Prestigioso lingüista madrileno denuncia "nacionalismo lingüístico" espanhol

3 de Maio de 2008

Poucas vezes temos ocasiom de ler e escuitar intelectuais honestos que, em minoria, alçam a sua voz do centro mesmo do império. É o que acontece com Juan Carlos Moreno Cabrera, prestigioso lingüista madrileno, na análise do modelo lingüístico historicamente imposto polo imperialismo espanhol. Moreno Cabrera solidariza-se com os povos sem Estado submetidos pola actual 'monarquia constitucional' espanhola e denuncia abertamente a orientaçom ideológica dos 'defensores do espanhol' em países como a Galiza, o País Basco e Catalunha.

Reproduzimos a seguir a entrevista publicada no dia 21 de Abril polo diário espanhol Público com Moreno Cabrera, traduzida para o nosso idioma. O original em espanhol pode ler-se aqui.

A sua postura bate com a ortodoxia

Eu sei. Mas nom vou deixar de o defender. Existe umha ideologia muito desenvolvida, um nacionalismo lingüístico de Estado, embora se esconda. O Estado tem apresentado o espanhol como a língua de bem comum, a de interesse nacional, a superior, a que beneficia todos e fai todos iguais.

Um nacionalismo disfarçado?

Óbvio. O Estado poderia ser nom nacionalista. Neutral em relaçom às línguas. Nom é tal: concebe e promove o castelhano como um valor cívico e por cima das diferenças étnicas, das identidades nacionais. Di-se que o espanhol padrom, o da Real Academia (RAE) é neutral, quando nom é mais do que o desenvolvimento de umha variedade do castelhano. É claro que está etnicamente determinado! Umha prova: a pronúncia do espanhol culto coincide com o castelhano de Madrid ou Valhadolid. A tese de que há umha língua supranacional, mais rica e útil para a comunicaçom, é ideologia. Acontece o mesmo com o inglês e o francês.

 

"Existe umha ideologia muito desenvolvida, um nacionalismo lingüístico de Estado, embora se esconda."

 

Nom é natural que umha variedade seja imposta às outras?

Nom, porque as línguas tendem para se diversificar à medida que se expandem e misturam com outras. Daí que um falante de Cádis saiba distinguir um de Sevilha. Os processos de padronizaçom, em troca, sim som artificiais. E para tal fai falta um Estado unificado e umha estruturaçom política e económica determinada. A criaçom do Estado moderno implica essa concepçom unitária da língua. Censuro por isso os lingüístas que, sabendo que é um processo político, o ocultam para justificarem umha língua que vendem como superior.

Mas porque é que figérom isso?

A Sociologia da Ciência tem mais peso do que se pensa. Os investigadores querem receber subsídios, que os seus resultados sejam aceites pola comunidade científica, nom marginalizados. Se eu nom tivese posto fixo, talvez nom me tivesse atrevido, por sobrevivência. Agora sou mais livre.

Talvez nom viam essa ligaçom lingüística-política que assinala

Eu tento dissociá-las! Fazer o contrário do que os meus colegas fam, que as misturam e nom o dim. O motor que me leva a escrever este livro sim é ideológico. Oponho-me ao imperialismo, ao livre mercado… mas nom uso a política para fazer essa dissecçom, mas só argumentos lingüísticos.

Nom procura a provocaçom?

Nom polas minhas palavras. Som as de todos os especialistas que menciono. O meu livro é quase umha antologia de 300 citaçons de lingüísticas como Menéndez Pidal, Manuel Alvar, Amado Alonso… Escolho textos significativos, duros, transparentes, onde se vê a ideologia deles.

 

"Essa ideologia existe antes e depois do franquismo, nom é exclusiva dele"

 

Quando e como se estabelece o nacionalismo castelhano?

