqueles que assassinárom, já na legalidade, umha parte dos seus principais líderes e o pressionárom para se moderar e se fazer cada vez mais funcional ao sistema.

Enfatizou em que as FARC podiam dialogar e contribuir para os caminhos de paz, mas que “nunca”, “jamais”, iam desarmar-se. Ele e todos os dirigentes das FARC-EP estavam opostos a dissolver numha mesa de negociaçom umha força político-militar que tinha custado muito sacrifício e muitos anos conformar e que era um “património do povo”.

Qualquer saída política -ao sua entender- devia estar inspirada na ideia de umha “nova Colômbia” e, portanto, nas coincidências com respeito a umha agenda de mudanças profundas e, alémdo mais, contar com a presença de FARC nas estruturas de poder, na nova institucionalidade a construir, compartilhando com outros(as) actores(as) a mudança para a nova situaçom.

O acordo de paz, em conseqüência, devia ser programático e prever a superaçom das causas profundas desse longo e sangrento conflito armado. E nesse caminho a existência das FARC como força política e como força militar seria garantia fundamental desse processo, polo qual nom era aceitável o desarmamento e a chamada desmobilizaçom. Expressou-me, em conseqüência, reservas, em diferentes graus, sobre o processos de paz negociada realizados em outros países em anos anteriores.

Um sábio e sincero conselho

Tomou-me confiança e afecto. Recordo que em tom de conselho, antes de concluir essa conversa, dixo-me em forma muito persuasiva:

“Camarada Isa, procurem, se lhes toca reemprender a luita armada, fazê-lo começando com um grande acontecimento nacional, com um alto nível de participaçom do povo, assim como em Abril de 65, garantindo ao mesmo tempo a sua continuidade”.

“Começar desde o pequeno, desde a pequena guerrilha, para crescer pouco a pouco -como o figemos nós- é algo muito difícil, lento, duro…. e geralmente leva muito tempo, custa muitos sacrifícios”

“O ideal é começar com mais força e condiçons políticas e militares melhores”.

Foi um sábio e saudável conselho de um homem sincero, de um protagonista de primeira linha de umha longa e heróica epopeia, de um guerrilheiro lenda. Algo muito valioso e singular.

E tivo o sobre-valor adicional de se despojar da sua própria experiência para explorar modalidades novas e diferentes de insurgência popular. Algo difícil porque geralmente os actores de processos de tanto impacto, geradores de impressons tam profundas na consciência e vida dos seus protagonistas, tendem geralmente a focar os processos de outros países a partir da sua própria óptica e tentam -crendo-o possível- que a sua experiência pode ser transplantada ou exportada.

Continuaçom e conclusom do encontro colectivo.

Depois voltamos ao encontro colectivo e tocou-me fazer a síntese e redigir o comunicado final com a ajuda da companheira de amor e luita do comandante “Tiro Fijo”, na “laptop” do camarada Manuel. Tremendo privilégio espiritual!

Ali se selou um importante momento no caminho da unidade de umha parte dos revolucionários e comunistas do continente. Unidade na diversidade, embriom de algo promissor, ainda em crescimento.

E afinal todos(as) os(as) participantes fomos premiados(as) com um assado e com arroz camponês “ao Tiro Fijo” e com um traguinho dominicano da “mamajuana” que levei.

Depois desse episódio nom houvo mais encontros pessoais directos com o camarada Manuel Marulanda, mas sim umha intensa amizade e colaboraçom a distáncia e por intermediaçom de outros(as) valiosos(as) dirigentes das FARC-EP.

A implementaçom do Plano Colômbia-Iniciativa Andina e especificamente do denominado Plano Patriota (vertente militar colombo-estado-unidense dirigida contra as FARC-EP), junto à ruptura dos diálogos de paz, obrigou o líder histórico dessa força insurgente a se colocar nas zonas mais agudas da confrontaçom e a reforçar as medidas de segurança.

Num momento posterior propujo-se umha nova possibilidade de nos vermos, mas havia que dispor de uns dous meses para chegar e retornar (e eu nom tinha entom essa possibilidade) e, além do mais, a intensificaçom dos confrontos militares complicou posteriormente mais a situaçom e se optou por outras fórmulas como o encontro com Raúl Reyes no seu acampamento do Putumayo e os intercámbios em outros acampamentos com Iván Márquez e outros(as) apreciados(as) dirigentes de FARC.

Ocupei-me sempre de fazer chegar ao camarada Manuel, ainda em circunstáncias tam difíceis, os meus artigos, os meus livros, as minhas opinions… e sempre recebim as suas estimulantes opinions e expressons de carinho.

Igual lhe escrevim algumhas cartas e recebim várias mensagens dele.

Sempre traduzim em factos as minhas palavras de solidariedade e insistim com todos(as) os(as) camaradas das FARC-EP na necessidade de fazer um grande esforço para contrarrestar a perniciosa estigmatizaçom do seu líder e dos seus dirigentes com o mote de “narcoterrorista” empregado polos EUA, a oligarquia colombiana e o perverso regime de Uribe.

Fum muito reiterativo -quase néscio- na necessidade de que se conhecesse em maior escala e com mais pormenores a personalidade de Marulanda, e o pensamento, o proceder e a realidade dessa organizaçom político-militar, porque sabia a resistência dele e outros comandantes -por umha modéstia exagerada- ao que por aqui chamamos o “figureo”. Igual com respeito a outros(as) valiosos(as) quadros dessa organizaçom. Sentia imperioso que isso se figesse.

Porque quando um conhece ao perto seres humanos desse calibre, e particularmente a um revolucionário da estirpe e a trajectória histórica de Manuel Marulanda, nom pode deixar de se indignar, rebelar e assumir todos os riscos para ajudar e estimular a despejar o nevoeiro pré-fabricado de calúnias que ocultava as suas virtudes e era e é usada para criminalizar a insubmissom frente às malfeitarias e injustiças emanadas do poder narco-paramilitar e do Estado terrorista colombiano, satélite dos campeons do genocídio e do saque a escala planetária. E creio que algo se avançou nessa direcçom.

Mas de qualquer jeito, com essa ou sem essa ajuda -que além do mais contou com outros valiosos contributos de outros(as) camaradas do continente e do mundo- a imagem dos grandes seres humanos e dos grandes heróis revolucionários cresce mais perante os olhos da humanidade -ironia da vida- depois da sua morte física e por isso a obra revolucionária do comandante Tiro Fijo, está a passar, agora mais aceleradamente do que antes, a ser lenda transcendente, incontrovertível e inesquecível.

diariodominicano
Sexta-feira 30 de Maio de 2008.

 

 

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