Começa no século XIII, quando Afonso X o sábio opta por umha variedade concreta como língua literária e da administraçom. Já é a eleiçom do Estado. A proeminência do castelhano continua e consolida-se no século XVIII. O processo é duplo: as elites dominantes tencionam que a variedade delas seja a mais poderosa e, em simultáneo, as classes populares imitam essa forma de falar porque é símbolo de prestígio. As línguas estatais nom surgem, portanto, por instituiçons como a RAE. Estas regimentam a variedade imposta dantes por razons políticas, económicas e demográficas.

E Franco contribuiu para essa supremacia

O nacionalismo lingüístico acredita que há apenas umha língua no Estado, a espanhola, e essa é a língua nacional por antonomásia. As outras som secundárias. Essa ideologia existe antes e depois do franquismo, nom é exclusiva dele. A ditadura e só a manifestaçom mais contundente da língua-naçom, veiculada na escola. Porque ainda hoje escritores cataláns publicam em castelhano?

O pluralismo é umha enteléquia?

Nas sociedades ocidentais é muito difícil porque o sistema educativo nom promove isso. Nalgumhas comunidades pequenas, sim existe.

O seu livro sai no meio da fúria polo conflito lingüístico

A briga entre interesses é política: a concepçom monolïngüe do Estado castelhanista e a concepçom plurilíngüe que os cataláns tenhem de Espanha.

O PP ou o partido de Rosa Díez vem perseguiçom do castelhano

Nom, nom é assim. Quando se tenta que o catalám ocupe na Catalunha espaços dantes ocupados polo castelhano, considera-se perseguiçom, o que é absurdo e estúpido. O que se teme é a possibilidade, muito remota ainda, de que o catalám venha a ser língua dominante na Catalunha. Nom seria isso o normal, sendo co-oficial?

A polémica é fictícia, portanto?

É. Transparece medo sem fundamento. Vai perder-se o castelhano, com 400 milhons de falantes?

 

"Se as sançons servirem para promover a língua, aprovo-as. Como socialista, e nom do PSOE, sou partidário de pagar para bens sociais."

 

Mas pode haver desigualdades. Em oposiçons, por exemplo

Esse é um problema do monolíngüe, nom do bilíngüe. Um catalám, um basco ou um galego tem direito a ser ensinado na sua língua materna em todo o Estado. Se se garantir o contrário, que um madrileno poda estudar castelhano na Catalunha. Nom somos iguais?

Nom é um paroxismo que haja coimas por nom rotular em catalám?

Se as sançons servirem para promover a língua, aprovo-as. Como socialista, e nom do PSOE, sou partidário de pagar para bens sociais.

Di que nom há partidos de ámbito nacional plurilíngües

Nom. Só poderia ser IU, mas a esquerda renunciou há tempos a essa palavra de ordem, como ao direito de autodeterminaçom, que eu apoio.

Porquê, por medo? Em campanha viu-se o sensível que o tema é

Depende de onde. Na Catalunha o assunto sim é rendível, e aí o PP nom tem nada que fazer.

Porque para a direita é umha das suas batalhas ideológicas, nom é?

Sim, concebe Espanha como umha única naçom, indivisível, com umha língua nacional possível, o castelhano.

Nom deixa de ser surpreendente que o senhor, madrileno, defenda as teses nacionalistas periféricas

Também eu tinha preconceitos, mas concluim, após ter lido muito e estudar idiiomas, que aquilo que nos diziam de línguas mais fáceis e aptas nom tinha qualquer fundamento lingüístico, mas ideológico. Expugem aquilo na obra La dignidad e igualdade de las lenguas, em 2000. A partir daí, continuei a investigar e deparei com mais argumentos.

Sabe que é citado nos foros nacionalistas e independentistas?

Sim, eles agredecem muito. Até agora, só lhes chegava de Madrid que a sua língua nom valia para nada, e sim o castelhano. Mas nom o escrevim para ser aplaudido. Nom sou dogmático e nom descarto estar equivocado. Essa é umha atitude científica.

 

 

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